As crianças entre os laços familiares e as janelas virtuais  –  Parte 3

Por Julieta Jerusalinsky

Os adultos ficam fascinados com a habilidade de seus pequenos rebentos de apertar botões, na medida em que essa foi uma aprendizagem tardia para a geração anterior. Em seu fascínio, deixam de perceber que a complexidade simbólica de um “on-off” ou dos ícones presentes nesses objetos fetichizados impõe muito menos variáveis que uma pequena brincadeira corporal com parlendas, que uma história infantil de conto de fadas ou um brincar de faz de conta.  

A captura do olhar da pequena criança na tela portátil, em muitos casos, costuma funcionar como uma “chupeta eletrônica” que suspende as demandas e os deslocamentos do bebê pelo espaço, elementos que fazem necessária a relação com outros que advirtam e compartilhem as possibilidades e riscos presentes no mundo simbólico, imaginário e real que nós humanos habitamos.

Há algum tempo, falando sobre isso, mostrei a imagem de um grafite de um bebê que caminha em direção à TV dizendo “mammy”. Poderíamos mais uma vez pensar que é um exagero ficcional. Não o é. Sob efeito dessa questão, uma colega me enviou em resposta a imagem e texto de um blog sobre maternidade em que uma mãe, diante do seu bebê que se recusava a mamar, prende o celular na alça do sutiã para que ele assista desenhos animados enquanto mama, distraído de seu ato (a postagem recebeu várias curtidas).

É muito simplório e pouco interessante tecer uma crítica a essa mulher em particular, que, como tantas outras, fica isolada em seus pequeno apartamento cuidando durante 4 ou 5 meses de seu bebê enquanto olha para janelas virtuais antes de voltar a trabalhar 8 horas por dia e delegar os cuidados de seus bebês abruptamente a outros. Ficar em posição de culpabilizar ou desculpabilizar as mães em relação a uma performance materna implica eximir-se da responsabilidade coletiva de pensar de que modo está se sustentando o cuidado das crianças, pois a relação dos pais e dos bebês não ocorre de forma isolada, mas atravessada pelos ideais sociais. E bem sabemos que o discurso coletivo é muito poderoso.

É comum que se discuta a questão das novas configurações familiares como se o tradicionalismo familiar alguma vez tivesse sido garantia de saúde. A psicanálise nos permite justamente pensar em funções e operações constituintes do sujeito que podem ser sustentadas por diferentes agentes ou que podem não estar minimamente sustentadas nas famílias mais tradicionais.

A esse respeito, uma menininha de 8 anos  –  trazida ao consultório após passar a padecer de fortes ataques de angústia em que seu corpo treme, fica amedrontada e passa a pedir a presença da mãe em tudo o que faz  –,  ao longo de sua análise e por efeito da mesma, em vias de resolução desse sintoma, fez uma pintura: são ela, sua mãe, seu pai e seu irmãozinho, todos de sua família flutuando na tela do computador.

Esta família muito unida, como tantas outras, sempre fica junta na parte da noite depois do trabalho e escola. O que fazem? Cada um olha para a sua janela virtual individual.

Não basta a presença real, é preciso que o Outro encarnado possibilite mediar uma metaforização do que afeta o corpo. Como se inscreve o ideal do eu que funciona como mira para que seja possível realizar as travessias da vida, sem cair de angústia a cada passagem? Para onde o Outro encarnado olha? Se alguém se sente solto, flutuando na tela do computador, é porque lhe é frágil a possibilidade de servir-se da referência simbólica para representar o âmago do seu afeto corporal, que lhe permita aceder à palavra que o toca no cerne de sua articulação pulsional. Desse modo fica-se em presença excessiva do objeto, mas subjetivamente à deriva.

A criança, para se constituir como sujeito, precisa de um desejo não anônimo, temos aí o simbólico, na transmissão do nome, mas isso não vai sem o desejo; a transmissão precisa de um nome e de um corpo; da articulação da palavra e da pulsão; da inscrição de um litoral entre gozo e saber.

Sem esse bordado, sem a inscrição de litoral entre gozo e saber, a criança fica exposta a perder-se em uma errância pelo simbólico sem um fio que lhe permita alinhavá-lo a partir do desejo que lhe concerne e a toca em sua economia pulsional (como o pequeno paciente que me pede um controle remoto para organizar o mundo); ou a criança fica lançada a automatismos sensoriais em torno de fragmentos perceptivos sem um simbólico que metaforize para ela a relação com a coisa (como os pequenos pacientes que repetem a esmo a sequência de letras em prosódia inglesa).

O pedido de um controle remoto desse menino de seis anos ainda fica ecoando: se o totem representa a passagem do homem de sua condição natural a ser cultural, se ele representa um pai da horda que foi incorporado e simbolizado e em relação ao qual se estabelece uma dívida e uma lei, como considerar a relação totêmica ao objeto tecnológico que representa a passagem do homem à máquina?  –  e que longe do que exige a operação do sujeito para ser lembrado ou esquecido, recalcado, condensado, deformado ou deslocado, permanece imutável desde sempre e para sempre, podendo ser recarregado com uma pilha ou uma tomada a disposição. Os chips  –  memória sem recalque  –   garantem que a mensagem não se perca, no entanto sua transmissão não é possível de transitivar, com eles não há como compartilhar e, portanto, interpretar, subverter, reverter ou reinventar a experiência.

Como considerar a relação de um super-homem com o suposto saber que emanaria do objeto tecnológico onisciente? Com um totem completamente anônimo porque não permite a incorporação de um traço que singularize o lugar do sujeito no mundo. Um totem que, em lugar de metaforizar a falta, é a onipresença?

Que totem é esse? Ele não é o pai simbólico, pois não representa simbolicamente o morto pois nunca esteve vivo, mas é sempre recarregável, como uma constante e sinistra volta do morto-vivo.

O pai do super-homem é o pai morto que entrega o legado simbólico ao filho. A questão que se coloca é se é possível uma transmissão sem um pai real, ou seja, o pai que tropeça, se ruboriza, sorri, se envergonha, revela e transmite seu desejo não só pelo ideal, mas também pelo equívoco. Porque o pai, no melhor dos casos, o é sempre em falho, e, ao assim sê-lo, faz comparecer a articulação entre ideal simbólico e o campo pulsional.

Em seus primórdios, a psicanálise escutou e deu lugar às invenções e brincar de uma criança que estava, em plena era da moral vitoriana, deparada a uma educação que imprimia culpa diante da satisfação sexual (tornando ilegítimos os singulares modos de gozo); que inibia as investigações infantis (podendo aniquilar o desejo de saber); e que desconsiderava a palavra da criança como se fosse algo menor (destituído seu valor de verdade).

Cem anos depois, encontramos crianças confrontadas ao excesso de objetos oferecidos por pais que tantas vezes preferem não ter que dizer não (deixando-as chafurdar em um gozo perverso polimorfo aquém da castração); crianças para as quais se disponibiliza um conhecimento supostamente total do Dr. Google, mas sem ter com quem singularizar seu percurso de investigação (sem poder construir um saber como efeito da experiência dele mesmo e de seus antecessores); crianças que têm os seus corpos submetidos a um saber técnico-científico que achata a verdade sobre o real e nossas respostas à falta ou excesso de substâncias (a verdade está mais do que nunca na coisa e não na palavra).  

Diante disso, será preciso realizar na singularidade de cada intervenção clínica um novo rito de passagem? A profanação (que evoca a violência e a transgressão necessária no lugar do assassinato do pai da horda primitiva) que permita romper com a lógica do capitalismo como religião a fim de que haja lugar à subversão própria do desejo?

Sim, é preciso que possamos intervir com as crianças dando lugar a uma metáfora inventiva diante da insatisfação em lugar de entuchá-las com a promessa de objetos perfeitos e acessíveis capazes de aplacar a falta. E, na clinica com bebês e crianças, isso se inicia pela intervenção do analista junto à demanda dos pais para que a criança não seja ela mesma tomada como objeto a ser adequado.

A virtualização implica a possibilidade de dissociar-se do real do corpo, e disso é possível fazer bons usos. No entanto é preciso considerar quais os riscos dessa dissociação para bebês, na primeira infância e, portanto, em um tempo em que a subjetivação e apropriação do corpo ainda não foram realizadas.

Isso porque, se desde o ideal contemporâneo os filhos desses pais anônimos e sem corpo de cristal líquido supostamente se tornariam super-homens, o sintoma apresentado de fato por número significativo de bebês e pequenas crianças da atualidade, como um efeito bumerangue, revela que muitas delas padecem de graves intoxicações eletrônicas que as fazem subjetivamente vagar à deriva, perdidas no espaço virtual, ou fixadas em um fragmento perceptivo em torno de um naco frio e brilhante de puro real inominável.

 

Esta série de publicações do blog tratará das consequências que os aparelhos eletrônicos e meios virtuais de relação têm produzido nas relações cotidianas familiares e na constituição das crianças. Além dos textos de Julieta Jerusalinsky, já postados, serão publicados na sequência artigos de psicanalistas convidados para esta interlocução: Adela Gueller e Alfredo Jerusalinsky.