Apesar do crescente número de interessados em entender melhor os malefícios causados pelo glúten e pelo leite de vaca no nosso organismo, é muito maior a quantidade de pessoas resistentes a esta ideia. As justificativas são as mais variadas. Eu começo pela falta de informações isentas e objetivas. Estes temas são recorrentes no meu blog, mas sei que ele é uma exceção e que bate de frente com os grandes veículos que se apressam em divulgar as notícias que favorecem a indústria alimentícia, regada à muito açúcar, trigo e leite. Se você quiser saber mais sobre os efeitos destes alimentos no nosso organismo é só procurar pelos posts iniciais deste blog.    

 

Eu entendo que não é nada fácil mudar um hábito que nos acompanha durante toda a vida. Acredito que esta seja a principal barreira que separa as pessoas de uma alimentação mais segura. Quando os alimentos cujo consumo deve ser diminuído estão ligados a muitas de nossas lembranças afetivas, desde as mais remotas, a resistência fica ainda maior. Soma-se a isso a dificuldade natural para se aceitar algo novo ou uma opinião diferente da nossa. Se digo em um grupo que não como glúten, leite, aditivos químicos ou açúcar parece que estou ofendendo as pessoas que estão nele, suas famílias, sua cultura e seu País. É preciso ter muita firmeza e conhecimento para me manter no que acredito e, para isso, mais uma vez, é necessário ter muita informação.

 

De fato é preciso se esforçar para reduzir a quantidade destes alimentos da rotina alimentar. Muitas vezes será necessário passar por mais de um supermercado para encontrar opções de farinhas, pães ou doces sem glúten, sem leite ou sem açúcar ou ainda se voltar para a cozinha e preparar seus próprios alimentos. Mesmo com a entrada constante de novos produtos com estas características no mercado, como mostrei no post anterior, a praticidade, tão necessária aos dias de hoje, ainda está mais atrelada aos ultraprocessados, extremamente nocivos à nossa saúde.

 

Ao lado de todos os fatores que eu já mencionei caminha a dificuldade em se entender e reconhecer as alergias alimentares, sejam elas tardias ou imediatas. Soma-se a isso a confusão que existe entre as alergias e as intolerâncias alimentares. As alergias imediatas são mais fáceis de serem descobertas porque aparecem nos exames laboratoriais. Além disso, os sintomas são intensos e surgem logo após o contato com o alimento que as provocou, porém, são a minoria dos casos de alergia. As predominantes são as tardias, também chamadas de hipersensibilidades alimentares e ainda confundidas com intolerâncias alimentares, que acometem a grande maioria da população mundial e cujos sintomas aparecem depois de um longo tempo de contato com quem os provocou e os sintomas são tão variados quanto as dores inexplicáveis, as inflamações, conhecidas pelas “ites”, os transtornos neurocomportamentais e tantas outras reclamações que vemos por aí. Essa avaliação deve ser feita por profissionais de saúde especializados, como nutricionistas clínicas, principalmente funcionais, ou médicos especializados, que irão analisar os sintomas do paciente e seus hábitos alimentares. Já passei por uma análise destas e fez toda diferença na minha vida.

 

As substâncias que normalmente estão mais relacionadas às alergias tardias são as proteínas do leite de vaca, da soja e do trigo. Além se serem de difícil digestão, elas são consumidas em excesso, pois fazem parte da composição de mais de 90% dos alimentos ultraprocessados e altamente consumidos por aqui. Enquanto isso, outras que nos protegeriam de seus efeitos estão sendo deixadas de lado, como as vitaminas, os minerais, as fibras e os compostos bioativos presentes em frutas, verduras e legumes. Muitas pessoas têm dúvidas sobre como é feita a identificação das alergias, tardias ou imediatas, ao glúten e à proteína do leite, ou mesmo a intolerância ao açúcar do leite de vaca (lactose). Por isso, vou tentar diferenciá-las.

 

A intolerância à lactose, que é o açúcar do leite de vaca, pode ser descoberta pelo teste respiratório do hidrogênio expirado, que se baseia na produção de hidrogênio pela fermentação da lactose não absorvida. Muitas pessoas que se sentem desconfortáveis ao consumirem o leite de vaca, que fazem exames para detectar uma intolerância à lactose, recebem o resultado negativo, porém, quando optam por retirar o leite e seus derivados da dieta se sentem melhor. Isso ocorre por conta da alergia tardia às suas proteínas, que é muito mais comum e acomete praticamente todas as pessoas. Essa avaliação é feita por profissionais de saúde especializados, por meio de uma análise detalhada dos sintomas apresentados pelo paciente ao longo de toda a sua vida e também dos seus hábitos alimentares, praticados desde a infância.

 

Por causarem sintomas parecidos, muitas vezes, a alergia tardia ou hipersensibilidade à proteína do leite, pode ser confundida com a intolerância à lactose, até pelos profissionais de saúde. Isso faz com que, aqueles que procuram tratamento para a hipersensibilidade à proteína, que é a mais comum, possam recebem dicas para tratar a intolerância à lactose, como a reposição da lactase, enzima correspondente à sua digestão ou o consumo de produtos lácteos sem lactose. Nesses produtos o mais comum é que seja acrescentada a lactase, mas as proteínas alergênicas continuam presentes, portanto, os sintomas relacionados a elas permanecerão. Além disso, mesmo aqueles com a avaliação correta de intolerância à lactose, costumam sofrer também com os sintomas causados pela proteína do leite que, na grande maioria dos casos, não é retirada de suas rotinas alimentares, portanto, o tratamento focado apenas na lactose não será eficaz.

 

Existem ainda os casos de alergia imediata à proteína do leite de vaca, APLV, que normalmente acomete crianças até os cinco anos de vida. Este tipo de alergia costuma ser diagnosticada pelos médicos através de exames laboratoriais.

 

Em relação ao glúten, existem exames de sangue para avaliar tanto as alergias mediadas por IgE, como a doença celíaca. De acordo com a Fenacelbra, a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil, os exames do anticorpo anti-transglutaminase tecidular (AAT) e do anticorpo anti-endomísio (AAE) são altamente precisos e confiáveis, mas ainda assim, normalmente esse diagnóstico é confirmado quando são detectadas mudanças nas vilosidades que revestem a parede do intestino delgado, através de uma endoscopia com biópsia. É muito importante a avaliação de um profissional especializado antes de retirar totalmente o glúten da alimentação para não mascarar o diagnóstico de doença celíaca.

 

A forma mais predominante de interferência do glúten no nosso organismo é a alergia tardia, também conhecida como hipersensibilidade tardia. Não existe um reconhecimento adequado dos sintomas causados por esse processo e a maioria das pessoas não sabem que a possuem. Não há números oficiais sobre a sua predominância, mas pelos seus sintomas, dá pra notar que ela acomete boa parte da população mundial. A identificação desta hipersensibilidade também é nutricional, pois normalmente ela é desencadeada por erros de comportamento alimentar, como o alto consumo dos alimentos a base de trigo e o baixo consumo de alimentos protetores, que defenderiam o organismo. Os hábitos errados  desencadeiam diversos sintomas nocivos, que geralmente são decorrentes de processos inflamatórios. Essa avaliação é feita a partir da análise dos sintomas apresentados e do estudo do hábito alimentar do paciente.