Foto: Luiza Cervenka

Foto: Luiza Cervenka

Se o blog é de comportamento animal, por que falar de política? Ainda mais a colombiana…

Muito simples, os cães estão totalmente envolvidos na política e processo de paz da Colômbia. Sem esses animais, muitas outras pessoas poderiam ter morrido. Graças a eles que muitas vidas foram e serão salvas, mesmo após a finalização da atividade da FARC.

Em qualquer prédio comercial e até shoppings, que você entre de carro na Colômbia, você deve parar na entrada, desligar o carro e destravar as portas. Isso para que os cães de segurança possam inspecionar se há algum tipo de bomba ou explosivo. O que pode parecer estranho aos olhos de um turista, como eu, é algo extremamente rotineiro há mais de quinze anos em diversas cidades colombianas.

Esse procedimento foi iniciado após um carro bomba explodir um shopping em Medelin, terra de Pablo Escobar.

Outro local muito comum de ver cães, é nos aeroportos. Lá, eles têm a tarefa de verificar bagagens e inspecionar pessoas a procura de drogas e armas. Mas não são apenas essas duas áreas que os cães trabalham. No Exército Nacional da Colômbia, os cães têm oito diferentes setores para trabalhar. Basta chegar na sede do exército, em Bogotá, e já podemos encontrar lindos pastores alemães fazendo a defesa da área. Há aqueles treinados para detectar armas e bombas em pessoas e locais. Mas a maioria dos cães do exército vai para o chamado “desminado militar” e “desminado humanitário”.

No exército, já chegou a ter mais de cinco mil cães, nas piores épocas de ação da guerrilha. Hoje em dia, são por volta de mil e quinhentos espalhados por todo território colombiano. A raça mais utilizada é a lavrador retriever. Segundo o Coronel Ramirez, médico veterinário responsável pelos cães do exército, essa foi a melhor a se adaptar ao terreno acidentado colombiano, mais forte contra doenças e mais disposta ao trabalho necessário.

Na visita ao centro de reprodução de treinamento dos cães do exército, em Tolemaida, cidade há 70 km de Bogotá, questionei ao Coronel se com o tratado de paz iria diminuir ainda mais o número de cães utilizados. Ele me respondeu que não. “Além da FARC, há outros grupos terroristas na Colômbia, que são ainda mais sanguinolentos. E mesmo que não houvesse, os cães são necessários para detectar as bombas que ficaram escondidas e ninguém consegue acha-las, somente os cães” explicou.

Foto: Luiza Cervenka

Foto: Luiza Cervenka

Esta procura por bombas, colocadas principalmente próximo a escolas e hospitais, é chamada de “desminado humanitário”. Mesmo quando não há mais atuação da guerrilha em uma certa localidade, há bombas que foram deixadas escondidas, muitas vezes enterradas. Basta um único passo errado para que uma delas seja acionada e uma cidade toda vá pelos ares.

Só pude entender a real necessidade dos cães, quando visitei o museu de explosivos do exército. Lá, conheci o mais moderno detector de metal. Mas também pude ver a evolução dos explosivos. Antes, eles levavam metal e explosivos em sua fabricação, e podiam ser detectados pelo avançado detector. Porém, as bombas utilizadas nos últimos cinco anos, levam apenas garrafa pet, fios e insumos agrícolas, como fertilizantes para plantas. Impossível detectar com aparelhos, apenas com focinhos altamente treinados.

Se você pensa que o grande problema da guerra na Colômbia é a FARC, você está enganado. Este é o grupo maior e mais bem organizado. Porém, há diversos outros grupos que praticam massacres e também fabricam as bombas. O Coronel contou que uma das piores bombas já encontradas por um cão era feita também com fezes. Assim, as pessoas que não morressem pela explosão da bomba, morreriam pela infecção causada pelos estilhaços dela.

Como a fabricação desses explosivos muda constantemente, há um laboratório que recebe todo tipo de bomba encontrada, para que os materiais utilizados sejam analisados e reconhecidos. Assim, o treinamento dos cães pode ser iniciado com maior precisão e a certeza de que todas as bombas serão encontradas.

É um lado muito triste e amargo da guerra. Gostaria que tudo isso não fosse necessário. Será que os cães também sofrem de alguma forma com tudo isso? O Coronel garante que não. Ele me contou diversas histórias para demonstrar como os cães são bem tratados por lá.

Foto: arquivo exército colombiano

Foto: arquivo exército colombiano

“Uma vez, um cão estava em ação com o seu binômio [o humano responsável]. Mesmo com a ração adequada e medicação recomendada, o cão começou a se sentir mal. No mesmo momento, o seu binômio entrou em contato com o quartel e relatou o ocorrido. Um helicóptero do exército foi enviado para socorrer o animal, mesmo estando no meio da selva. Ele foi levado ao hospital mais próximo para poder ser medicado e se recuperar. Um cão ferido é o mesmo que um soldado ferido, por isso, têm tramamento igual. Sem ele, a missão não terá tanto sucesso” relata Coronel Ramirez.

Só tiver certeza que tudo isso era real quando vi os cães sendo treinados, desde filhotes. Baseado em muito carinho, dedicação e alegria, os responsáveis pelos cães passam pelos obstáculos primeiro para incentivar que o animal faça o mesmo. Com a tarefa concluída, os animais ganham muito afago e brinquedos. Esses treinos são para se acostumarem com terrenos acidentados, barulhos diversos e deslocamento de pessoas.

Para saber mais, veja este vídeo.

Por mais que a FARC entregue suas armas para a ONU, outros grupos restarão. E os incansáveis cães permanecerão na luta para salvar milhares de pessoas vítimas da guerrilha. Nossos peludos, mais uma vez, mostram o amor incondicional que sentem, mesmo no meio de uma guerra.