Aquele foi um dia braçal. No momento em que começou a festinha de aniversário da minha filha, por volta das 16 horas, eu já tinha carregado o equivalente a oito contêineres de utensílios domésticos, salgados, doces, adereços e flores para o salão de festas do prédio.

Isso sem falar numa escrivaninha de mogno que trouxe nas costas, do décimo-sétimo andar para fazer as vezes de trocador de bebês. Detalhe: pela escada de emergência. E ainda teve a instalação da Peppa – que interagia com as crianças dando arrotinhos – montada na noite anterior.

Quando afinal adentrei no salão para participar do evento, a palhaça da festinha, uma senhora idosa e de expressão cansada, anunciava que chegara o momento da distribuição dos pirulitos.

Houve um alvoroço. E não foi dos bebês, mas das mamães. Formaram um círculo em volta da longeva artista circense, pegavam os doces do saco e comentavam olhando para a embalagem:

– O Fabinho não vai comer isto aqui: tem monoestearato de glicerina.

– Felipa não pode, esse doce contém emulsificante à base de lecitina de soja, ela é superalérgica!

– Para, para! O Joaquim não pode nem triscar em xarope de glicose!

A palhaça ia recolocando os pirulitos no saquinho e ficando cada vez mais abatida. Mas, tudo bem, palhaço triste é normal, tem até pintura em cima da temática.

Quando imaginei que a confusão terminara chega o pai do João Pedro, esbaforido.

– Cara, a babá deu o cano, a Mariana pegou um trampo pra fazer e eu estou numa concorrência lá na agência. Você pode tomar conta do JP pra gente durante a festa?

Olhei para o garotinho e assenti. O pai saiu correndo, aliviado.

– Às nove, eu volto! – falou sem se virar.

Antes que eu olhasse para baixo, JP já tinha se abraçado com minha batata da perna e aplicava nela dolorosíssimas caneladas. Berrava:

– Quero hot dog, quero hot dog!

Fui até a tendinha e pedi que preparassem um cachorro-quente pra ele.

Entreguei-lhe e, no momento seguinte, levei um jab no queixo.

– Eu não quero com mostarda! – urrou o menininho enfezado.

Montei um, eu mesmo, só com catchup e salsicha. Dessa vez, ele comeu metade. Fui dar atenção aos outros convidados. Quando voltei o peixinho beta da minha filha estava morto: afogamento por ingestão de embutidos.

JP estava ao lado do infeliz, com cara angelical. Mas aquele angelical do boneco Chucky.

Fiquei na cola. Minutos depois, ele me pede pra fazer cocô.

Aliviou-se só depois de tentar durante 20 minutos. Em função disso perdi os parabéns da filha.

– Limpa minha bumbuca! – ele ordenou.

Nãda disso, melhor chamar uma das babás que circulam por ali para higienizá-lo. Quando abri a porta, ele se indignou:

– Eu quero que VOCÊ limpe a minha bumbuca!!!

Tentei contê-lo, mas JP saiu aos gritos pelo salão, nu da cintura pra baixo, e com um rolo de papel higiênico fazendo as vezes de serpentina. Chorava.

Uma multidão de mães tentou apaziguá-lo, mas foi em vão. Logo tropeçou, caiu e meteu a testa numa quina. Em meia hora, a festa inteira foi parar num PS para suturar o supercílio do malino.

Nove horas em ponto chegam o pai, a mãe e a avó de JP no prédio. Ao notarem que o queridinho estava suturado entraram em parafuso. A mãe indagou:

– O quê foi isso, meu amor? Fala pra mamucha!

– Ele não quis limpar minha bumbuca, eu corri e cai – declarou JP, exagerando na vitimização.

A avozinha, interrompendo o silêncio que se impusera no salão, e olhando direto em meus olhos, disparou sem dó:

– SEU TARADO!