Nos dias 20 e 21 de março o MPASP (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública) realizou sua terceira jornada nacional, cujo tema foi A Clínica Psicanalítica com Autismos. Psicanalistas, psiquiatras, psicólogos, pediatras, educadores, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, entre outras especialidades, com a presença de uma mãe de criança com autismo e outra cujo filho apresentava sinais de risco para o autismo, mas que hoje encontra-se falante e interagindo com o outro, estiveram reunidos debatendo temas como detecção precoce de sinais de vulnerabilidade ao desenvolvimento infantil; intervenção precoce e seus benefícios na estruturação psíquica da criança; o panorama das políticas públicas para o autismo no Brasil; contribuições das neurociências, da genética e da epigenética; o uso de psicofármacos e outros medicamentos; a escolarização e a inclusão escolar e social da pessoa com autismo; o paradigma da aproximação do autismo com o movimento das deficiências como luta por garantia de direitos de cidadania e sua repercussão na clínica e na vida cotidiana de pais e filhos; e, perpassando todos tópicos já citados, a importância dos pais no tratamento de seus filhos, sejam eles bebês, crianças, adolescentes ou adultos.

O MPASP constitui um movimento com profissionais de diferentes áreas da saúde e da educação que, orientados pela ética da psicanálise, trabalham no campo da saúde mental em instituições clínicas e acadêmicas nas redes pública e privada, em todo país. Desde sua constituição, em 2012, ao se apresentar como um parceiro na elaboração de políticas públicas a partir de sua articulação com a produção científica,  tem defendido a ampliação da rede pública de serviços de saúde (SUS) que contemplem os cuidados em saúde mental infantil; a implementação em nível nacional do documento Linha de Cuidados para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS elaborado pelo Ministério da Saúde e submetido à audiência pública; o investimento em formação e capacitação dos profissionais da rede pública de saúde, educação, assistência social, justiça e cultura; o tratamento da pessoa com autismo e de sua família por meio de um trabalho interdisciplinar, intersetorial, territorial e em rede; a pluralidade de métodos e abordagens de tratamento para pessoas com autismo e suas famílias; e a detecção e intervenção precoces diante de sinais de risco para o desenvolvimento infantil.

Não obstante a longa experiência que a psicanálise tem na construção de uma clínica com pessoas com autismo e suas famílias, na direção da constituição de um sujeito imerso no mundo da linguagem e das relações sociais recíprocas, incluindo aí o outro semelhante e as instituições que compõe e estruturam os laços de convivência em nossa sociedade, ainda encontramos grupos que se apresentam de forma ostensiva contra ela, com a alegação de que suas produções teóricas e clínicas culpam os pais pelo autismo do filho.

O que poderia causar tamanha resistência contra a psicanálise no que diz respeito à clínica do autismo? Diga-se, não de passagem, que esta oposição é muitas vezes carregada de manifestações de ódio e agressividade. Emoções que surgem como resposta ao enunciado de que a psicanálise atribui culpa aos pais pelo autismo do filho.

Essa história começa lá nos anos 40 do século passado, quando o psiquiatra Léo Kanner percebeu características peculiares em um grupo de crianças antes diagnosticadas como esquizofrênicas e, diferenciando-as destas, descreveu a Síndrome Autística do Contato Afetivo, que mais tarde veio a ser conhecida como Autismo e hoje ganha a denominação no campo da psiquiatria de Transtorno do Espectro Autista (englobando aqui, além dos autistas, crianças que em outros tempos seriam diagnosticadas sob a rubrica da esquizofrenia e outras psicoses precoces da infância). Kanner escreveu sobre as características comportamentais das crianças, mas também sobre as características comportamentais de seus pais. Dizia ele, psiquiatra e não psicanalista, que os pais destas crianças apresentavam-se para elas como pessoas afetivamente distantes, frias, obsessivas e dando atenção ao filho de forma mecânica e desprovida de emoções calorosas. Anos mais tarde, tomado pela repercussão negativa de suas palavras que levavam a crer que o autismo seria causado por uma desordem da parentalidade, ele escreveu outro artigo reformulando suas postulações iniciais, negando o estereótipo comportamental que descrevera para os pais e reforçando uma hipótese etiológica em causas exclusivamente orgânicas do lado da criança.

Em sentido aparentemente semelhante, o psicanalista Bruno Bethelheim anotou, em seu livro A Fortaleza Vazia, a ideia da “mãe geladeira”. Mães distantes, frias, que rejeitavam seus filhos. Criou a Orthogenic School na Universidade de Chicago, onde as crianças eram tratadas na instituição longe de seus pais. Também ele, mas por razões diversas, mudou sua posição. Não advogou em prol de uma causalidade orgânica como fizera Kanner, mas seguiu analisando a interação entre pais e filhos e percebeu, a partir da clínica, que as mães não eram pessoas frias como geladeiras.

Diga-se, novamente não de passagem, que sua posição inicial, ainda que respeitada, não foi e continua não sendo objeto de consenso dentro da psicanálise. A psicanálise trabalha muito sobre a relação pais e filhos, não apenas no autismo, mas na formação do sujeito psíquico que não se dá, todos sabem, por automatismos biológicos. Não fosse assim, por que falaríamos e valorizaríamos tanto a educação infantil, em casa e nas escolas? No entanto, isto não autoriza em nada a afirmação de que ela culpabiliza os pais pelo autismo do filho. Afirmação esta baseada em premissas do século passado, congeladas no tempo de sua enunciação e sem a perspectiva histórica do que se passou nas pesquisas psicanalíticas dos anos 50 do século 20 até os dias atuais.

A psicanálise não está a serviço de um julgamento moral dos pais. Aliás, ela sabe que tal postura não contribui em nada na construção de um enlace entre eles e o filho. O que a práxis analítica revela é que algo atrapalha o estabelecimento deste vínculo fundamental para a constituição subjetiva da criança. Assim como não podemos falar de autismo no singular, senão no plural autismos, isso por conta da complexidade etiológica que pode envolver fatores neurológicos, auditivos, genéticos, metabólicos e psíquicos, configurando uma clínica que envolve diferentes intervenções (psicanalítica, médica, educativa, fonoaudiológica, entre outras), não penso que possamos afirmar de forma genérica e categórica onde está localizada a dificuldade da criança em de fazer laço com o outro e vice-versa.

Há crianças que apresentam uma posição autista secundária a problemas do sistema nervoso central, a problemas sensoriais como surdez profunda e cegueira, a alterações genéticas como a Síndrome do X-frágil ou metabólicas como a fenilcetonúria. Nestes casos, a dificuldade da criança se impõe de tal modo que pode causar enormes dificuldades aos pais para que eles acessem com suas cálidas palavras o filho desejado.

O pesquisador italiano Filippo Muratori, analisando vídeos familiares de crianças autistas no convívio com seus pais, constatou um fenômeno que podemos traduzir por hiperestimulação. Um excesso de estimulação de um pai com seu bebê é desencadeado pela angústia paterna diante da falta de resposta do filho à sua demanda. O excesso corresponde a muitas demandas diferentes ao mesmo tempo, não dando tempo para quem poderia tentar formular uma resposta, a criança. O encontro de pais e filho com um psicanalista pode ajudar os primeiros a conhecer melhor a criança que tem, suas dificuldades e possibilidades, na direção de um vínculo significante entre as partes envolvidas. Quanto antes isto ocorrer, melhor será o prognóstico. E por isso a psicanálise tem trabalhado cada vez mais no âmbito da intervenção precoce.

O nascimento de um filho com problemas de desenvolvimento é motivo de muita angústia para os pais. Sofrimento intenso que pode ensejar modos particulares de defesa que dificultem ainda mais a relação entre pais e filhos. O escritor Cristovão Tezza, em seu livro O Filho Eterno, nos dá um corajoso e emocionante testemunho do que passou em sua mente ao receber a notícia de que seu filho nascera com Síndrome de Down. Espelho quebrado. As imagens que fabricara sobre o filho esperado ao longo da gestação se desfizeram. Como um abismo que se abre sob os pés, perguntas sobre o futuro incerto pipocavam entremeadas com uma ideia insuportável: não seria melhor se o filho não conseguisse sair do hospital e ir para casa? Como não ficar angustiado e perdido quando, diante da esposa, recém feita mãe,  ainda escuta um pedido de desculpas pelo filho que ela estava lhe dando?

Sua narrativa é corajosa. Qual pai assumiria de forma pública ter pensado para seu filho tão esperado que ele não tivesse a chance de sobreviver? Como não se sentir culpado por tal pensamento?

A história comoveu de tal forma este leitor que, por vezes, por mais que eu já tenha escutado tantas passagens semelhantes no atendimento de pais, sentia as lágrimas escorrendo no rosto e fechava o livro em busca de novo fôlego para seguir sua leitura.

Tezza e sua esposa, como tantos pais, diante do insabido sobre o problema do filho, dos conflitos que os assaltavam, da inconformidade com relação aos prognósticos que escutavam de diferentes lugares, foram em busca de ajuda. A ajuda encontrada não foi a psicanálise, tampouco o garoto era autista, muitos podem dizer, mas as dificuldades vivenciadas pelos pais e seus filhos são estruturalmente da mesma ordem, ainda que com suas variáveis específicas e singulares.

Quanto ao livro, não vou mais me alongar, deixo a todos a sugestão de leitura, tanto pela história quanto pelo estilo narrativo merecedor de muitos prêmios literários.

Assim como o problema do filho pode alterar as manifestações de desejo dos pais em razão do sofrimento e da insegurança no exercício de suas funções parentais, muitas vezes uma mãe ou um pai apresentam tais dificuldades causadas por outro sofrimento de razão não sabida para a consciência. Desta forma, os problemas de interação não são secundários a uma patologia orgânica, ou aos efeitos subjetivos que elas possam provocar, eles são primários. Porém não se devem à frieza da mãe, mas a seu sofrimento. Este foi o caso do testemunho público que escutamos de uma mãe na jornada do MPASP.

Ela revela o vazio que sofria quando estava diante de seu bebê. A criança apresentava sinais que apontavam para uma impossibilidade de fazer laço com o Outro materno e também com os outros ao seu redor, além do atraso na aquisição da linguagem. A intervenção da psicanalista a ajudou na superação do luto que ainda vivia pela morte de um filho antes do nascimento da criança em questão. Hoje o menino é descrito pela professora da escola como o orador da turma. É verdade que esta criança não tornou-se autista, mas apresentava sinais de risco para o desenvolvimento e estruturação do sujeito psíquico. Com a intervenção precoce junto à mãe e filho, o desfecho do problema que se apresentava foi favorável para ambos.

Os exemplos públicos citados nos mostram que a psicanálise não está a serviço de culpar os pais pelo problema dos filhos, assim como não nega a importância e relevância dos cuidadores na transmissão dos valores imaginários e simbólicos para a criança que, ao nascer, depende inteiramente deles para viver, se desenvolver e se constituir como um Sujeito inserido no mundo da cultura. Não nega, tampouco, a dimensão física da criança. Dimensão esta que é objeto do conceito psicanalítico de pulsão, justo o que trabalha a fronteira e as conexões entre o psíquico e o somático recusando a dicotomia entre o corpo e a psique.

Enfim, a psicanálise está a serviço de ajudar pais e filhos no enfrentamento do que os faz sofrer, apontando a flecha do tratamento no sentido da constituição de um Sujeito imerso no mundo da linguagem e da relação com o outro. Para isso é fundamental a participação dos pais no tratamento do filho. Já não se trata mais de alijar os cuidadores responsáveis pela criança do espaço clínico, mas, ao contrário, de ajudá-los a se autorizar do exercício de suas funções parentais com suas dificuldades e incertezas com as quais todos nós, pais, convivemos com nossos filhos, sejam autistas ou não.

É evidente que, com pessoas portadoras de autismo, as dificuldades são de outra ordem. A clínica psicanalítica, representada no MPASP em suas diversas vertentes, dá um valor especial à escuta dos pais, tanto no que diz respeito ao sofrimento subjetivo quanto às questões materiais de acesso aos serviços públicos de saúde mental, cuja rede em construção ainda mostra-se insuficiente para dar conta da dimensão do problema. Porém já tem possibilidades para apontar um caminho possível de construção que acreditamos estar contido no documento do Ministério da Saúde chamado Linha de Cuidado para a Atenção das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde/SUS, documento este que pode facilmente ser acessado via internet.

A psicanálise não julga, a psicanálise escuta o sofrimento e sua verdade para que o sujeito possa se assenhorar de sua vida.