Os conflitos que acontecem em casa são bem diferentes dos que acontecem na escola. 

A casa é o ambiente da família, das relações íntimas, onde a criança relaciona-se com poucos, muitas vezes apenas com adultos. Quando há irmãos, as
relações se dão com uma criança maior ou menor. As regras são definidas em cada situação e mudadas quando possível.

Na escola é tudo bem diferente, a criança relaciona-se com pares, crianças da mesma idade. A primazia é do grupo. As regras são bem claras e para todos.
Na escola, o convívio entre as crianças ensina-as sobre como se relacionar: como chamar o outro para brincar, o limite de cada um, o que machuca, o que magoa, o que deixa o outro feliz, como negociar papeis, espaços e objetos nas brincadeiras.

A socialização é uma das funções da escola e faz parte disso cuidar das relações, o que é muito importante para o desenvolvimento das crianças. É no grupo de iguais que a criança se constitui como um ser social, que está atenta ao grupo, respeita o outro, acolhe e lida com as diferenças.

Inicialmente as crianças brincam perto umas das outras, depois convidam os amigos a partilhar um brinquedo, um corre-corre, um jogo de imitação. Num determinado momento passam a brincar com o outro. A brincadeira de casinha é um bom exemplo. Nela, as crianças estipulam papeis de mamãe, papai e filhinho (de alguns anos para cá a babá passou a ser uma personagem importante também). Nesta escolha, por exemplo, costumam aparecer os conflitos, já que às vezes, um não quer ser filho, outro não quer ser mãe… As crianças ainda não conseguem se colocar no lugar do outro e chegar a um acordo. Este é um exercício nem sempre muito fácil. 

Por isso, diante de um conflito como do exemplo acima, a escola deve ajudar as crianças a encontrar uma solução de maneira a respeitar os sentimentos de cada um, ajudá-las a se colocarem no lugar do outro: “Você quer que sua amiga seja a filha, mas ela quer ser mãe. Você gostaria que ela lhe dissesse para você ser sempre a filha? Que tal um dia você ser mamãe e no outro filhinha? Que tal ter duas mamães?” 

Muitas vezes as crianças não encontram saídas, não conseguem pensar em soluções diferentes. O interessante é que o grupo possa chegar numa solução boa para todos, não para a maioria. Afinal, todos querem brincar e deixar um de fora não ensina a partilhar.

 É comum também acontecer de um bater no outro por ter sido empurrado sem querer. Quando vem contar ele diz: “Bati porque ele me empurrou!” Eles não conseguem ainda levar em conta a intenção. Aos poucos os professores ajudam para que possam tentar entender o que aconteceu. Se examinarmos com atenção, os conflitos que acontecem na escola são boas oportunidades de aprendizagem no que diz respeito às relações e a possibilidade de ver o (lado do) outro. 

Se pensarmos como adultos que somos, chegar a um acordo é fácil? Quantas discussões você teve que pareciam “monólogos que se contra-atacam”? E veja que nós temos a capacidade de entender os motivos e os sentimentos de nossos parceiros e colegas. Por isso temos que ajudar as crianças nesse processo. 

O importante é pensar que os conflitos, além de “fazer crescer”, são oportunidades de aprendizado para toda a vida.

 Quando estes conflitos chegam em casa, são relatados de maneira parcial, apenas do ponto de vista (egocêntrico) da criança. Nesta hora é comum que os pais, vendo o sofrimento da criança, arregalem o olho e digam: Nossa! O que aconteceu? O que está acontecendo na escola?

 A criança facilmente percebe que tal assunto tocou os pais de uma maneira diferente. Assim, quando quer chamar a atenção, ela repete o assunto, mesmo que a briga tenha acontecido há muito tempo (como aquele machucado que já secou, mas a criança continua mostrando). E a preocupação dos pais vai crescendo, como uma massa cheia de fermento. Quanto maior a preocupação, mais a criança conta histórias deste tipo (e às vezes inventa ou aumenta). Às vezes até passa a acreditar nas suas histórias. 

Vale lembrar que os conflitos entre pares devem ser resolvidos por eles, na escola. O que os pais podem fazer é perguntar sobre o contexto, verificar o que cada criança fez e disse, o que cada um sentiu com o conflito e como foi resolvido.

Meu filho, quando saiu da escola de Educação Infantil, passou a ir de condução para a escola de Ensino Fundamental em que cursava o segundo ano. Um dia, ele me contou que o menino do terceiro ano tinha batido nele na perua. “O quê? Um menino maior que você te bateu? E o seu perueiro, o que ele fez?” Bem, todos os dias ele me contava um novo episódio da novela do menino do terceiro ano. Eu já estava a ponto de falar com o perueiro, quando na minha escola recebi a visita de um ex-aluno que estava no terceiro ano. Reparei no tamanho dele e no do meu filho… Eram praticamente iguais, mesmo tamanho, mesmas brincadeiras… Opa, eu estava imaginando um menino de terceiro ano do colegial (Ensino Médio)! Então um dia, respondi: “Filho, será que o menino quer brincar com você e não sabe como te chamar?” Quando parei de colocar fermento, o menino foi, pouco a pouco, desaparecendo.

Em algumas situações que já estão grandes demais, quando a criança vem contar mais um episódio da novela, o interessante é deixar de se interessar pelo assunto e mudar o foco! Perguntar a respeito de outras crianças, outras brincadeiras, e, se assunto ficar muito insistente, remeter para a escola: “Que tal conversarmos com sua professora?” A escola saberá dizer se de fato há um problema ou se um conflito normal ganhou fermento para “capturar” os pais.

 Enfim, conflito de escola, na escola, conflito de casa, em casa! Embora ambos contribuam para o desenvolvimento das crianças e necessitem estar aliados.