Minha parceria com o jornalista Edson Aran começou em 1995. O grupo Língua de Trapo estava numa fase menos ativa do que nos anos 1980 e eu continuava me inquietando por não estar produzindo material quente e fresco.

Foi quando pintou a ideia de sair com um livro de humor negro. Não conhecia nenhum do gênero no Brasil e já curtia bastante o clássico Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República, do Jonathan Swift.

O caminho mais legal e malvado era criar um opúsculo de epitáfios. Um para cada categoria profissional. E a ideia por trás da obra seria a de que a vida é bastante aproveitável, apesar do som e da fúria. Só que, de repente, ela dá um shut down, e você não teve tempo de criar um belo epitáfio para si. Ou pior: vem um inimigo e o redige por você.

Aqui Jaz – o Livro dos Epitáfios (Ática) fazia essa tarefa para qualquer mortal. Uma prestação de serviços fúnebres, algo como uma agência funerária da literatura.

Foi por causa dele que acabei duplando com o Edson Aran e escrevemos o material a quatro mãos, via e-mail. Uma novidade gigantesca para os estertores do século XX.

E que sucesso! Melhor dizendo, que sucesso cult, nada nos padrões paulocoelhistas, mas fez lá o seu buzz pelos idos de 96.

Lembro-me que a editora Abril criou até um site para divulgar o livrinho. Com links para cemitérios icônicos, como o Père Lachaise, Recoleta e outras tumbas célebres. E como esquecer da Marília Gabriela, em seu Cara a Cara, informando, durante semanas, aos convidados quais eram os seus epitáfios, segundo o Aqui Jaz? Até Gilberto Gil foi contemplado com sua frase lapidar.

Também fomos ao inevitável Jô e, pasmem, ao improvável Faustão – que nos entrevistou logo em seguida a um imitador de passarinhos.

Depois de tantas vitórias, Aran e eu tentamos realizar diversos projetos: uma revista eletrônica chamada A Anta Cibernética, um livro sobre nanicos (O Grande Livro dos Anões) e uma continuação dos epitáfios, o Aqui Jaz 2.

Nada rolou. O que acabou acontecendo é que cada um se ensimesmou em seus projetos pessoais. Aran lançou, entre outros, o bem sucedido Conspirações – tudo o que não querem que você saiba. E eu, mais nove livros, como o romance policial Damas turcas, coletâneas de crônicas e um compêndio humorístico sobre vizinhos.

Depois de duas décadas, numa prosaica tarde de sábado, fui até a casa dele, tomamos uns malt whiskies e decidimos que não dava mais pra ficar sem botar algo na rua.

A escolha recaiu sobre um site. Ainda meio altos pelos Laphroaig sem gelo, fizemos um selfie marcando o compromisso e arregaçamos as mangas.

Foram semanas discutindo do nome ao staff, do conceito à necessidade de uma falta de conceituação.

E, depois de duelar com bugs e cavalos de Troia, jogamos no ar, essa semana, finalmente a prometida parceiragem humorística.

Chama-se República dos Bananas e conta com a participação de nomes retumbantes do humor hodierno, como Nelson Moraes, Renzo Mora e Denise Rossi.

Aproveitem pra navegar agora porque outra empreitada dessas só em 2035.