Foto: Simson Petrol (Unsplash) 

Bem que tentei achar algum cronista influente para prefaciar meu novo livro. Nenhum topou. Depois de refletir um pouco sobre a recusa conclui que, mesmo eles, deviam estar ocupados tentando descolar uma editora que topasse lançar seus próprios livros de crônicas.

Fato inexorável, o gênero crônica, em livro, precisa ser repensado: anda mais desprestigiado que dvd de videolocadora de bairro. O difícil é entender o porquê. Pois a crônica já foi embalada por nomões da nossa Literatura, a saber, Machado de Assis, Paulo Mendes Campos, Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Luís Martins, só para citar os meus favoritos.

Trata-se de uma maneira muito a fim ao nosso tempo sem tempo, pela sua síntese, de refletir sobre o dia-a-dia. E, pela sua formatação ágil, permite de digressões sobre o umbigo à uma ficção científica nos anéis de um planeta cujo nome é uma sequência de números em outra galáxia.

Mesmo assim, se você não for o Paulo Coelho, tente oferecer seus originais a um editor.

Logo vêm as clássicas justificativas. Podem ser desde que a política editorial da empresa não contempla a edição dessa modalidade literária, que os relatos dos blogs tomaram o lugar da crônica ou simplesmente que não se interessaram pelo seu material – de longe, a opção mais usada, vinda num papel A4, com o timbre da editora num envelope de papel pardo, pelos Correios.

Como você já deve ter notado foi preciso uma grande teimosia para conseguir escrever esse prefácio sobre mim mesmo.

Tudo começou quando percebi que tinha jeito para ser cronista, no início dos anos 1980, na faculdade de Jornalismo. Como já não havia espaço para redigir o gênero nos veículos da grande mídia, resolvi editar o meu próprio jornal: o sarcástico “O Matraca”. Nele, eu escrevia quase tudo: o editorial, uma crônica de humor, uma sobre bares e participava da pauta da entrevista. E ainda o distribuía por bancas e livrarias de São Paulo.

“O Matraca” foi o kick-off para minhas outras tentativas, já no início dos 1990, de atuar na grande imprensa. Depois de muito insistir no erro acabei virando cronista do Caderno 2, do O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Caros Amigos, O Pasquim 21, VIP, Sexy, Playboy e atualmente mantenho uma coluna na Bravo!

Só não pensem que foi tranquilo. Vivia incomodando escritores renomados, pedindo-lhes que me indicassem a editores, me escrevessem prefácios ou simplesmente me aconselhassem.

Tive a sorte de contar com a paciência de Fernando Sabino, meu colega de Caderno 2 do Estadão em 1986. Num encontro com o mineiro na livraria Siciliano do Shopping Iguatemi – no tempo em que o Shopping Iguatemi tinha uma livraria decente – ele me desafiou, na dedicatória de seu livro “Os Melhores Contos de Fernando Sabino, a “acreditar na força de uma vocação e fazer os maiores sacrifícios para alcançá-la.”

Mal sabia o Sabino a quem estava propondo aquilo. Ganhei ainda mais testosterona para encher a paciência de outros pares dele. O próximo foi o contista João Antônio, de quem me tornei missivista. Durante um ano trocamos cartas e ele me sugeriu que, “retrasse o patético”, que via em São Paulo, utilizando a linguagem que mais amasse, no meu caso o humor.

Como bom discípulo o obedeci. E, alguns meses depois, estava pentelhando Luis Fernando Verissimo para que pensasse numa apresentação para o meu, afinal, primeiro livro de crônicas, “O caseiro do presidente e outras notícias de uma chácara em estado de sítio” (Nova Alexandria, 2001). Verissimo aceitou e dizia no prefácio que eu “sabia escolher como ninguém as letras certas no teclado e era uma raridade no panorama da crônica brasileira.”

Não preciso dizer que me animei. A ponto de tentar coligir mais uma seleta de crônicas – até o momento sem prefácio de cronista-celebridade e de editora, é claro.

Em tempo: não fosse eu mesmo que estivesse escrevendo este prefácio sobre a minha trajetória diria que, só pelo fato de tentar me manter num gênero tão fundamental como a crônica, você deveria comprar esse meu futuro livro. Se todos fizerem isso, em breve, os cronistas como eu não ouvirão mais ao submeterem seus originais: “como assim, um livro de crônicas?”