O verbo kibar foi ouvido pela primeira vez nas primeiras décadas dos anos 2000.

Parecia mais um modismo de linguagem. Mas o que aconteceria se, daqui a 100 anos, o inocente termo se estabelecesse como regra e mudasse os padrões morais da humanidade? E, se tudo o que envolvesse criação, virasse um plágio descarado?

Na Literatura, por exemplo, ninguém escreveria mais nada. Só aconteceriam os eventos da área. Obviamente kibados de edições anteriores, com os mesmos palestrantes, temáticas e oficinas.

A FLIP do ano de 2114 promoveria painéis com autores que lançaram obras de Shakespeare, Dante e James Joyce assinando com seus nomes. E um dos maiores sucessos de vendas daquele ano poderia muito bem ser “Grande Sertão: Veneza”, ripado de Guimarães Rosa. O escritor-kibador apenas trocaria o sertão pela cidade italiana e faria constar seu nome na capa.

A Fotografia certamente seria a arte maior do período. Isto porque os fotógrafos conseguem tirar, com grande facilidade, fotos de fotos.

A escultura, está na cara, morreria com a impressora 3D.

Os espetáculos de balé seriam substituídos por grandes telões com coreografias do século XIX.

E o cinema, é fácil imaginar, viraria um gigantesco “remake” de clássicos do passado com um anônimo aparecendo como diretor no lugar de Wells, Bergman e Fellini.

É de se supor que o fenômeno da kibagem também chegaria à Ciência. O Prêmio Nobel, evidente, seria descontinuado porque há anos as pesquisas seriam exatamente as mesmas, só mudando o nome do cientista responsável.

Na Física então o fato preocuparia ainda mais, pois a última grande teoria, pela lógica, seria a da mecânica quântica. E, nas últimas muitas décadas, a maior novidade desafortunadamente seria a mudança da denominação “Bóson de Higgs” para “Bozo Bozinho Bozoca Nariz de Pipoca de Higgs”. E nada mais de novo desde Felix Hoenikker.

E como a Economia seria influenciada pelo kibe? Provavelmente os ministros do setor teriam cargo vitalício. Tomariam posse, kibariam um fundamento econômico qualquer de Adam Smith ou Milton Friedman, rebatizariam, e pronto: estaria garantido mais um mandato.

Entretanto, mesmo em termos de kibagem, não existe unanimidade. A reação a isso um dia teria de vir. Quem sabe no bojo de um movimento mundial que, oriundo de bases populares, iria ganhando força. Iniciaria-se supostamente nas Américas, iria sendo absorvido pelo Velho Mundo e logo repercutiria por Ásia, África e Austrália.

Calcula-se que as suas intenções seriam bem diretas: a autoria precisaria voltar a ter seu lugar ao sol. A batalha se daria na mídia, nos tribunais, Câmaras e Senados dos mais diversos cantões.

Até que, depois de muita pressão popular, ficaria estabelecido, talvez num tribunal suíço, que kibar estaria proibido por lei no país.

Infelizmente, pelo nosso retrospecto como raça, tudo leva a crer que a decisão duraria muito pouco tempo. Viria a China e chuparia o decreto. Uma semana depois, o Paraguai copiaria a China na cara dura.

E tudo voltaria à velha e boa kibagem de sempre.

 

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