Há mais ou menos três anos, Cláudio Lages da Silva não imaginava que “Mocinha” entrasse em sua vida e a mudasse tão radicalmente. A história, que se desenrola em Botuporã, cidade com pouco mais de 11 mil habitantes no centro-oeste baiano, é sobre o nascimento de uma potra com uma deficiência congênita rara, que fez com que um dos seus membros dianteiros não se desenvolvesse. A chance de um animal nascer e chegar à fase adulta com esse problema é praticamente um milagre, uma em milhões.

A égua "Mocinha" e Cláudio Lages da Silva.
CRÉDITO: Juraci Magalhães de Souza/Arquivo Pessoal

Pior, em um lugar onde quase não há assistência veterinária, nascer dessa forma pode ser uma sentença à morte. Normalmente, principalmente no Nordeste, os cavalos são usados como animais de trabalho e sem essa função – além de precisar de muitos cuidados – o dono não via uma utilidade ou a chance de ela sobreviver. Mas essa não era a opinião de Cláudio que, ao ficar sabendo que o destino de “Mocinha” estava traçado, pediu ao dono para doá-la, já que ele gostava de animais e não aceitava que um bicho devia ser condenado à morte porque nasceu com uma deficiência.

Respeito ao ser vivo, fé e compaixão motivaram Cláudio a salvar o animal
CRÉDITO: Juraci Magalhães de Souza/Arquivo Pessoal

Ele conseguiu levá-la, mas essa pequena égua ainda teria mais sofrimento pela frente. Sua mãe, colocada para trabalhar dias depois da cria, sofreu uma hemorragia e não resistiu. Sem o leite materno as chances da potra diminuíam sensivelmente, mas Claudio teve fé: “Eu colocava leite de vaca em uma bacia e dava para ela duas vezes ao dia. Cuidei como se fosse uma criança, com muito carinho. Acho que ela sabia disso”, afirma. De fato, a atitude dele fez a diferença, já que talvez com a mãe a potra não tivesse a mesma chance. “Existe uma lei natural de sobrevivência dos mais fortes na natureza. Com a mãe ela não teria essa assistência que precisava e talvez não a acompanharia para mamar. A atitude a salvou”, explica o veterinário Carlos Alberto Hussni, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu.

São pequenas as chances de um cavalo nascer e chegar
à fase adulta com apenas três patas.
 CRÉDITO: Juraci Magalhães de Souza/Arquivo Pessoal

O tempo passou, a potra começou a crescer e a se adaptar àquela situação física, mas as dificuldades eram grandes.  Claudio dependia de um mangue de um amigo para deixar “Mocinha” e seus recursos financeiros vêm de uma pequena aposentadoria, que também mantém a família e os outros animais. Mesmo assim ela não foi deixada para trás. “Ele é conhecido pelo seu amor aos animais. Sempre ajuda os bichinhos, principalmente aqueles que ninguém quer, por estarem doentes ou judiados”, explica Juraci Magalhães de Souza, amigo do aposentado.

Para dar uma vida melhor a “Mocinha”, porém, seria preciso espaço adequado e sua chance era pedir ajuda a quem realmente poderia fazer algo, ninguém mais do que o ex-presidente Lula. “Na época ele era presidente e escrevi contando a história dela. Como ele é do Nordeste achei que entenderia. Pedi a sua ajuda para arrumar um pedaço de terra para que eu pudesse ter e dar uma vida digna a ela. E ele me respondeu.” Em 2009, a correspondência foi respondida pelo diretor de Documentação Histórica, Claudio Soares Rocha, informando que o caso tinha sido encaminhado para o Ministério de Desenvolvimento Agrário, e por lá ficou.

Carta com a resposta da Presidência. Crédito: Reprodução

Para o aposentado as coisas se complicavam mais conforme o tempo passava. Um problema de saúde – derrame, segundo ele – prejudicou sua memória. Aos 70 anos, sua preocupação é de que algo lhe aconteça e que “Mocinha” seja sacrificada. Debilitado e com a idade avançada, ele deseja voltar à sua terra natal, Alagoas, mas apenas depois de encontrar um lar para ela. “Sei o que costumam fazer nesses casos e não gostaria que Mocinha morresse. Muitos matam cavalos para alimentar outros bichos”, afirma.

Claudio não entende nada de tecnologia, tampouco de redes sociais, mas sabe que a internet é uma ferramenta de grande alcance e que seria um meio de divulgar sua angústia, levando para longe o caso da égua. “Quem sabe achamos alguém que possa ficar com ela, que a crie como ela é e não deixe ninguém maltratá-la.” E foi com a ajuda do amigo Juraci que “Mocinha” ficou famosa e entrou para o mundo virtual. Um vídeo foi feito e colocado no YouTube e muitos se emocionaram e querem ajudar a achar um lar para a égua especial – o filme já registra mais de 21 mil acessos.

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Graças às redes sociais, eis que surge uma das interessadas em ficar com o animal – pelo menos de forma provisória – e que tem perfil adequado. Magali Caravaggi é veterinária e mora em Osasco. Trabalhou um tempo com equinos e até tem um cavalo em um haras no interior de São Paulo. Ela quer ajudar o aposentado a arrumar alguém em São Paulo, mas o problema está justamente no transporte do animal. Além das dificuldades em obter a documentação e do alto custo do translado, o transporte é de grande risco à saúde da potra, por causa da sua deficiência. “Já enviamos um kit para extrair o sangue e até conseguimos um laboratório na Bahia para realizar os exames exigidos para o transporte, mas, para você entender a dificuldade, ainda não conseguimos nem um veterinário próximo da cidade onde eles moram para coletar o sangue”, explica.

Já em relação ao veículo para trazê-la, a tentativa é arrumar um caminhão apropriado, mas as despesas são altas. “Nossa dificuldade é grande porque o ideal é que ela venha sem outros animais no mesmo caminhão, o que encarece o transporte. Fica em torno de R$ 6 mil apenas o transporte, mas a viagem é estressante para a égua. O certo era ela vir bem apoiada e com paradas planejadas. Além disso, seria preciso vir com ela um veterinário e o senhor Claudio, caso contrário a chance de ela morrer na viagem é muito alta, uns 50%.”

Mocinha precisa arrumar um lugar para ficar. Um terreno 
plano, longe de outros animais e que tenha 
assistência veterinária
CRÉDITO: Juraci Magalhães de Souza/Arquivo Pessoal

Ainda segundo ela, a égua precisaria ficar em um haras adequado, com clínica especializada, se possível. “Estou tentando alguns haras para ela ficar, mas gostaria que fosse encaminhada para onde está o meu cavalo, que é um lugar que conheço e tem estrutura.”

A verdade é que  Magali gostaria muito de ajudar, mas sabe que para o animal o melhor seria  ficar na região onde está, sob os cuidados de alguém que realmente a queira assim. “Estamos vendo a possibilidade de ela vir para São Paulo, mas se houver um fazendeiro ou alguém que tenha espaço e goste de animais para cuidar bem, seria melhor.”

Certamente, esta história poderia vir de um livro ou da ficção dos cinemas, mas é a realidade. Atitudes de compaixão, dedicação, carinho e respeito ao ser vivo talvez sejam apenas algumas das formas de expressar, como esse senhor do sertão da Bahia demonstra, a verdadeira consciência e entendimento do que é a evolução humana e o amor incondicional à vida, livre de preconceitos. E quem sabe haja a esperança de que esta notícia vá além e possa trazer um final feliz, como nos contos mais belos.

Para ajudar:
Cláudio Lages da Silva – (77) 9142-7262

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