As crianças entre os laços familiares e as janelas virtuais  –  Parte 2

Por Julieta Jerusalinsky

Não são poucos os bebês e pequenas crianças de um ano e meio a três anos que chegam ao consultório com suspeita de autismo, que não respondem quando chamados, que não estão em busca dos outros, que realizam errâncias pelo espaço acompanhadas ou não de automatismos (sacolejos, balanceios) enquanto lançam de forma não endereçada fragmentos sonoros em inglês, pequenos que repetem em solilóquio, “Ei-bi-ci, uan-tu-tri” (A, B, C, 1, 2, 3), enquanto fixam seu olhar em superfícies brilhantes ou passam o dedo pelas mesmas.

Mas qual é a língua materna dessas crianças? A princípio seus pais, seus professores, parentes ou babás falam português. Português então, seríamos tentados a responder. Consideremos aí que língua materna implica a língua na qual lhe fala o Outro primordial ao qual a criança ficou referida, na medida em que é desde essa língua que o Outro encarnado interpreta, sustenta e interdita o acesso à satisfação que propicia ao bebê. Consequentemente, é por meio dessa língua que a criança pode representar o que a afetou em sua percepção, apropriando-se subjetivamente do seu corpo. Portanto língua materna é aquela através da qual um bebê ficou referido, simbolicamente identificado, ao Outro, representado seus modos de obter prazer e também as interdições do mesmo (1).

Freud (2) afirma que a identificação é a mais remota forma de expressão de laço emocional com outra pessoa e que essa primeira identificação que ocorre na mais primitiva infância é aos pais ou ao pai como ideal do eu (3), na medida em que o bebê fica referido ao Outro em seu circuito de satisfação e que esta satisfação instaura um objeto pulsional que extrapola para sempre o objeto da necessidade em si.

Percebe-se desse modo que a relação ao Outro comporta a inscrição de um traço. Esse traço depositário da primeira identificação é o que permite tecer uma referência simbólica para a vida. Esse traço unário inaugura a contagem para um sujeito, inaugura uma série simbólica. A partir desse traço pode-se produzir para o sujeito o reconhecimento, do eu sou marca de um (4). Por isso o um do unário não é único, no sentido de ser sozinho, ele é unário no sentido de instaurar a singularidade, desde a qual pode se produzir uma série simbólica a partir desse um que conta, desse um desde o qual se festejara a repetição de um gozo (5). Assim o sujeito se divide pela inscrição desse traço, pois, por um lado, tal inscrição permite ao sujeito se reconhecer nesse traço, nesse um que, para ele, é o que conta; e, por outro lado, tal inscrição comporta a dimensão da perda do objeto, ao produzir um traço em seu lugar.

No início da vida, o bebê, mais do que se contar, é levado em conta por outro, e por isso a instauração do traço unário, da referência simbólica, depende do laço com o agente da função materna. É a mãe que sustenta as séries para o bebê, é ela que faz dos objetos –papinha, leite, cocô, xixi, sono, meleca – traços que se contam em uma série. É ela que festeja e propicia para o bebê esse gozo e que, ao mesmo tempo em que o inscreve, o faz operar como traço diferencial de reconhecimento na relação com o bebê (6).

Porém a produção de crianças que tem pais, babás ou professores que falam português, mas que repetem fragmentos sonoros de entoação em inglês exige que possamos perguntar – se essa é a língua que produziu para elas alguma inscrição, então quem é o Outro dessas crianças? Afinal parecem ser mais as TVs e os tablets, com seus aplicativos. Há casos em que as crianças estão referidas a esses aparelhos, em que esse é o Outro da criança, e isso não é sem consequências para a constituição psíquica.

Não nascemos apropriados do nosso corpo. Esta é uma operação que pode se constituir ou fracassar. Não está garantido estabelecer um funcionamento corporal no qual a organização dos ritmos – de sono-vigília, fome-saciedade, movimento-repouso, entre tantos outros funcionamentos implicados na circulação de objetos pulsionais como olhar, voz, respiração, fezes – diga respeito ao prazer e desprazer de um sujeito, na medida em que as funções instintivas claudicaram na espécie humana. No início da vida é o agente da função materna que sustenta a instauração desse funcionamento corporal subjetivado na medida em que interpreta, usando aqui o termo estrito situado por Freud, qual seria a ação específica que pode satisfazer o bebê e tirá-lo de seu estado de desamparo (7). Para tanto é preciso que haja um Outro encarnado que se afete em sua economia de gozo pelo que se passa com o bebê, operando com este uma identificação transitivista (8). É somente desde esta condição psíquica que uma mãe pode produzir uma interpretação do que se passa com o bebê, emprestando suas representações, disponibilizando seu saber inconsciente, para que o bebê possa chegar a constituir algum saber.

É porque há outro que diz “ai” diante do tombo do bebê e depois o consola que o bebê pode representar simbolicamente isto de que padece, apropriando-se imaginariamente do seu corpo. É porque há outro que diz “hummm!” enquanto oferece a papinha que o bebê pode não só comer, mas partilhar de desejar a papinha de modo identificado ao desejo do Outro (9).

Assim, é a partir dessas inscrições primordiais produzidas na relação com um Outro encarnado que se passa do afeto à sua representação, do corpo à linguagem, do gozo ao saber, produzindo entre essas instâncias de diferentes ordens uma inscrição (a inscrição da letra como rasura inconsciente no psiquismo) que articula, que faz dobradiça fundamental para a constituição psíquica e para a apropriação imaginária do corpo. Esses jogos de litoral, fundamentais para a constituição, não têm como ocorrer sem a presença de um Outro encarnado que está atravessado em sua própria economia de gozo pelo que se passa com o bebê (10).

Na atualidade não são poucas as mães que chegam ao consultório surpresas com o profundo trabalho que dá cuidar de um bebê – com esse delicado trabalho, com o fino “bordado” que é tecer, articular corpo-linguagem. Enquanto desde o discurso social se sublinha a maternidade como um campo de eficácia fálica, como se com uma boa equipe de especialistas, parafernalhas técnicas e um tanto de competência materna pudesse dar conta do recado de criação de um bebê, a grande surpresa costuma ser descobrir que, talvez, o mais difícil da maternidade não seja o “exercício de um saber ativo”, mas a posição psíquica de disponibilidade ao bebê (11).

Ao mesmo tempo, há um excesso de objetos que circulam no mercado e que se oferecem como eficazes para os cuidados do bebê (apetrechos para o banho, almofadas para a postura, monitores para controlar o sono, aplicativos para os ritmos de mamada e até decodificadores de choro).

Certamente, uma vez que está estabelecida a relação com o bebê, é importante que uma mãe possa ir progressivamente oferecendo objetos substitutivos que não retenham a satisfação do bebê apenas sobre o corpo materno, objetos que passem a representar a relação do bebê com o Outro (paninhos, chocalhos, brinquedos dos quais depois se deriva o objeto transicional apontado por Winnicott) (12).

Encontramos aí como a função paterna é inicialmente sustentada pela mãe na medida em que ela não faz do filho em si um objeto de restituição de sua própria falta. Uma mãe sustenta a função paterna por metaforizar a falta na relação com o filho, introduzindo a dimensão desejante ao possibilitar que a satisfação do bebê também possa ir circulando por objetos que substitutivamente possam ser representantes da relação com o Outro primordial.

A questão se coloca quando a promessa mercadológica é efetuada na lógica de que tais objetos, em lugar de funcionar progressivamente como representantes simbólicos que metaforizam a relação com o Outro, se interpõem em uma suposta economia da relação, supostamente “poupando” o trabalho de se relacionar com todo o mal-estar e equívocos que isso comporta, pois haveria um objeto realmente adequado à satisfação. Assim temos desde cadeirinhas vibratórias (sim, vibradores para bebês!) até programas televisivos para bebês que prometem acalmar a cólica, mais do que qualquer colo e aconchego, ou “estimular a inteligência” mais do que qualquer cantiga ou conversa.

Estabelece-se assim uma oferta de objetos que não estão no lugar de metaforizar a relação com o Outro encarnado diante de sua inevitável falta, que não estão atravessados pela função paterna em uma extensão dos circuitos de satisfação referidos a um traço unário fundamental. Em lugar disso os bebês muitas vezes ficam expostos a objetos supostamente eficazes (como se eles em si tivessem propriedades capazes de estimular aptidões ou acalmar) e que passam a ser oferecidos em economia da relação com os demais, lançando muitos bebês a não poderem constituir uma relação com a coisa mediada pela metáfora transmitida pelo Outro, e ficando expostos ao risco de ficar, assim, com seu campo pulsional restrito e achatado à sideração do espetáculo ao festival sensorial que o mundo das coisas oferece.

Essa questão se relança mais adiante, quando as crianças ficam na posição de espectadoras do que os brinquedos fazem – brinquedos que falam, riem e se mexem sozinhos. Ora, brincar é constituinte do sujeito na infância justamente porque implica a possibilidade para a criança de apoiar o seu fantasiar em objetos concretos (13), mas o que ocorre quando fazemos das crianças espectadoras, em lugar de autoras do que se passa em uma cena com os brinquedos que transcorre em suspensão do brincar?

As próximas 3 publicações do blog tratarão das consequências que os aparelhos eletrônicos e meios virtuais de relação têm produzido nas relações cotidianas familiares e na constituição das crianças. Para tanto traremos a parte final do texto de Julieta Jerusalinsky e, na sequência, dois textos de psicanalistas convidados para esta interlocução: Adela Gueller e Alfredo Jerusalinsky.

 

1 Questão abordada no seguinte texto: Julieta Jerusalinsky (2002). Prosódia e enunciação na clínica com bebês, in: Quem fala na língua? Org. Vorcaro, Ágalma, 2002.

2 Sigmund Freud (1921). Psicologia das massas e análise do eu, p. 133.

2 Sigmund Freud (1921). Psicologia das massas e análise do eu, p. 133.

3 Sigmund Freud (1923). O ego e o Id, p. 45.

4 Jacques Lacan (1969-1970). O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise, p. 73.

5 Jacques Lacan (1961-1962). Seminario 9. La identificación.

6 Julieta Jerusalinsky (2011). A criação da criança.

7 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a sexualidade, pag. 146.

8 Jean Bergés e Balbó (2009). Jogo das posições mãe criança.

9 Julieta Jerusalinsky (2011). Obra citada.

10 Idem.

11 Idem.

12 Winnicott (1971). Realidad y juego. Barcelona: Gedisa, 1994.

13 Sigmund Freud (1908). Os escritores criativos e o devaneio.