César Brunetti subiu a escada rolante para o mezanino.

Foi em 13 de agosto, do coração. Logo ele que escreveu esses versos para Elizeth Cardoso entoar:

 “Aguenta, coração

E sustenta tua sina como um estandarte

Se amanhã tu te calas de angina ou de enfarte

Cantarão pra lembrar-te mais mil corações”

É triste demais, mas acaba acontecendo com todo mundo. Todavia, nesse caso, o mais triste mesmo é ele ter falecido e você nem saber quem é César Brunetti. Sim, o funesto é você ter passado anos de sua vida ouvindo muzak e não ter colocado a audição a serviço de música tão original e inteligente.

César Brunetti foi um letrista singular. Da linhagem de Noel, de Aldir. Mais do que um fazedor de rimas e versos, era um cafetão de estrofes. Sabia tirar tudo da métrica, desnudá-la, deixá-la de quatro, apenas para exercer sua função de dar prazer aos receptores.

No entanto, o proxeneta, no melhor sentido lírico, só deve ter auferido algum lucro na publicidade, onde foi um bem sucedido fazedor de jingles memoráveis. Só pra citar dois, ele criou  “Pipoca com Guaraná” e o dos “Bichinhos” de Parmalat.

Na MPB, com toda certeza, foi um rufião poético sem fins lucrativos. A mídia o ignorou. Talvez porque o seu sarrafo fosse alto demais.

César Brunetti nunca faria uma letra de breganejo, nunca iria a um quiz-show de apresentador popularesco, jamais cantaria dublando num palco – a não ser que isso gerasse uma piada.

E como sabia fazer piadas musicais o César Brunetti! Aglutinava os vocábulos, organizava a melodia, os tons e maneiras da fala para causar o melhor efeito, suscitar o maior impacto. O outro nome disso é timing, e o César Brunetti dominava a arte do ritmo em verso e notas.

Como ele existem dezenas de artistas geniais que você deveria conhecer e nunca ouviu falar. Talvez fosse interessante perder uns cinco minutos se perguntando porque isso acontece.

Seria preguiça de pesquisar? (atualmente não é uma boa desculpa visto que há de tudo nos spotify-da-vida). Seria o Mercado? (mas hoje existe um Mercado tão influente como d’antes, ainda mais com “m” maiúsculo?) Ou seria a ascensão inexorável do pagode?

Provavelmente não haverá solução para tais perguntas. Teremos que ficar apenas com a trágica realidade de que o César Brunetti não está mais entre nós. E que talvez você não esteja nem aí com isso.

Então, como ele mesmo cantava, vamos seguindo, a passos largos: “tudo para o Paraguai”.