Por Paula Antunes Ruggiero
O contato da criança com a leitura e a escrita na escola acontece muito cedo: ao escrevermos o nome nos trabalhos, ao lermos histórias e receitas, ao mantermos uma biblioteca ao acesso delas, entre outras atividades cotidianas. Sempre que lemos ou escrevemos, informamos às crianças a função da escrita. Isso não é exclusividade da escola; em casa, os pais também fazem isso desde muito cedo. Quem não leu historia para seu filho mesmo antes de ele ter completado um ano?

Vivemos rodeados de escrita: nas roupas, nos produtos, nos outdoors etc. Escrevemos o tempo todo na frente das crianças: número de telefone, lista de supermercado, e-mails e muito mais. Elas, por sua vez, pensam sobre a escrita e tentam desvendar o mistério das letrinhas do mundo adulto.

Paulo Freire (1982) afirma que “A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele“. As crianças leem o mundo a sua maneira, com todos os sentidos, pela brincadeira, pela exploração, pela percepção de cada detalhe. Quando aprendem a ler, ganham novos recursos para desvendar o mundo.

As crianças estão  rodeadas pela escrita, vivem num mundo letrado e interagem mais ou menos com esta escrita.  Bem pequenas, distinguem desenho de escrita e inventam grafias diferentes para brincar de escrever. Por volta dos 4 anos, imaginam que, para ser lida, uma palavra deve conter mais de 3 letras e estas não podem se repetir. OVO, PÁ, PÓ, por exemplo, não seriam palavras. As crianças pensam ainda que palavras grandes designam objetos ou pessoas grandes; palavras pequenas, objetos pequenos. Assim, FORMIGUINHA deveria ser o nome do LEÃO.

Aos poucos, observam o som das palavras, brincam com rimas e compreendem a relação da fala com a escrita, que o que está escrito pode ser lido da mesma maneira por qualquer leitor. Começam então a arriscar a escrita de uma letra para cada sílaba oral, para cada emissão sonora. O produto final desta escrita entra em contradição com aquela ideia de que palavras com poucas e repetidas letras não servem para ler, então ensaiam novas combinações e avançam em seu processo de construção da escrita.

As letras dançam pelo papel, se invertem, parecem espelhadas. Aos poucos vão se enfileirando, dando espaços, fazendo sentido. Daí para a escrita convencional é uma questão de muitas tentativas, repertório, segurança…

O sentido da escrita faz toda a diferença, não o da esquerda para a direita, mas o sentido que tem para a criança este aprendizado. Para algumas, o tempo ainda é de brincar no quintal, investigar os bichinhos, correr e pegar os amigos, jogar bola, fazer bolos na areia e lindas construções.

Há crianças que se alfabetizam rapidamente, outras demoram bastante, e é assim que acontece. Para uns mais cedo, para outros mais tarde, como andar, falar, andar de bicicleta, dirigir, aprender inglês.

Letramento é o conjunto das práticas sociais que negociam com a criança os usos da escrita. Encontramos diferenças nessas práticas de família para família. Trabalhar com o letramento significa aproximar a criança da língua escrita, na sua função, na sua diversidade de portadores, nos seus estilos. Significa ver na criança um leitor que ainda não lê e um escritor que ainda não escreve. O letramento prepara a criança para a alfabetização e depois a alfabetização dá condições para a ampliação do grau de letramento.      

Para aprender a ler e a escrever, a criança precisa construir um conhecimento de natureza conceitual: precisa compreender não só o que a escrita representa, mas também de que forma ela representa graficamente a linguagem. Este processo se dá dos 5, 6 anos até os 9, 10 anos, com o domínio da leitura solitária e silenciosa.

Algumas dificuldades são inerentes a esta fase. Se antes o desenho podia ser “do meu jeito”, agora não é assim; se não escrever corretamente (ou quase), as pessoas não conseguem ler. Além disso, se algum amigo aprende a ler e escrever rapidamente, a crianças muitas vezes se sente incapaz e prefere não se arriscar. Questões do aprendizado, do crescimento… Questões que a criança precisa transpor para crescer.  

O problema, a meu ver, é que muitas escolas determinaram que o tempo de alfabetizar é no primeiro ano do fundamental, com 6 anos, no antigo pré. Ok, muitos se alfabetizam nesta época, mas e se não?

Para as crianças, a expectativa dos adultos é sim um problema. Todos comentam, querem saber: Você já sabe escrever? Algumas escolas fazem ainda um vestibulinho disfarçado e escolhem as crianças alfabetizadas para seguir com a homogenia do grupo. Hum…

Se acharmos que todos devem ter as mesmas oportunidades, temos que dar de fato o TEMPO que cada criança precisa.