Beth Nazario/Creative Commons

Começou a viralizar nas redes sociais um vídeo de uma menina autista, Grace, que ama pintar. Aos poucos, uma linda gatinha, Thula, entrou em sua vida e mudou a forma de ver o mundo. Hoje, as duas fazem grande sucesso com suas aventuras. Mas será que toda criança autista pode ou deve ter um animal de estimação?
Para entender o que é o autismo, fui conversar com a Terapeuta Ocupacional, especialista em Integração Sensorial, Juliana Acciari de Freitas. Já no início, ela me corrigiu: “Desde 2015, não se usa mais o termo autismo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é assim chamado, pois há diversos níveis, com diferentes características. Este vasto espectro é um transtorno do desenvolvimento com causas neurobiológicas ”.
Para alguém ser caracterizado com esse tipo de transtorno, é necessário passar por uma avaliação clínica com uma equipe multidisciplinar de médico, psicólogo, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo. São diversos sinais clínicos que podem levar um profissional a pesquisar a possibilidade do transtorno. “As áreas afetadas em todos os casos, em diferentes níveis, são a interação social, a comunicação, o comportamento e o processo sensorial” explica Juliana.

Dagny Lilley/Creative Commons

Os casos estão aumentando. Só em 2013, foram identificadas uma em cada cinquenta crianças. Enquanto que em 2012, a proporção era uma para oitenta. Assim, o transtorno ganhou mais destaque nas pesquisas científicas e nos possíveis tratamentos.
Há muitos anos, a terapeuta antroposófica e professora de equitação, Cláudia Poci, entendeu como os animais podem auxiliar em diversos problemas psicológicos e clínicos dos seres humanos. “Todo ser humano nasce gostando de animais. Se alguém não gosta, é porque foi ensinado assim em algum momento da vida”, afirma Cláudia.
Baseada nesses princípios, Cláudia atende diversas crianças e adolescentes com TEA. “Não há uma receita para começar a trabalhar com este paciente. É necessário que o próprio animal chame a atenção da criança, para então ela perceber o mundo”, conta a terapeuta.
Quando ela diz que não há protocolo, está sendo bem exata. “Um dos pacientes chegou até o atendimento, mas não queria sair do carro. Não tive dúvidas. Pedi para o pai colocar o carro no pasto e levei o cavalo ao encontro do menino, dentro do carro”, relembra Cláudia. A situação inusitada fez com que o menino olhasse para fora do automóvel e se comunicasse com o animal. Hoje, este menino cavalga confiante, segurando as rédeas e conduzindo o equino. Essa é a grande diferença entre a equitação terapeutica e a equiterapia. Na terapia aplicada por Cláudia, o paciente leva a rédea e conduz o cavalo. Já na equiterapia isto não acontece.

birddog10/Creative Commons

Mas se engana quem acha que esse foi o caso mais difícil. Apesar da Cláudia afirmar que não há casos difíceis, apenas necessidades diferentes, um paciente em especial veio a sua mente: “Ele chegou muito agressivo, batendo nos pais, xingando a todos, com muita energia. Aos poucos, foi se entregando ao cavalgar. Junto, os pais faziam carinho no cavalo e diziam o quanto o animal amava o menino. Um dia, sem ninguém esperar, o menino disse o que toda mãe quer escutar: ‘eu te amo’. Hoje ele não é mais agressivo”.
Conquistas como essas não são incomuns na rotina terapêutica. Além dos cavalos, no seu espaço em Itu, interior de São Paulo, Cláudia conta com cães, gatos, uma porca (Marmita), cabritos, cabras e vacas. “Às vezes a criança chega e se encanta por um cachorro. Então é através deste animal que a terapia se inicia. Um outro menino estava com medo do cavalo, mas se apaixonou pelo cão marrom de 70 kg da raça Rodésia. Toda semana levava um brinquedo para o peludo. Até entender que aquele cão era um cavalo um pouco menor” relata.

Christine Rogers/Creative Commons

Os animais auxiliam na principal característica que todos os pacientes com TEA apresentam, a alteração no processo sensorial. É nesta questão principal que os animais ajudam. “O trabalho com os animais promove para o paciente a possibilidade de trabalhar a questão de interação social, a comunicação, mas principalmente na integração sensorial. O animal vai promover o estímulo tátil, quando a criança toca e faz a criança correr, dando um estímulo proprioceptivo” reforça Juliana.
É exatamente por este motivo que a terapeuta Cláudia prioriza o trabalho com os cavalos. “Este animal especificamente trabalha principalmente a postura, o ritmo e o toque nos pacientes. Com isso, há uma grande evolução no caminhar e coordenação motora” ensina. Para poder atender crianças carentes, Claudia criou o Instituto Horsoul, no qual 60 famílias já foram contempladas.

Ann Lutz/Creative Commons

Juliana compreendeu que os animais podem ser um grande aliado no tratamento dos seus pacientes com TEA. Por isso, adicionou a algumas sessões o seu cão Snow. “Devido à dificuldade com os estímulos táteis, algumas crianças desenvolvem aversão a alguns alimentos. Para fazer a introdução de uma nova comida, pode ser demorado e custoso. Porém, se for primeiro oferecido ao cão e o paciente ver a reação dela, poderá se interessar em experimentar aquela comida” exemplifica Juliana. A grande dificuldade dos pais, segundo a terapeuta ocupacional, é respeitar os limites dos pacientes, coisa que os animais fazem tranquilamente.
Apesar de ser lindo de ver a interação das crianças com TEA e os animais, Cláudia é veemente ao alertar: “Nunca deixe um animal sozinho com uma pessoa com TEA! Muitas vezes eles não medem sua força e, sem querer, podem acabar ferindo o animal ou até matando”. Todo trabalho terapêutico e a introdução de um novo amigo peludo deve ser feito com supervisão dos pais e de um profissional.

O vídeo fofo

A Whiskas, marca de ração de gatos, lança uma campanha para aguçar a curiosidade dos gatos. O projeto estreia com um filme baseado na história de Thula, uma gatinha Maine Coon que, em 2014, conquistou a confiança de Iris Grace (8), uma menina diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), em grau severo, aos dois anos de idade. Ao conhecer Thula, a afinidade foi imediata e, estimulada pela curiosidade da gatinha, ganhou mais confiança, começou a se comunicar e a participar de diversas atividades, revelando extraordinário talento para a pintura.

A história de Iris Grace e Thula é interpretada por uma pequena artista em cenas que se mesclam com a vida real das duas protagonistas. A família de Iris Grace acompanhou todo o desenvolvimento: “Estamos muito satisfeitos por estar envolvidos neste projeto. Esperamos que as famílias com crianças autistas sejam inspiradas pela história de Iris e Thula para encontrar novas formas de se conectar com seus filhos”, destaca Arabella Carter-Johnson, mãe de Iris Grace.

Com a sensível história de Iris Grace e Thula, a plataforma Crônicas de Gatos Curiosos, convida o público a enviar histórias sobre como a curiosidade dos gatos os impactou, divertiu ou mudou suas vidas. O projeto prevê novos filmes que, em breve, farão parte da plataforma, destacando a curiosidade dos gatos, baseados em histórias reais. Para acompanhar mais esta história de amor, basta siguir os canais de Iris no Facebook (@IrisGracePainting), Twitter (@IrisPainting) e Instagram (@irisgracepainting).

Para fechar a matéria, assista e se emocione com o vídeo, que está conquistando até os corações mais duros.