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(Pixabay)

Ano passado descobri que estava com sobrepeso. Fiquei andando pra lá e pra cá com o meu excedente de gordura sem saber o quê fazer. Um amigo me aconselhou a consultar uma nutricionista. “Nutricionista é como mãe, é bom você ir de vez em quando pra tomar uns puxões de orelhas.”

Fiquei com aquilo na cabeça.

Dias depois estava flanando no Bom Retiro, onde sempre vou almoçar num restaurante coreano, quando vi a placa: “NUTRISIONISTA”. Sim, era com “s” e havia uma razão para aquilo: Judith era de Haifa, mas domiciliada em São Paulo desde 2002. Pensei, sorrindo com meus botões: se meu amigo tiver razão, ou seja, se uma boa nutricionista é feito uma genitora, essa deveria ser a melhor de todas – era uma ídiche mamma.

Entrei em seu consultório e logo fui recebido com um maternal apertão na bochecha. Sentamo-nos à sua mesa de trabalho e ela, antes de dizer algo, puxou um prato de lindos varenikes e ordenou:

“Come, você está com cara abatida.”

Mastiguei as deliciosas guloseimas sob o olhar orgulhoso dela. Ao pegar o segundo bolinho, ela saiu da sala e, momentos depois, me trouxe um Ovomaltine batido no liquidificador, geladinho. Só depois que finalizei a boquinha, a nutricionista israelita começou a anamnese propriamente dita. Antes indagou se eu estava satisfeito, se não queria mais alguma coisa para forrar o estômago.

“Que tal uma pipoquinha doce agora? Eu sei fazer uma ótima!”

Terminei aceitando a pipoca – que, de fato, estava especial – e respondi às dezenas de perguntas de seu questionário. Curiosamente, nenhuma delas relacionava-se a peso, ingestão de carboidratos ou açúcares. A preocupação de Judith era com a minha autoestima. Estava me sentindo feliz, as pessoas me adoravam, alguém me maltratava, era valorizado no trabalho?

“Isso é muito importante, se alguém estiver te fazendo mal, por favor, ligue pra esse número.”

Era o celular dela num cartão social. Judith completou, antes de me passar o plano de dieta:

“Me adicione no Whatsapp. Estou sete dias por semana, 24 horas por dia, à sua disposição, filho.”

Agora estou completando um ano de tratamento. E aprendi muitas coisas. A principal foi me policiar a comer de meia em meia hora. A dieta vai de doces que ela mesmo faz, língua de boi no salitre e guefilte fish. Os quatro lanchinhos do dia são todos à base de bagels, batatas e salada de ovos. Comecei a visitá-la mensalmente, mas depois de um tempo Judith decidiu que as consultas estavam muito espaçadas.

Passei então a ir ao Bom Retiro toda semana. Mais recentemente ela propôs que eu fosse almoçar em sua casa aos domingos. Nesses dias ela mesma prepara as receitas do meu programa alimentar e, como é desnecessário ser ortodoxo quando o assunto não é Oriente Médio, efetiva um bolo de mel especialmente para mim.

Desde que a conheci ganhei 14 quilos. Mas, se eu não saboreio o que Judith me oferece, ela garante que se mata.