Crônica vem de cronos e o tempo influencia por demais a essência delas.

caneta

Foto: Carlos Castelo

Eu queria escrever uma crônica entusiasmada. O fim de ano se aproxima e sempre um crepúsculo é seguido de uma aurora. Mas parece que dessa vez não vai ser assim. Crônica vem de cronos e o tempo influencia por demais a essência delas. Assim vou ficar devendo um texto otimista e animado.

Eu queria escrever uma crônica confiante. Daquelas que os escribas de autoajuda produzem aos borbotões. Um relato, que nas entrelinhas é uma parábola, começando em animosidade e terminando em moral edificante. Palavras que trouxessem a todos que as lessem um sentimento de serendipidade – como se dizia nos anos 1990. No entanto, pensando melhor, não há mais lugar para serendipidade em 2016. Talvez nem em 2017.

Eu queria escrever uma crônica de humor. Entretanto está acontecendo algo bastante triste com a comédia. Até isto polarizaram. Diz-se que os humoristas de esquerda perderam a graça e os de direita preencheram o vácuo deixado por estes. Para sair com uma crônica de humor relevante nos dias de hoje é preciso analisar o público que se deseja atingir: se coxinhas, empadas, mortadelas ou presuntos crus. Melhor não mexer com o tema num momento tão instável desses.

Eu queria escrever uma crônica opinativa. Também não saiu. Há opinião demais no planeta azul. Nas redes sociais então, nem se fala. São milhões de teses se sobrepondo a hipóteses se justapondo a teorias numa gigantesca espiral de enunciações. Infelizmente quase todas ocas.

Eu queria escrever um crônica política. Fui dar uma olhada no noticiário recente para me inspirar e quase expirei. A política acabou tornando-se a arte de separar os eleitores de suas carteiras, uma espécie de subproduto da matreirice praticada pela pior sorte de mequetrefes. A crônica política terminou virando crônica policial, gênero que nunca cultivei por ser excessivamente escrupuloso com meus temas.

Eu queria escrever uma crônica de costumes. Mas ainda há costumes em nosso país? Não os notamos, parece-me, em nenhuma área ou setor da nação: da sala de aula ao mercado de trabalho, da Saúde às Leis, da popa à proa. Constituímo-nos nuns sem-constituição, essa é a dura verdade. Em assim sendo, por que discorrer sobre conduta ou ética?

Eu queria escrever uma crônica qualquer. Não sei o porquê. Crônica não dá pedestal a ninguém. Nas mais importantes premiações literárias ela é vista por curadores e jurados como arte menor. E, quando recebe um lourozinho, é apenas para dizer que o gênero foi contemplado no certame.

É, melhor não escrever crônica nenhuma.