As crianças entre os laços familiares e as janelas virtuais  –  Parte 1

Por Julieta Jerusalinsky

Na cena inicial do filme Super Homem, de 1978, que fez parte da infância e juventude de muitos pais de hoje em dia, o pai do personagem-título, Jor-El – encarnado por ninguém menos que Marlon Brando –,  diante da destruição do seu planeta, lança o seu filho a uma longa viagem pelo espaço sideral endereçada à Terra. Antes da partida, deposita no berço-nave a última e fundamental peça que difere das outras: um cristal que concentra todo o conhecimento de sua civilização de origem.  

Podemos considerar que se trata apenas de uma ficção, mas a clínica revela achados inequívocos do quanto a aposta de transmissão por meio da tecnologia produziu sua marca em nossa cultura. Se a estética dos fins dos 70 e a promessa da corrida espacial como saída à destruição do planeta presentes no filme resultam um tanto anacrônicas (lembremos que ele foi produzido menos de 10 anos depois de o homem ter pisado na lua), o mito contemporâneo de aposta na possibilidade de uma transmissão que possa ser feita em ausência do corpo através de aparelhos tecnológicos parece mais do que nunca se realizar.

Se no filme de 1978 o pai se materializa em um cristal, hoje em dia a esperança se deposita em uma transmissão que possa ocorrer também através de um cristal: do cristal líquido das grandes telas televisivas dos lares e das pequenas telas portáteis de iPads e celulares que são levadas de um lado a outro junto aos bebês da atualidade. São essas máquinas que “falam” com as crianças por horas a cada dia.

Tem sido bastante revelador no consultório aquilo que muitas crianças montam como cenas familiares: amigos assistem TV juntos, mães cuidam do bebê trabalhando no computador, famílias reunidas ficam sentadas à mesa olhando para a TV. Um paciente, diante da massinha de modelar, me fez o seguinte pedido: “Faz pra mim o controle remoto”. Nada mais justo, afinal não há objeto que melhor encarne o lugar de totem na atualidade.

Em um tempo em que, se damos um google nessa palavra, o primeiro que aparece são anúncios de “totens publicitários” para denominar estandes comerciais espalhados por lugares públicos (nos quais é possível plugar seus aparelhos, carregá-los e ter acesso à web) é preciso que possamos recordar que originalmente o totem é um símbolo sagrado, que tem a função de emblema para tribos ou clãs, representando seus ancestrais e protetores.

A palavra totem é derivada de “odoodem” que significa “marca da família” na linguagem Ojibwe dos índios da América do Norte. Por marcar as origens, geralmente os totens trazem representações de animais ou plantas. registrando a história de um grupo e também os possíveis poderes de transformação entre homem e natureza. Tais representações são veneradas, pois o totem é o que organiza e regula as trocas da comunidade, e, portanto, sem ele a referência do grupo se perde.  

O que faz laço entre nós? O que transmitimos como valor cultural às crianças? Qual é o objeto presente nas disputas familiares? Aquilo que não pode ser perdido de vista? Pelo que brigamos e o que desejamos ter em nossas mãos para sentir-nos acolhidos ao final de um árduo dia de trabalho em nome da civilização?

Meu pequeno paciente, do alto de seus seis anos, está aí para revelar: o controle remoto é, sem dúvida, um totem da atualidade.

Ele chega ao consultório repetindo certas consignas como “você tá fora”, “foi eliminado”, “venci”, trechos de jogos e de programas televisivos e de reality shows que reproduz como uma fala em sintagma – em que se serve de consignas fixas que lança aos demais, às vezes dentro e, tantas outras, fora de contexto, mas sem conseguir seguir uma conversa ou estender a significação.

Esse é o problema: os aparelhos emitem sequências sonoras, mas não conversam, não produzem uma matriz dialógica em que os lugares sejam subjetivados, eles oferecem fragmentariamente uma linguagem, mas não sustentam sua função. Emitir sequências sonoras é bem diferente de dar lugar a que o sujeito possa se representar na linguagem, subvertendo por meio dos chistes ou atos falhos sua significação – aquilo que de mais interessante a linguagem pode oferecer. Para isso precisamos, pelo menos no início da vida, estar uns com os outros, e não com gadgets eletrônicos.

As próximas 4 publicações do blog tratarão das consequências que os aparelhos eletrônicos e meios virtuais de relação têm produzido nas relações cotidianas familiares e na constituição das crianças. Para tanto traremos mais duas partes de texto de Julieta Jerusalinsky e, na sequência, dois textos de psicanalistas convidados para esta interlocução: Adela Gueller e Alfredo Jerusalinsky.