Virava e mexia, ela voltava com o mesmo discurso.

– Eu não acho que as coisas entre a gente estejam tão boas assim, Antero.

Era uma união de 20 e tantos anos. Natural que as coisas se afrouxassem. Apesar de que, nesse tempo todo, nunca houvera uma falta mais grave. Aquilo que a mulher reclamava era justo. Mas fazer o que a respeito?

Antero, que ao ouvir a queixa estava postando fotos no Facebook, interrompeu o procedimento e dirigiu-se à esposa:

– Antes me diga: existe alguma coisa, pelo menos uma, no nosso casamento que você gostou MESMO?

Gisa não pestanejou:

– Existe. O nosso casamento.

Antero ficou confuso.

– Como?

Gisa fez um gesto de impaciência.  Então explicou:

– O nosso casamento: a cerimônia, a festa. Foi a parte que eu me lembro com mais carinho de tudo. Só disso também.

Antero deu “shut down” no computador e disse:

– É, foi demais. A recepção no bufê do teu primo, que banda aquela, hein?

–  Nossa! Escolhemos juntos o repertório, lembra?

–  Começou com Jovem Guarda, depois Beatles, discoteca e terminou com sambão.

– E o cardápio?

– Meu Deus do céu, sensacionais aquelas trouxinhas de salmão laminado, ai!

– Para, amor! Deu água na boca!

Depois de relembrarem cada detalhe, o marido virou-se para Gisa e propôs:

– E se a gente casasse de novo?

A esposa estremeceu. Ele argumentou:

– Se foi a melhor coisa do mundo pra você, por que não repetir?

E veio o casório. Como já estavam comprometidos no civil e no religioso, contrataram atores para fazer papéis de padre e juiz de paz. O restante foi bem semelhante às primeiras núpcias. Só mudaram os padrinhos para dar um tom novo ao evento.

Essa segunda boda foi ainda mais antológica. Como já haviam passado por aquilo uma vez, conseguiram aproveitar melhor. A música ficou mais afiada, os comes e bebes pareciam mais deliciosos, a bebida inebriante.

A concórdia durou seis meses.  Um dia, do nada, tiveram um pequeno entrevero. Antero aborreceu-se com um comentário mais ríspido de Gisa e passaram a dormir cada um numa cama.

O jeito foi casarem-se de novo. Dessa vez a opção foi uma festa na praia. Sempre tiveram o desejo de vivenciar algo assim. Os convidados com roupas casuais, de sandálias, o mar brindando a re-união.

Novamente, um sucesso e uma alegria que se estendeu por mais de ano.

Até que Antero deitou os olhos em cima de uma colega de trabalho e Gisa acabou sabendo por terceiros.

Para atenuar o golpe, partiram para mais um casamento, agora no estrangeiro. O local da cerimônia foi um hotel em Miami. Festa petit comité: pais, padrinhos e uma recepção nos jardins com champanhe.

Mal voltaram de viagem e já começou a discussão.  Gisa não perdoava o interesse de Antero pela sirigaita do escritório.

– O que mais podemos fazer? – perguntou o marido, com ar cansado.

Gisa prontamente respondeu:

– Agora só mesmo um casamento grego. Já viu a cerimônia? Lindíssima!

 

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