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Coceira, vermelhidão, perda de pelo em excesso e irritação. Esses são alguns dos sintomas da doença mais conhecida pelos médicos veterinários dermatologistas. Campeão de casos nas clínicas, a dermatite atópica pode ocorrer em cães e gatos de todas as raças e de qualquer porte. Mas por que esta doença vem aumentando tanto?

Segundo o veterinário dermatologista da Zoetis EUA, Andrew Hillier, em todo o mundo, as doenças de pele têm aumentado. “No caso das alergias, a incidência em cães tem sido tão alta quanto se vê na medicina humana” complementa.

Veja os três principais motivos:

– Atualmente, os cães têm sido cruzados com mais frequência e sabemos que as doenças alérgicas têm um componente genético. Então, os filhotes acabam carregando uma carga genética para desenvolver alergia, principalmente em certas raças da moda.

– Hipótese da higiene: No mundo atual, os cães são mais vermifugados, as pessoas lavam as mãos mais frequentemente… A falta de contato com a “vitamina S (sujeira)”  faze com que cães acabem desenvolvendo alergias com uma frequência maior. Quando um cão tem contato com parasitas e bactérias desde muito cedo, não desenvolve quadros alérgicos.

– Maior cuidado. Os cães vivem mais dentro de casa e muitas vezes dormem com os seus tutores. Estes têm reparado mais nas doenças de pele e procurado mais assistência, o que acaba refletindo no volume de atendimento dos consultórios veterinários.

Ainda há um grande mito de que a alimentação seca industrializada é a vilã no caso de alergias. Por isso mesmo, alguns tutores têm optado pela alimentação natural. Porém, segundo Dr Hiller, não existe nenhuma evidência científica que comprove que as rações aumentam a incidência de alergias.

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Mas para ter certeza sobre esse assunto, busquei a Dra. Marie-Anne Hours, membro do time de Pesquisa & Desenvolvimento da Royal Canin, a qual trabalha especialmente com a área de dermatologia.

Dra Marie-Anne explica que, para alguns proprietários, escolher o alimento certo pode ser uma decisão muito difícil. “Para cães e gatos com alergias alimentares, é essencial selecionar uma dieta veterinária especificamente formulada, que irá cumprir padrões rigorosos, para evitar qualquer contaminação durante o processo produtivo” insiste Dra Marie-Anne.

Sobre a utilização de alimentação feita em casa, a veterinária alerta: “Esta pode ser uma opção, mas é essencial que a dieta seja equilibrada por um nutricionista veterinário para evitar qualquer risco de deficiência nutricional e que o proprietário respeite rigorosamente a receita, o que às vezes é difícil a longo prazo”.

Outro grande mito sobre alergias e ração vem sobre a presença de grãos. Algumas rações já chegaram ao Brasil com o emblema de grain free. Porém, Dra Marie-Anne é veemente: “evitar essa categoria de ingredientes é desnecessário. Os grãos são fontes importantes de nutrientes, incluindo aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas, minerais e fibras. Eles também são facilmente digeridos por gatos e cães, que possuem as enzimas necessárias para isso”.

O calcanhar de Aquiles ainda é a utilização de transgênicos na alimentação humana e animal. Será que são eles que induzem a alergia alimentar? Segundo a médica veterinária, na literatura científica, nenhum vínculo foi estabelecido entre OGM (Organismos Geneticamente Modificados) e alergias alimentares.

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Você já ouviu falar em ração hipoalergênica? A seleção do ingrediente desse tipo de classe alimentar é diferente, especialmente quando se trata de qualidade, fonte, número e digestibilidade da proteína.

Dra. Marie- Anne explica:

Em animais de estimação sensíveis, o sistema imunológico identifica a proteína alérgica, desencadeando, assim, a liberação de mediadores, que inflamam a pele e causam coceira nos pets. A nutrição pode atuar de duas maneiras diferentes:

– Nova proteína: esta estratégia consiste em alimentar o pet com uma fonte de proteína a qual ele nunca foi exposto antes;

– Proteína hidrolisada: o processo de hidrolisação consiste em “quebrar” a fonte de proteína em pedaços muito pequenos para que o sistema imunológico não reconheça esse ingrediente “desconhecido” e, assim, não ocorra a liberação dos mediadores.

Junto com esses benefícios, a nutrição também pode ajudar fornecendo nutrientes com foco na saúde da pele aos animais (ômega 3 e 6, , vitaminas, minerais etc.)

Por que médicos explicam tudo de forma difícil? Resumindo, as rações específicas para problemas de alergias são desenvolvidas com o intuito de minimizar o problema e melhorar pelo e pele dos animais.

E quem sofre mais de alergias: cães ou gatos?

Cães! “As doenças de pele são o maior problema apresentados pelos cães, ou seja, são a maior causa de consulta aos veterinários, se considerarmos as doenças dermatológicas em geral. Nos gatos, os problemas de pele não são os principais. Há outros mais importantes, como respiratórios e virais” explica Dr Hiller.

Como saber se meu cão tem atopia?

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O Dr Hiller explica que alguns tutores acreditam que se cocar é normal. Se o cão lambe a pata uma vez, ok. Mas se começa a lamber mais vezes ou a se arranhar, já pode ser um sinal de problema, mesmo que a pele pareça normal.

Cuidado! Problemas emocionais podem desencadear problemas dermatológicos.

As crises de doença de pele em cães e gatos são muito mais complexas do que se imagina. Às vezes, o veterinário se esforça para descobrir o que contribui para uma doença como, por exemplo, parasitas, alimentos, uma época do ano, mas a ansiedade, a relação do animal com os outros animais e com pessoas da casa também conta. Se isso acontece com humanos, com certeza acontece com os animais. O que dificulta é o fato dos animais não falarem sobre seus estresses.

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Segundo a médica veterinária dermatologista Rita Carmona, existem sim enfermidades psicogênicas com reflexos cutâneos. Porém, muitas vezes, superestimamos o envolvimento emocional nas dermatopatias. “Os casos dermatológicos com fundo emocional, as tricotilomanias, quando o cão ou gato arranca os pelos e a dermatite acral por lambedura, quando há a lambedura compulsiva e repetitiva de extremidades de membros, são as mais importantes comorbidades associadas às alterações psiquiátricas e compulsões” explica Dra Carmona.

As pesquisas acerca da doença evoluíram muito na última década e o maior conhecimento de novos aspectos da fisiopatologia da dermatite atópica tem propiciado novas abordagens terapêuticas. “Hoje, temos disponíveis produtos para terapia tópica de excelente qualidade e ainda, medicamentos que propiciam melhor controle da enfermidade com menores efeitos colaterais” aponta Dra Caroma.

Apesar de diversas novidades, segundo a veterinária ainda há um longo caminho pela frente. “Estudos e pesquisas estão caminhando para o surgimento de terapias mais eficazes e seguras às terapias habituais, os imunobiológicos e moléculas inibidoras de vias específicas têm sido empregados nesses pacientes nos últimos anos. Estamos na expectativa de chegado ao Brasil de um produto bastante específico no controle de prurido, com administração mensal, pela via subcutânea, e com poucos efeitos adversos” finaliza. Esse deve ser apenas o começo de uma nova era no tratamento da Dermatite Atópica.