Dando sequência ao tema dos sintomas contemporâneos na infância e riscos de patologização da criança em idade escolar, contamos no presente texto com a colaboração das educadoras Elaine Milmann (doutora em educação pela UFRGS) e Raquel Alvarez Sulsbach (mestre em educação pela UFRGS), que clinicam com crianças que apresentam problemas de aprendizagem no Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, realizando formação interdisciplinar de professores em problemas do desenvolvimento infantil.

 

Eu vivo sempre no mundo da lua 
Porque sou um cientista 
O meu papo é futurista.
É lunático 
(Guilherme Arantes

Viver no mundo da lua, até pouco tempo, no discurso social, era um traço de infância saudável. Assim, em 1982, cantávamos Lindo Balão Azul, de Guilherme Arantes, marcando os 100 anos do Sítio do Pica-Pau Amarelo: “Vivo sempre no mundo da lua, porque sou um cientista, o meu papo é futurista, é lunático”. O quase hino da década de oitenta valorizava o direito das crianças de brincar e de fantasiar. Não é à toa que a obra do escritor brasileiro Monteiro Lobato, com seus personagens fantásticos, revivendo lendas e tradições do folclore brasileiro, marcou e encantou várias gerações de crianças.

Porém constatamos cotidianamente que viver no mundo da lua perdeu a sua poesia! Na clínica psicopedagógica, enfrentamos uma “epidemia” de encaminhamentos de casos de crianças diagnosticadas como portadoras do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).  Muitas já chegam com esta hipótese diagnóstica na opinião de seus professores ou de seus pais, incentivados pela mídia a buscar os medicamentos prescritos para o tratamento da dita doença. Mas atenção, há um dado alarmante: o Brasil é o segundo maior consumidor mundial dos psicotrópicos denominados metilfenidatos, exatamente prescritos para o tratamento do TDAH. 

De acordo com a a doutora Maria Aparecida Moysés, médica e pesquisadora da Unicamp, as crianças correm sérios riscos no uso de psicotrópicos como a ritalina, nome comercial da conhecida “droga da obediência”, supostamente utilizada para acalmar e focar a atenção de crianças com “uma doença neurológica”. Tal droga traz uma série de reações adversas, e o problema se torna ainda mais grave, pois há suspeitas sobre a inexistência desta doença, já que os critérios para diagnosticar o TDAH são fundamentados em normas sociais. Isto é, a escola não é só uma instituição capaz de identificar os problemas na infância, mas também é produtora dos seus parâmetros de normalidade. O que é normal e o que é anormal também é uma produção discursiva, baseada em ideais e ideologias institucionais, e apoiado nestes, os professores interpretam o comportamento de seus alunos, assim como preenchem os formulários médicos de identificação do TDAH.

Uma vinheta clínica ilustra literalmente o dilema: se há alguns anos viver no mundo da lua era a forma poética de abordar a importância do fantasiar na infância, hoje isso pode representar a ameaça de uma suspeita doença, o TDAH.

Em interconsulta com um psiquiatra infantil, conversando sobre um garoto que realizava acompanhamento psicopedagógico, questionava o uso da ritalina para o seu suposto déficit de atenção, advertindo que ele havia superado os problemas de escrita e inclusive, agora, tinha o desejo de ser um escritor. Além de estar bem na escola, o aluno passou a utilizar a escrita para trazer à tona seus conflitos adolescentes, compartilhando-os com seus colegas e com seus professores num blog, onde expunha suas narrativas. O médico, resistente em aceitar o cancelamento da indicação medicamentosa, utilizou o seguinte argumento para defender a sua continuidade, justificado pelo diagnóstico de TDAH: “Ele precisa do remédio, está aqui, anotei o que a mãe do garoto disse, ele vive sempre no mundo da lua”. De fato, se há a crença de que o quadro é de origem genética, fica difícil acreditar numa cura para esses profissionais.

Infelizmente, nem todos os médicos se interessam por políticas educacionais nem por práticas pedagógicas, e realizam seus diagnósticos supondo uma origem orgânica de problemas no caso de situações, muitas vezes, originadas no contexto social. As pesquisas educacionais demonstram como a culpa do fracasso escolar é sempre colocada nos alunos.

Porém distrair-se ainda é uma característica de toda infância saudável. Mesmo que em muitos momentos seja quase insuportável aos adultos. Nos estudos de Sigmund Freud (1908), os primeiros traços da atividade imaginativa surgem quando as crianças estão intensamente ocupadas com brinquedos e jogos, criando um mundo próprio e reajustando seus elementos para torná-lo agradável. O material dos escritores criativos, para Freud, tem início nestas atividades infantis. Então, viver no mundo da lua pode ser o traço de uma “alma de artista, um gênio, sonhador e romântico” (ARANTES, 1982).

A criança saudável distingue perfeitamente seu mundo de brinquedo do mundo de realidade, e gosta de ligar os seus objetos e situações imaginadas com as coisas visíveis e tangíveis. Esta diferenciação é efeito de uma série de processos de subjetivação, os quais implicam o modo como ela acessou simbolicamente o tesouro significante oferecido pela sua família e pelo seu meio social, principalmente a escola. Vale lembrar que a escola que se coloca amplamente no processo de formação de profissionais, focada na possibilidade de olhar os outros singularmente, provavelmente sofrerá menos com a necessidade de categorizar seus alunos em algum tipo de diagnóstico. Escapando dessa necessidade de enquadrar comportamentos estabelecidos e chamados de “comorbidades”, desfrutam, dessa forma, daquelas crianças que se envolvem de forma mais contundente com a realidade que as cerca.

Viver no mundo da lua, além de saudável, é fundamental para o desenvolvimento da inteligência e da aprendizagem das crianças. Porém há algumas delas cujas bordas entre fantasia e realidade foram borradas por possíveis problemas ocorridos no transcurso de sua constituição psíquica, apresentam dificuldades de armar laço ao social. Neste caso, não se trata de falta de atenção, mas sim da necessidade de ofertar ajuda à criança para vir a constituir a borda entre a ficção e a realidade compartilhada socialmente. O remédio para isso pode ser embarcar com ela em seu universo de fantasias, entrando através desse meio na relação, enlaçando-a ao social.

Sem diferenciar as sutilezas da constituição subjetiva, a grande parte dos encaminhamentos de crianças, com transtornos orgânicos associados ou não a problemas de aprendizagem (leitura, escrita ou cálculo) chega à clínica psicopedagógica com suspeita diagnóstica de síndrome de déficit de atenção. Temos que elaborar uma crítica ao que pareceria uma epidemia. Segundo a doutora Maria Aparecida Moysés, ao falar de 5% a 10% de pessoas com determinado problema, para a medicina, isto é comprovadamente um produto social. O problema é que o TDAH passou a ser considerada uma doença inata, neurológica e genética, e isso exclui as problemáticas complexas da sociedade, da escola, do uso abusivo das imagens e das tecnologias.

Hoje em dia, não acompanhar o ritmo do grupo de sala de aula, em geral, tem uma única culpada, ré condenada, mesmo antes de ser devidamente julgada: a falta de atenção. Por trás deste julgamento injusto, há uma crença de que, para aprender, basta prestar a atenção, supondo uma relação direta entre os órgãos dos sentidos e as coisas, tornando-as apreensíveis pela percepção pura.

Porém, “é passando pelo olho do outro que se faz a função significante” (JERUSALINSKY. A, 2004), transformando as coisas em objetos cognoscíveis, retirando-os do caos do real. Por exemplo, não basta olhar e repetir a pronúncia da palavra con(s)(c)erto. Esta diferença só se percebe por escrito, ou no contexto significativo da frase. Se dissermos ele foi ao con(s)(c)erto, paira uma dúvida: se a pessoa for um mecânico, a dúvida cai, pois se refere a consertar o carro; se for um maestro de uma orquestra, o concerto é de música. Na escrita, a dúvida se resolve pela diferença estabelecida pela troca de uma letra. A letra s ou c da palavra con(s)(c)erto, está em posição significante, pois é no só depois que será feita a diferença entre assistir a um concerto ou fazer um conserto: “… o que não se pronuncia e somente se dá a ver na escrita tem um efeito sobre o fonema que faz morfema na língua. Então, para poder dar atenção a esta diferença –entre o olhar e o escutar – é preciso estar em uma posição simbólica que ofereça condições ao sujeito para quando ele for lidar com este contexto significativo”.

Parece que algo mudou na perspectiva da infância desde o Lindo Balão Azul  da década de 1980 até 2016. Vivemos um drama referente à atenção dada para nossas crianças. Em busca de um diagnóstico para justificar uma epidemia de alunos desinteressados, agitados e que não correspondem ao seu ideal, muitos professores preenchem relatórios médicos sobre o educando, esperando ansiosos pelo uso da droga da obediência.

Falta alargarmos a nossa visão crítica diante de discursos midiáticos e imediatistas, naturalizando o uso de drogas tarja preta para crianças. Isto vem produzindo uma falsa epidemia infantil de TDAH. É urgente refinar a forma de escutar e olhar as crianças, transformar o foco de nossa atenção: perguntando sobre qual posição assumimos diante de uma criança inquieta e desatenta em sala de aula.

Os alunos não podem ser culpados pelo fracasso escolar, também não portam nenhuma doença que o justifique. Se realmente há uma patologia expressa pela atenção dispersa ou agitação excessiva dos alunos nas escolas, isto é, sem dúvida, um sintoma social. É urgente reacendermos a discussão sobre os problemas educacionais e sobre a crise pedagógica da escola brasileira. Sobre em qual discurso acerca da infância vamos embarcar, trata-se de uma posição ética: embarcamos num lindo balão azul ou no discurso das caixas de medicamento tarja preta?

FREUD, S. Escritores criativos e devaneio (1908).  Obras Completas.  Rio de Janeiro, Imago,1970, vol. IX, ps. 135-143.

JERUSALINSKY, A. A ortografia e as formações do inconsciente: novas considerações sobre a instância da letra. In: VORCARO, A. (org). Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala. Salvador: Álgama, 2004.