(Foto: Vicko Mozara/ Unsplash)

DIA 1

Levei minha filha à escolinha nessa manhã. O detalhe: empurrando seu carrinho cor-de-rosa Barbie’s style pela rua.
Ao deixá-la no portão, retornei para casa conduzindo-o vazio. Depois de andar uns 100 metros, um garotinho bem pequeno, acompanhado de uma babá, me perguntou: “tem picolé de quê, tio?”

DIA 2

Fui caminhar no parque com a camiseta que a Globo me deu de presente. Tem a logomarca e a assinatura: “cem milhões de uns”. No final da andança, já na calçada, apareceu o garotinho de rua e suas duas irmãzinhas. A mãe vinha mais atrás.
“Pode me ajudar, moço?”, disse ele com voz tristonha.
Expliquei-lhe que tinha saído pra me exercitar, não estava com dinheiro. O guri pareceu entender e saiu.
Quando atravessava a avenida, ouvi o grito: “corre, gente, ele é famoso, é da Globo!”
O menino, a família e mais outras cinco crianças carentes, tentavam cruzar a rua pra me alcançar. Resolvi dar um sprint, só que me pegaram logo após a primeira curva. Hesitei um pouco, mas depois falei que era filho do Cid Moreira. Foi aquela alegria. Como diz o Amós Oz, às vezes é melhor ser mentiroso do que honesto.

DIA 3

Entrei na oficina especializada em suspensão. O dono estava num banquinho, conferindo notas fiscais. Expliquei a ele, em detalhes, o problema dos amortecedores piando. Ele me olhou apenas uma vez, suspirou, coçou a cabeça. Em seguida, suspirou mais uma vez e disse: “ô, Altair, pode ver esse carro?”
Altair fez uma expressão semelhante a alguém que fosse convocado para lutar na guerra da Síria sem poder usar armamentos. Depois concordou em ver os amortecedores, como se não tivesse outra alternativa disponível.
Tudo bem que o meu veículo está igual a Cuba – se quebra alguma peça não repomos e segue a vida – mas hoje me dispus a mudar isso.
Altair deu uma rápida passada de olhos nas rodas e fez uma cara de nojo.
“Ih, isso aqui precisa trocar os batentes, mas é o Linguiça que mexe”
O Linguiça está de licença, só dali a dois dias voltará ao batente e aos batentes.
Por essas e por outras é que acho que o país não anda. Olhando bem é menos culpa da conjuntura que desse ânimo de macunaíma.

DIA 4

Peguei dez livros na Biblioteca do Parque Villas Boas há 15 dias. Cinco pra mim, cinco pra Luísa.
Hoje era o dia da devolução. Estava uns 35 graus quando entrei no parque. Pra completar, um trânsito incompreensível, mesmo pra um domingo dezembrino. Mais: interromperam o serviço “Sem Parar” nas cancelas. Ou seja, estávamos todos nas mãos dos seguranças.
A pergunta deles era se o carro ia para o parque ou para o Cirque du Soleil. Respondi que ia para a biblioteca e o indivíduo teve que consultar o supervisor pra ver em qual procedimento eu me encaixava. Ao voltar me informou: “liga o pisca e vai em frente”.
Fui. Ou melhor, tentei ir. Tudo parado. A impressão que dava era que o circo tinha comprado o parque. A preferência em tudo era pra quem assistiria o espetáculo. Meu veículo, que costuma ficar a poucos metros da biblioteca, teve de ser estacionado a um quilômetro de lá.
Como sempre, não havia o que fazer, nem a quem reclamar. Entreguei os livros no balcão, peguei mais dois de ensaios, e sai para buscar o carro na área C do estacionamento. Foi quando começou a chover.

DIA 5

Não gosto de viajar. Já trotamundeei por esse planeta troncho muitas vezes, mas me enchi. Quando pintar o teletransporte talvez eu vá até a algumas localidades que ainda me interessam, mas, por enquanto, evito os deslocamentos como o tinhoso foge da cruz.
A esposa, contudo, queria descansar em Paraty. E não é que achei simpática a ideia de ir a uma cidade de escritores, sem os escritores? É algo incrível, de fato. Nenhuma mesa redonda, palestra, speech, tarde de autógrafos. Muito menos Lázaro Ramos discorrendo sobre suas ideias literárias. E ainda tem aquelas lulas do Hiltinho, coisa de se comer vestindo luvas de renda.
Enfim, estamos aqui num dos destinos da Estrada Real. Paraty agora é só minha. Não dou e nem empresto a nenhum outro escriba. Pensando melhor, se o Paulo Coelho pedisse, venderia 50% do espaço pra ele. Pagando adiantado e em bitcoin, é claro.

DIA 6

Carioca é um povo feliz até em ambulatório do SUS. A pequena Luísa teve dor de ouvido ontem à noite e resolvemos trazê-la no PS do Hospital da Praia Brava, ao lado daquelas infaustas usinas nucleares. O local atende a “Associação dos Aposentados e Pensionistas de Angra dos Reis” e outros planos, além do SUS.
Quando chegamos havia uma festa de aniversário no rol. A angiologista estava ficando mais velha.
Uma tia septuagenária e outra senhora oxigenada puxavam o “parabéns a você” e daí pra engatarem no samba-enredo da Imperatriz foi um pulo. Doentes com soro na veia batiam palmas, enfermeiras usavam comadres como percussão e uma velhinha tirou a máscara de oxigênio pra entoar melhor o “larilairai” do refrão.
Luísa melhorou. Deve ter sido o astral do ambulatório.

DIA 7

Jantar no Hiltinho à base de lulas grelhadas. Na volta, garoinha praiana típica dessa época do ano. Só que, na subida empedrada da entrada da fazenda, o carro começa a deslizar e não sobe. Duas tentativas e nada. Luísa e a mãe sobem à pé o restante da estrada escura como alcatrão. Tento vencer a ladeira de ré. Chego na metade e paro pra não forçar o motor.
Vem uma senhora da vizinhança, a luzinha do celular acesa.
“Num vai, né?” – ela fala com forte sotaque caipira.
“Não, está liso que nem quiabo” – respondo.
“O senhor engatou a primeira e subiu ligeiro?”
“Sim, duas vezes”
Então ela diz o seguinte:
“Quer descer? Eu tento subir o carro pro senhor.”
Nesse momento notei que ainda estou longe de ser um homem do meu tempo. Acelerei e subi o morro soltando fogo pelos pneus.
Um dia consigo ser politicamente correto.

DIA 8

Voltei à casa com uma conclusão. Vivo no bairro onde moram minhas férias. Gosto de coisas simples: caminhar, ler, eventualmente um lugar onde merendar (termo piauiense) às tardes. Não vai muito além de tais desejos. Onde resido tem tudo isso e um pouco mais. Dois parques próximos de casa, uma excelente biblioteca e o melhor cheese cake da pauliceia. Pra que mais? Faço check-in e check-out todo dia na minha própria mansarda e nunca tem overbooking. Melhor assim.