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Foi num sábado de carnaval em São Roque. Saímos dessa cidade onde meu pai tinha um sítio e dirigimo-nos até a vizinha Mairinque. Zé Renato, um saudoso e querido primo, eu e mais duas garotas que tínhamos conhecido no carnaval de rua dali.

O porquê dessa de ir a Mairinque, não me lembro mais. Deveríamos ter ficado ali mesmo, pulando no São Roque Clube. Fomos em meu Fuscão preto. A garota dele era alta e fornida. A minha magrinha e gaga.

Paramos em frente ao clube e fomos direto ao salão. Quando eu entrava com a magrinha, ela me mirou, as butucas dos olhos quase a espocar, e começou a falar em soquinhos:

” O Don, o Don, o Don, o Doni!

Repetia a frase cada vez mais alto. Achei que fosse um refrão afrobaiano qualquer e aproveitei pra lhe dar um soprão no ouvido. Só que, de repente, meu chapéu panamá foi arrancado brutalmente e levei um cascudão que me botou tonto. A gaga finalmente desembuchou a frase:

“O Donizete é meu namorado!”

Quando vi o Doni me deu até um esmorecimento. O sujeito era um Serginho Chulapa caucasiano, um verdadeiro armário humano. Num relance rápido deu para notar que era uns 25 centímetros mais alto que eu, tinha a barriga zero, os bíceps eram tríceps e os tríceps, quadríceps. Ou seja, um verdadeiro quadrúpede. Pior: um quadrúpede louco pra acertar uns coices na minha cara.

Calculei melhor o risco nos segundos seguintes. Se ficasse parado ali apanharia mais que terrorista em Guantánamo. Resolvi então promover o inusitado. Num arranque inesperado, meti o pé nos peitos do grandalhão. Peguei meu panamá de volta e, enquanto ele se recompunha, sai me esgueirando com o primo por debaixo das mesas de plástico do clube.

Quando conseguimos chegar na porta da agremiação, notamos a turma do Doni Chulapa vindo em nossa direção. Eram cerca de dez raivosos quadrúpedes, como ele. Detalhe: cada um com um pedaço de pau na mão.

Corremos pro estacionamento e, antes de entrarmos no fuscão preto, nos entregamos ao PM de plantão no local.

Sonado, o meganha nos olhou naquela roubada e falou:

“Acompanho o carro docêis na viatura até a divisa com São Roque, de lá ocêis aresórve o causo por conta pópria”.

O veículo de Donizete e seus comparsas – uma Kombi – nos seguiu até a entrada da cidade. Depois entraram num trevo e saíram pra sempre de nossas vidas.

Nunca mais vi a gaguinha.