Pra mim, as paletas mexicanas são um enorme mistério de marketing. De repente surgiram e, em cada quarteirão da cidade, você esbarra com garotas e garotos, metidos em sombreros, transacionando os tais gelados à Frida Kahlo. Quem teria importado o modismo? Por que prefere-se tais gelados chicanos aos tablitos da vida?

Ninguém sabe responder. Comprei um pra ver se descobria algo novo e, a mim, não passou grande diferenciação. Talvez sejam um pouco maiores e massudos que os picolés de limão que eu bicava regularmente. Mas continuam sendo picolés. Não justificaria tanta comoção em torno deles.

Outro dia, saboreando uma paleta de frutas vermelhas e notando tanto sucesso em redor daquele palito, ocorreu-me um negócio gastronômico lucrativo. Como tenho espírito empreendedor já comecei a fazer dezenas de contatos internacionais e, em breve, abrirei a primeira rede de entomofagia mexicana no Brasil. Quero surfar na onda dos sorvetes, claro, só que fazendo o público aprender a degustar algo mais desafiador: insetos.

Ok, concordo que talvez possa ser um pouco ousado. Mas alimentar-se com aquelas espumas e gelatinas quentes do Ferran Adrià, a peso de euro, todo mundo quer, por que não experimentariam larvas e grilos num ambiente acolhedor, com toques astecas?

No frigir dos ovos de aranha, o mais importante é a apresentação e o serviço. O indivíduo pode perfeitamente jantar um urubu à cabidela desde que a casa seja decorada dentro de um conceito coerente, a louça étnica e os garçons saibam descrever o abjeto penoso de um modo politicamente correto. Algo como:

“A nossa chef selecionou para o menu do dia tenras porções desossadas da rara ave Coragyps atratus. Tudo é lentamente cozido por 36 horas e ao suculento molho são acrescentadas batatas dos Pirineus e cebolinhas rústicas. Para acompanhar sugerimos Château Gloria, safra 1989.”

Como disse, a minha rede de entomofagia caminha a passos largos. Contratei inclusive um chef, um arquiteto e uma agência de propaganda. O primeiro está pensando no preparo dos animaizinhos, o segundo projetando os ambientes, o último inventando a denominação e o conceito. O nome que mais gostei até o momento foi “ La Maria Fedida”. O slogan proposto pelos criativos é: “coma, não tem grilo”. Um jogo de palavras espirituoso, evidentemente, pois teremos, sim, grilos. E, além deles, formigas, escorpiões, libélulas, cigarras, cupins, tarântulas e o carro-chefe – marias fedidas.

O projeto arquitetônico concebeu um local muito “clean”, paredes imaculadamente brancas e, na parte principal do salão, mini-contêineres de material transparente com os insetos dentro. O cliente pega a sua louça e escolhe à vontade o que vai querer. Leva ao funcionário do caixa, que pesa, oferece uma bebida e o libera para a refeição. Está previsto ainda um serviço delivery charmoso que levará até os domicílios tudo o que o “La Maria Fedida” oferecer. Em carros antigos, estilo baratinha.

A ideia me animou tanto que estou pensando em lançar o “La Maria Fedida – Kids”, em 2016, nas Olimpíadas. Criança também merece uma refeição rica em vitamina B.