Peço licença ao meu lado científico, para contar uma estória pessoal.

William Kitzinger/Creactive Commons

William Kitzinger/Creactive Commons

Estava eu, na aula da pós, em pleno sábado, quando recebo uma mensagem do Armando Barsante. Ele foi meu chefe quando estagiei no Projeto Tamar no Rio Grande do Norte. Hoje, Armando é coordenador do Projeto no RN e PE. Viciado em tartaruga há muitos anos, na mensagem que ele enviou tinha, obviamente, a foto de uma tartaruga. Junto, um recado “Ontem vi uma tartaruga e lembrei de você”. Peraí! O meu chefe do Tamar, que não me vê há um tempão, encontrou uma tartaruga e lembrou-se de mim? Ao não reconhecer a foto, questionei quem era a tartaruga. Veio a resposta: “Ela tinha uma mordida de tubarão. Sua memória não lembra dela?”. Nesse momento meus olhos se encheram de lágrimas. Siiiim, eu me lembroooo! Essa é a tartaruga que eu apelidei carinhosamente de Tutuba.

Foto: Armando Barsante

Foto: Armando Barsante

Ela foi vista pela primeira vez dia 17/02/2005, data em que eu era estagiária e ajudei a marcá-la. Na época, perguntei ao Armando como era possível ela ter sobrevivido a um ataque de tubarão, o principal predador das tartarugas marinhas. Para o tubarão, a tartaruga marinha é um biscoito recheado: crocante por fora e macio por dentro. Poucas sobrevivem ao ataque. Realmente, a Tutuba é uma guerreira!

Foto: Acervo Projeto Tamar

Foto: Acervo Projeto Tamar

Todas as tartarugas que sobem para a praia, para desovar, recebem uma marcação, como se fosse um brinco, com um número e a inicial do país que foi vista pela primeira vez. Assim, se ela for encontrada em qualquer outro lugar do planeta, contactam o país de origem e avisam sobre a tartaruga. Por esse “brinco” que tiveram a certeza que era a Tutuba e buscaram no banco de dados tudo sobre ela.

Foto: Arquivo Projeto Tamar

Foto: Acervo Projeto Tamar

Sobre a Tutuba

Foto: Armando Barsante

Foto: Armando Barsante

Ela é uma tartaruga de pente (Eretmochelys imbricata), mede 99 cm de casco, sendo uma das maiores da espécie. Ela praticamente não cresceu desde que eu a conheci, lá em 2005. Ela desova no Rio Grande no Norte, entre as praias do Chapadão, Minas e Sibauma (região de Pipa).  

A época de desova nessa área vai de outubro a maio. A Tutuba foi vista desovando três vezes nas temporadas de 2006/2007, três vezes novamente nas temporadas de 2008/2009, quatro vezes na de 2011/2012 e duas vezes agora na de 2014/2015. Ela sempre coloca muitos ovos, em média 188, mas já variou de 151 a 205 ovos. Além dessa espécie, outras quatro são vistas nas praias do nosso litoral: tartaruga oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga de couro (Dermochelys coreacea), tartaruga cabeçuda (Caretta caretta) e tartaruga verde ou aruanã (Chelonia mydas).  Quem monitora as tartarugas do nosso litoral é o Projeto Tamar, patrocinado pela Petrobrás.

Voltando à estória…

Foto: Acervo Projeto Tamar

Foto: Acervo Projeto Tamar

Mas o motivo da mensagem era ainda melhor! Como a Tutuba é uma tartaruga icônica, pois foi atacada por um tubarão e sobreviveu, ela foi escolhida para receber um transmissor. Com esse equipamento, sabemos por onde a tartaruga nada, onde passa a maior parte do tempo e quanto tempo fica embaixo d’água. Por conta desse novo aparelho, a Tutuba ia ser cadastrada em um banco de dados e precisava de um nome. Quem foi escolhido para batizá-la? Euzinhaaaa!!! Não podia ser o apelido, pois o cadastro é feito só com nomes de estrelas do céu (não as de Hollywood). Como ela foi vista no primeiro dia de outono, pesquisei a constelação que estava visível no céu nesse período e escolhi a estrela Gliese 436.

Você acha que a história termina por aí? Não, não, não!

Após 3 dias do “batismo”, a Tutuba (digo, Gliese) ainda não tinha emitido nenhum sinal. Ai que angústia! O que será que havia acontecido com ela? Recebo uma nova mensagem: “Estou apreensivo. Ela ainda precisa transmitir para ser batizada”. Ai, ai, ai! Tutuba linda, cadê você?!

Foto: Arquivo Projeto Tamar

Foto: Acervo Projeto Tamar

Em 23 de março de 2015 eu virei, oficialmente, madrinha de tartaruga! Ufa! Gliese emitiu suas primeiras informações, via satélite, para compor o banco de dados. Como estava chovendo nos dias após a colocação do equipamento, provavelmente deu erro na transmissão.  O mais importante: Gliese Tutuba está ótima, nadando pelos mares. Quem sabe no ano que vem nos encontramos pelas praias do RN?

Você está acompanhando as novidades da SPFW? Semana que vem, você vai conhecer uma fashionista que tem 11 cães. Ela uniu a paixão por animais com a sua dedicação à moda. Não perca, será dia 22/04. Até lá!