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Hiperatividade e déficit de atenção em cães

Luiza Cervenka de Assis

06/12/2017, 1:06

Vasil Vasilev/Creative Commons

Já há diagnóstico de cães com TDAH (Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), mas o que isso quer dizer? Será que seu cãozinho sofre disso? O que gera este tipo de comportamento?

Apertem os cintos, vamos entrar em uma área de muita divergência entre os próprios cientistas.

Quem nunca teve um cachorro super agitado, que aprontava, com energia para dar e vender?! Antes, tido como normal, hoje pode ser visto como um transtorno comportamental e até genético.

Estudos feitos em países da Europa, EUA e Canadá, apontam que muitos tutores declararam seus cães como hiperativos ou com dificuldade em se concentrar em uma dada tarefa.

Será que os nossos peludos estão passando pelo mesmo que as crianças? Será que a falta de paciência de pais e tutores estão gerando crianças e animais mal compreendidos e diagnosticados erroneamente?

Jose Alvarez/Creative Commons

A jornalista americana Pamela Druckerman escreveu uma série de livros sobre como foi criar seus filhos na França. No seu livro mais conhecido “Crianças Francesas não fazem manha”, Pamela aponta a criação das crianças francesas, como o grande diferencial para a educação. Ela mostra que todos os bebês têm a mesma necessidade e comportamento, porém, os pais franceses são mais pacientes quando o assunto é choro e birra, tanto em casa, quanto na rua.

Não entendo de crianças, mas baseada deste livro e em outro com título “Pais franceses não desistem”, percebo que o mesmo acontece com os cães. A questão não é apenas a raça ou o temperamento do animal, mas como ele é criado.

Com a vida cada vez mais corrida, e os pais se dedicando intensamente à vida profissional, bebês e animais de estimação sofrem com o tempo longe de seus pais/tutores. Ao chegar em casa, pode acontecer desses tutores estarem cansados e sem paciência. Porém, gostam de desfrutar da companhia e carinho do amigo peludo.

A grande questão é a necessidade dos animais. Uma voltinha de 30 minutos por dia pode não ser suficiente, após oito ou dez horas sem atividades. O que observo entre meus clientes é a grande reclamação do excesso de energia que os animais estão apresentando. Muitos me pedem calmantes, florais ou algum remédio que ajude a tranquilizar o animal e reduzir essa agitação.

Há casos nos quais os remédios são necessários. Quem deve avaliar isso é o médico veterinário. Porém, em mais de 80% dos casos, o real motivo do problema é a falta de atividade específica para os filhotes de patas.

O que mostram os estudos?

chausinho/Creative Commons

Apesar da minha linha ser totalmente comportamentalista, há outra vertente que explica esta agitação, e até a falta de atenção do animal, geneticamente. Um estudo feito na Universidade de Columbia, nos EUA, demonstrou a correlação entre dois genes e hiperatividade em duas raças: pastor alemão e husky siberiano.

Foi encontrado um encurtamento no gene chamado DRD4. Este é responsável pela absorção da dopamina no organismo dos cães. A dopamina, tanto em cães, como em humanos, auxilia na consolidação da memória, melhora o humor, facilita o processo de aprendizado e de atenção. Além de estar relacionada à sensação de prazer ou recompensa agradável.

Com a baixa absorção deste neurotransmissor, os cães pesquisados são mais agitados e têm dificuldade de focar em uma atividade por muito tempo, podendo ser enquadrados dentro do TDAH. Todavia, os pesquisadores são taxativos ao indicar que não se pode generalizar o estudo para outras raças, já que cada uma tem sua especificidade.

Em Boston, também nos EUA, outros pesquisadores tentaram correlacionar falta de alguns nutrientes e excesso de proteína na alimentação com o comportamento hiperativo. Porém, não observaram influência deste tipo de dieta na agitação dos cães.

O estudo que eu mais gosto desta área foi feito por pesquisadores na Califórnia, EUA. Eles enviaram questionários online para diversos tutores, questionando se seus cães apresentavam hiperatividade, falta de atenção ou impulsividade. Segundo a visão dos tutores, muitos cães foram apontados com hiperatividade e falta de atenção.

Os cientistas concluíram que muitos desses casos, relatados pelos tutores, eram comportamentos naturais da espécie. Outros, realmente eram problemas mais sérios e foram tratados por veterinários, através de medicação e terapia. Neste último caso, o que gerava o comportamento de hiperatividade ou falta de atenção era um fator genético. Mesmo com treinamentos ou com o passar da idade, o animal permanecia com as mesmas características.

Segundo o Dr Andreas Luecher, da Universidade de Guelph, em Ontário, Canadá, a hiperatividade em cães é uma queixa comum. “Na maioria dos casos, a hiperatividade não é devido a uma desordem fisiológica, mas é um comportamento normal para a raça ou um comportamento inadvertidamente condicionado pelo proprietário dando atenção indevida. O tratamento nesses casos, envolve o redirecionamento do foco do animal, para objetos alvo apropriados”. O pesquisador também ressalta que a punição não funciona. Pior, ela tende a aumentar os níveis de excitação e não incentiva o comportamento desejável.

E daí?!

Crazy House Capers/Creative Commons

A conclusão de todos esses estudos é muito simples: todo cachorro tem suas necessidades básicas e precisam ser atendidas. Não adianta adquirir um cachorro achando que ele ficará ao seu lado, como um ursinho de pelúcia, o dia todo. Além disso, é muito importante avaliar a genética do animal a ser comprado: o comportamento dos pais, avós, bisavós.

Todos os cães precisam de exercícios físicos diários, além de estímulo mental, uma boa alimentação e carinho. Quando qualquer uma dessas bases falha, o comportamento agitado ou falta de interesse em uma dada atividade pode acontecer.

Por isso, se você acha que seu cachorro anda muito agitado, dê mais brinquedos, passeie mais, ofereça mais desafios ao longo do dia e busque um médico veterinário.

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