Na estreia deste blog, Julieta nos falou do quão importante é o saber dos pais na aventura da criação e educação dos filhos. Uma construção singular na qual o conhecimento de manuais do desenvolvimento infantil nos conduz inexoravelmente a uma condição de devedores.

Diante do modelo de pais ideais forjados por um suposto conhecimento do que deveria ser o comportamento destes para que o filho corresponda a outro modelo, o da criança ideal, nós pais sempre ficamos aquém. Afinal, que ideal de desenvolvimento é este?

Do ideal é difícil tratar. Afinal, as referências para o desenho de sua imagem são múltiplas e variadas entre culturas de diferentes povos e, até mesmo, entre distintas classes sociais dentre os habitantes de uma mesma nação.

O corpo humano em todos estes lugares parece ser o mesmo, apesar de apresentar características particulares em cada etnia e singulares de uma pessoa a outra. Esse mesmo corpo encontra representações no imaginário dos povos que dependem das mitologias próprias de cada cultura. Quando pais e mães se dirigem aos pequenos seres de quem são responsáveis pelo crescimento, desenvolvimento e educação, o fazem atravessados por estes mitos, mas também por suas próprias experiências de vida.

É certo e inevitável que cada um de nós, pais, faça uma imagem do que espera para seus filhos. Quando a paternidade e a maternidade nos encontram, ou, no melhor dos casos, quando nós as encontramos como fruto de nosso desejo, esperamos poder dar a eles todas as ferramentas que nos faltaram para sermos melhores do que somos. Talvez seja por isso que na passagem de uma geração a outra se produzem tantos atritos. Rusgas que fazem parte da construção subjetiva, psíquica e emocional, de cada ser humano. É que a geração da qual fazem parte nossos filhos nem sempre deseja ser aquilo que nós queremos deles, que sejam ou tenham o que faltou a nossa. Será que estamos esperando criaturas perfeitas, sem qualquer rachadura? Nem eles serão, tampouco nós podemos ser o que os manuais nos prescrevem.

Então, o que fazer? Viver a aventura de cuidar de um filho sem o falso amparo que a ilusão da completude pode nos dar. Sim, porque a imagem da perfeição como imperativo só produz frustração e angústia. Qual pai ou mãe nunca apresentou uma emoção destas diante do mais querido e amado filho?

Entrar nessa trilha implica correr riscos. É claro que alguma informação pode nos ajudar a percorrer o caminho melhor. Porém não percamos de vista que mesmo com uma potente lanterna para enxergarmos o que temos pela frente na estrada, os perigos que ela guarda continuam existindo. Assim é a vida.

Vamos aprendendo a lidar com eles cada vez que apareçam. Uma boa forma de aprender é conversando, falando e escutando o que o outro tem a dizer. Espero que o leitor possa se colocar na aventura que estamos iniciando. Suas dúvidas e opiniões, concordantes ou dissonantes, serão nosso guia. Evidente que prefiro as concordantes, no entanto é na diferença que o desafio cresce e o desejo de saber, pesquisar e compartilhar também.

Hoje pretendo apresentar uma ideia sobre as bases do desenvolvimento infantil, para começo de conversa. Quando falamos de desenvolvimento infantil logo nos vem à mente a ideia de crescimento de estatura e ganho de peso, das aquisições por parte da criança na fala e na linguagem (quando começou a balbuciar, a dizer as primeiras palavras e frases, a entender o que lhe falam e se fazer entender com palavras), nas construções motoras (quando o pescocinho ficou tenso o suficiente para segurar a cabecinha do neném, quando sentou com e sem apoio dos braços, engatinhou, ficou de pé e começou a caminhar…), na alimentação, no ciclo do sono, no controle dos esfíncteres para urinar e defecar, na organização dos hábitos da vida diária, na forma de interagir com as outras pessoas, nas construções que é capaz de realizar ao brincar.

No entanto, para que todas estas funções entrem em funcionamento é necessário que algo dê suporte e crie condições para que elas aconteçam pela criança. As bases para o desenvolvimento infantil as encontramos no corpo orgânico, como, por exemplo, na integridade do sistema nervoso central e no código genético, mas também naquilo que transforma esse corpo num ser da cultura voltado às relações sociais com seus regramentos que vão dos impedimentos às permissões de acordo com o código ético e moral da sociedade onde este pequeno ser vem pertencer, ou seja, os aspectos psíquicos.

É por isso que, quando uma criança apresenta alguma defasagem no tempo médio esperado para seu desenvolvimento, os pediatras começam a investigar possíveis causas biológicas com exames laboratoriais de sangue, urina ou fezes, eletroencefalograma, ressonância magnética do cérebro, cariótipo, etc, mas também as possíveis causas emocionais através da observação da relação entre a pequena criança e seus pais ou cuidadores.

As relações entre estes dois aspectos da vida, o orgânico e o psíquico, são variadas e complexas. A estrutura emocional singular de uma criança existe na dependência do sistema nervoso central, mas a medida que ela vai se constituindo na relação com os pais e o ambiente que os últimos são capazes de proporcionar ao filho a maturação e o desenvolvimento das células nervosas terá seu ritmo e forma.

Bem, é daqui que partimos. Agora, onde vamos chegar? Quem é que de antemão pode saber?