Um mistério cerca o suposto desaparecimento de centenas de quatis que habitavam a Ilha de Campeche, na costa sudeste de Florianópolis (SC). Segundo informações da Fundação do Meio Ambiente (Fatma), uma denúncia foi feita à ouvidoria do órgão e a investigação foi iniciada esta semana. A hipótese é de que os animais teriam sido envenenados.

O quati é considerado espécie exótica, que não é natural da região, e teria sido introduzido na ilha pelo homem há mais de 30 anos. Como eles não têm predadores naturais, a população do animal teria aumentado rapidamente, a ponto de começar a provocar desequilíbrio ambiental, atingindo principalmente as aves – os ovos fazem parte da sua alimentação. Além disso, eram constantes as queixas de pescadores e turistas que se sentiam incomodados com as atitudes dos bichos, que entravam em restaurantes e invadiam a praia para roubar alimentos.

Até a Polícia Federal deverá investigar
 o desaparecimento dos quatis.
CRÉDITO: ADRIANA MOREIRA/AE

Segundo Murilo Flores, presidente da Fatma, se de fato foram mortos, esses poderiam ser os motivos que levariam alguém a matá-los. Por isso, a principal linha de investigação da Fundação do Meio Ambiente é de que os bichos teriam sido envenenados ou abatidos depois de capturados e enterrados ou descartados no mar. “Se estivessem doentes ou morrido de causa natural, acharíamos os corpos”, afirma.

A polêmica dos quatis na ilha vem se arrastando há anos, segundo Rosane Hahn, assessora jurídica da Associação Couto Magalhães, entidade responsável pela conservação do local. “Não é verdade que houve essa matança. A questão da superpopulação de quatis vem sendo discutida há dez anos e desde essa época mantemos ações para reduzir a população desses animais. Esse foi um pedido do próprio Ibama, que exigiu que a Associação tomasse providências no sentido de conter o avanço dessa espécie. Com isso, iniciamos uma proposta simples: evitar o contato dos animais com lixo e alimentos. A redução vem se mostrando ao longo dos anos, não aconteceu de um dia para o outro”, explica Rosane.

A maior dificuldade da Fundação do Meio Ambiente é justamente obter provas do suposto crime, já que as pessoas que vivem no local e os pescadores não falam sobre o assunto e não foram encontrados animais enterrados ou mortos. Além disso, não há um censo oficial que possa servir como base para afirmar quantos animais foram exterminados, mas há denúncias de que o número passaria de 300 quatis. A Polícia Militar Ambiental dá apoio à investigação da Fatma, mas o caso deve ser repassado à Polícia Federal, já que a ilha é de responsabilidade da União.

“Seria interessante que a Polícia Federal participasse, porque ela tem competência para agir. Vamos formalizar o convite para nos ajudar a descobrir se houve ou não a matança”, afirma Murilo Flores. Para o presidente da Ftma, a redução da população de quatis deveria acontecer de forma controlada: “Tinham de ser capturados e transportados por órgãos competentes para áreas de Mata Atlântica da região, seu hábitat. A propagação dessa espécie mostra a importância de se ter cuidado ao introduzir um bicho exótico em qualquer local, mas, se alguém tomou a decisão de matar e acabar com o problema dessa forma, ainda que fosse preciso controlar essa população, cometeu um crime.”

Sendo assim, se for comprovado que houve a execução dos animais, o autor poderá responder por crime ambiental, de acordo com a Lei Federal 9.605/98. A pena é de seis meses a um ano de detenção e o infrator poderá pagar multa de R$ 500 por animal morto.