Você acha que o ovo faz bem ou mal à saúde? O café ajuda a acordar? O gengibre agride o estômago? E a pimenta? Depende. Para cada uma dessas perguntas há inúmeras respostas diferentes. Tão diversas quanto são os nossos organismos. É a individualidade bioquímica.

 

A cada dia temos acesso a novas pesquisas que costumam classificar os alimentos de maneira maniqueísta e tratá-los de forma generalizada, como se fôssemos todos iguais. Mas assim como os nossos paladares são diferentes, os nossos organismos também reagem aos alimentos de formas diversas. Sem falar nas alergias, imediatas ou tardias, que também tornam a nossa relação com os alimentos única e personalizada.

 

Vou dar alguns exemplos. Meu irmão não toma café depois do final da tarde porque atrapalha o seu sono, eu posso tomar antes de ir para a cama e não sinto nenhuma diferença. Meu marido gosta muito do óleo de coco, eu tenho sensibilidade a ele e já tive uma reação na pele quando usei demais. Meu pai usa o pimentão com frequência na base de vários de seus pratos, já na minha casa ele não entra, porque não consigo digeri-lo direito. Conheço muita gente que não come melão nem melancia depois das refeições porque sente que eles atrapalham a digestão, eu, por outro lado, adoro.

 

Para se ter uma ideia, até o nosso tipo sanguíneo pode interferir na maneira como o nosso organismo se relaciona com determinados alimentos. As pessoas do tipo A, por exemplo, costumam ter uma produção menor de suco digestivo no estômago, responsável pela ação das enzimas que digerem as proteínas. E normalmente se sentem mal quando ingerem carne vermelha, que tem uma cadeia proteica mais longa. Por isso, muitos vegetarianos, que pararam de comer carne por não se sentirem bem, compartilham os ideais e o tipo sanguíneo. Os do tipo O, como eu, produzem mais suco digestivo, mas por outro lado, têm mais dificuldade de aceitar o milho e seus derivados. Não tem nada a ver com o paladar, eu gosto muito de bolo de milho, por exemplo, mas percebo que no dia seguinte já acordo inchada.

 

A intolerância ao glúten, à soja e às proteínas do leite de vaca é comum a todos nós, mas os seus efeitos sobre o nosso organismo são muito individualizados. Algumas pessoas são mais sensíveis a eles do que outras. Além disso, cada um tem os seus órgãos de choque, aqueles onde nossas doenças ou incômodos costumam se concentrar. Pode ser o sistema respiratório, com rinites, bronquites, sinusites e asma; o sistema nervoso central, com ansiedade, distúrbios de comportamento e depressão ou a síndrome metabólica, com resistência à insulina, obesidade e diabetes tipo 2, entre tantos outros órgãos de choque com seus sintomas.

 

Todas estas variações entre nós têm origens genéticas. Mas o nosso DNA  não é determinante para o aparecimento destes sintomas que eu citei acima. O genótipo tem 20% de responsabilidade sobre a expressão de um gene, ou seja, se ele irá ou não cumprir com o papel ao qual foi destinado. E o fenótipo, conjunto de características relacionadas ao meio onde vivemos e aos nossos hábitos, tem 80% de responsabilidade nesta expressão genética. Por exemplo, alguém nasce com um gene de uma pessoa que pode atingir 1,70m de altura, isso é o genótipo. Mas, se esta pessoa se alimentar muito mal e ficar desnutrida, dificilmente alcançará tal altura, este é o fenótipo, que predominará. Da mesma forma, alguém pode nascer com uma predisposição genética para se tornar obeso, esse é o genótipo, mas se esta pessoa mantiver uma alimentação equilibrada desde a infância e praticar atividade física, é muito provável que este gene nunca se expresse, mais uma vez, vence o fenótipo. A boa notícia é o que os genes nos são obrigatórios, mas o fenótipo podemos construir como acharmos correto e quanto mais informações tivermos nesta jornada, melhor.