Uma fonoaudióloga sempre se depara com esta questão – o uso da chupeta é indicado? – quando trabalha com crianças pequenas. Os pais costumam indagar muito – até que idade?; só à noite, faz mal?; como fazemos para tirá-la?

Bom, a chupeta não nasceu com a criança e nem está em seu corpo, não faz parte dela e sempre é introduzida por um adulto (normalmente os pais) e, portanto, sua retirada também deve também deve ter a participação deles.

Vamos tentar responder às perguntas iniciais:

Chupeta faz mal?

Sim:

– o seu uso pode interferir no aleitamento materno ( o bebê chupando a chupeta pode ter uma “ilusão de saciedade” e mamar menos );

– no crescimento oro facial alterando o tipo de mordida da criança (e aqui é fácil lembrar de uma criança com mordida aberta, por exemplo);

– pode ser um dos fatores que contribuem para que a criança respire pela boca, o que afeta o tônus da musculatura das bochechas, língua e lábios, além de interferir na mastigação e deglutição, e aí levar muitas crianças a preferirem os alimentos mais moles, menos consistentes, como os nuggets, salsichas , bisnaguinhas.

Não:

– Às vezes há criança que é mais “sugadora” e a chupeta ajuda aos novos pais a lidarem com esta “ansiedade”.

A chupeta pode, sem dúvida, ter um efeito organizador, pois nada mais angustiante que um bebê em casa chorando, um adulto cansado que já cantou todas as músicas de que lembrava, pulou, dançou e, por fim, também chorou… (lembro de uma amiga contando que seu bebê chorou tanto um dia que quando seu marido voltou do trabalho ela estava com uma chupeta no pacote e um copo de uísque ao seu lado, tipo, ou um ou outro). E para aqueles que resolverem oferecer a chupeta não se sentirem tão culpados, lembrar sempre que como ela não ficará colada ao corpo do bebê poderá ser retirada, que o mercado oferece chupetas de silicone, com bicos ortodônticos no tamanho apropriado à idade do bebê dos 0 aos 3 anos…

– Até quando?

Entre 2 e 3 anos é a idade ideal para retirá-la, pois o crescimento oro facial terá seu ápice a partir desta fase.

– Como retirá-la?

Aqui entra um pouco da nossa intervenção a partir do que conhecemos do nosso filho e, também, de como começamos a colocar o valor da nossa palavra na cena familiar.

Tenho duas filhas, ambas chuparam chupeta e com cada uma a retirada foi bastante diferente.

A mais velha adorava sua chupeta. No início usava durante o dia e a noite, depois com 1 ano e 6 meses começou a deixá-la embaixo do travesseiro e usar apenas para dormir. A partir dos 2 anos e 6 meses, após algumas tentativas frustradas de retirada, enunciamos, eu e seu pai, uma ordem em casa: criança não pode usar chupeta a partir dos 3 anos. Quando ela, muito sabiamente, respondeu que o avô compraria outra na farmácia foi informada que só havia chupetas para criança até 3 anos. Ela conviveu com este tempo que passava e foi “despedindo-se” de sua chupeta que, por sua vez, foi ficando velha e com um gosto ruim. Como não podia ter outra, foi deixando-a de lado até parar. Tivemos dias de testes – eu e meu marido – e conseguimos manter nossa palavra: ficamos com ela nas primeiras noites até o sono vir ou também quando ela despertava repentinamente chorando. Nada que uma semana não a fez esquecer este sofrimento e ficar orgulhosa desta passagem.

A mais nova tem um traço marcante na sua personalidade desde criança, que é a vaidade. Quando tinha quase 2 anos, veio perto de mim para ver em que eu estava trabalhando e eu fui explicando que estava vendo as fotos de uma criança que atendia no consultório (era uma documentação ortodôntica de uma menina com mordida aberta). Ela olhou, olhou e ficou impressionada com os “dentes feios” e me perguntou por que eles ficavam tão tortos. Respondi que por vários motivos, mas que a chupeta poderia contribuir. Imediatamente ela abriu o lixo e jogou sua chupeta fora e nunca mais pediu, assim, determinada.

Lembro também de uma menininha que comecei a atender que chegou ao consultório chupando o dedo, com uma fala bastante infantilizada, fraldas, enfim , aos 3 anos parecia uma linda bebê. A mãe, já de primeira, entendeu o dilema: para falar era preciso crescer. Tirou a fralda e… o dedo ela substituiu por uma chupeta noturna. Depois de alguns meses estavam as duas vendo TV e a pequena adormeceu sem chupeta e, na manhã seguinte, a mãe disse para a filha: “Nossa, que legal, você ficou grande, já dormiu sem chupeta”. No consultório ela me conta que parece que usou palavras mágicas com a filha: “ficou grande”, pois quando a babá foi dar a chupeta na outra noite a garota disse: “Minha mãe falou que eu já sou grande, não uso mais chupeta”.

Experiências que nada tem de magia a não ser a força da palavra. Ou, pensado no abracadabra: há palavras que realmente são mágicas.

Finalizando – e este é o nosso desassossego depois de termos filhos -: os pais tem um papel fundamental neste processo de retirada da chupeta. A decisão de introduzir foi nossa, a de retirar também deve ser.

Fazer valer a palavra, saber em qual momento ela pode ser ouvida e cumprida por um filho faz entrar em cena nossa face mágica: retirar a chupeta é saber manusear uma varinha. Nosso ato que provoca um efeito no outro. Harry Potter está aí para nos ensinar…

Há magias simples, como a retirada de uma chupeta e são estas, as pequenas, que permitem que nossos filhos compreendam o valor da palavra.

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