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(Pixabay)

Ideia para um conto futurista que se passa no Brasil no ano de 2045.

“Clara pega o trem aéreo e chega na escola em menos de cinco minutos. Está no terceiro ano do Segundo Grau e pretende fazer Letras. A professora de Português pergunta se todos leram o quarto capítulo do livro “Cartas na Rua”, de Charles Bukowski. Todos haviam lido e ela inicia a sessão de perguntas para checar se todos, de fato, haviam compreendido o texto e o contexto.

“Bukowski era um escritor bêbado?”

“Depois do jóquei e dos bares sórdidos, que outro lugar ele adorava frequentar?”

“Bukowski era beat?”

“Seria possível uma literatura na internet no início do século XXI sem Charles?”

A classe está afiada e responde a todos os questionamentos da mestra. São dispensados. A professora pede apenas que tragam na próxima aula um trabalho sobre a importância da ressaca na produção literária de Charles Bukowski.

Clara vai tomar um lanche na cantina. Antes resolve passar na biblioteca. A escola havia dispensado a bibliotecária e o sistema de computadores do acervo. Desde 2040, as estantes ali só contam com a letra “B”. Os livros eram catalogados por sobrenome de autor e só existem obras de Charles Bukowski.

Clara prefere ler uma versão analógica de “Notas de um Velho Safado”. Apanha-a e sai em busca de café.

Terminada a aula, sai rápido da sala e ganha a rua. Quer chegar logo em casa para curtir o livro e depois assistir a série de TV baseada nos contos de “Numa Fria” do velho Buck.

No caminho, entretanto, cruza com um personagem estranho. É um mendigo, para ela bastante assemelhado ao velho autor bêbado. Pernas compridas e finas, um ventre avantajado e no rosto uma barba irregular. A figura chama a atenção de Clara; a ponto dela obedecer a um aceno daquele espectro e segui-lo. Vão até um velho e obscuro porão na zona pobre do bairro. Quando Clara começa a acostumar a vista percebe, ao fundo do ambiente, uma pilha de livros empoeirados.

O mendigo, que parece mudo, começa a remexer naquela grande biblioteca decadente. Clara vai até perto dele e tem a primeira surpresa do dia: nenhum daqueles livros são obra de Charles Bukowski. Na estante há autores diversos: nomes e sobrenomes em línguas inimagináveis – Mann, De Assis, Rosa, Tolstói, Poe, Lorca…

O mendigo entrega a ela um livro de Aldous Huxley. E foge quando escuta o ruído suspeito de passos lá fora. Os passos eram de colegas de escola de Clara, nada de intimidador. Ela segue pela rua lendo um dos capítulos do livro presenteado pelo estranho homem. Segue na direção da estação de trem aéreo Bar Fly. Como nunca tinha pensado que existiam outros escritores como Buck?

Fecha o livro enquanto atravessa a avenida Henry Chinaski. Acaba sendo atropelada por um ônibus movido a hidrogênio que estava se dirigindo ao Jardim Factotum. Após o impacto, a brochura de Huxley cai de suas mãos e precipita-se como uma rocha num desfiladeiro dentro de uma boca de lobo.

Fim.”