Escrevo esse post com um bolo no forno, sentindo aquele cheiro que toma a casa toda. Não dá para ignorá-lo e nem para não se sentir um pouco melhor com ele.
Mudei de casa há um ano, bem perto do Natal. Ainda estava me acostumando ao novo ambiente, quando um cheiro transformou aquele lugar estranho em um lar. Era um pernil que estava no forno e me levou de volta para as festas de Natal, que têm os mesmos pratos desde que eu sou pequena, e é isso que eu gosto nelas. Nem era eu que estava cozinhando, mas essas “boas vindas” dadas, sem querer, por algum vizinho que eu nem conheço, me fizeram perceber como cozinhar em casa pode ser prazeroso.
Eu era, como muitos brasileiros, uma daquelas que assistia a todos os programas de receitas que passavam na TV e mal sabia fritar um ovo. Mas, também como a maioria das pessoas, sou do tipo que associa boa parte das lembranças boas da infância aos pratos feitos pela minha mãe, pelo meu pai – sim, meu pai é o expert da casa quando se trata de risotos, paellas, moquecas, assados -, pelas minhas tias, tios e avós. Quando engravidei, disse ao meu marido: quero proporcionar as mesmas lembranças ao meu filho, quero que ele se apegue à comida da mamãe e se sinta aconchegado, abraçado, tocado por ela. Para a sorte dele, evoluí rápido nessa arte e hoje já fico feliz da vida quando ele me pede pra fazer um bolo, por exemplo.
O hábito de cozinhar em casa deveria ser mais cultivado, não só por essa transferência de afeto. Em época de contenção de gastos, vale lembrar que é muito mais barato do que viver em lanchonetes, restaurantes ou contar sempre com as opções entregues em casa. Mas esse ainda não é o argumento mais relevante. É claro que eu vou falar da saúde, eu sempre vou falar de saúde.
Eu entendo que a maioria dos brasileiros tem pouco tempo livre em casa, durante a semana, para se dedicar às panelas. Por conta disso lançam mão de todos os tipos de alimentos congelados prontos ou pré-prontos. O frango já vem temperado dentro de um saco plástico e é só colocar no forno com o saco e tudo, sem falar nas salsichas, nos hambúrgueres e nos nuggets de frango, que reinam nos pratos infantiis. As massas, que precisam de um molho de verdade, dão lugar às versões instantâneas, com um pozinho mágico. Os cubinhos com caldos de carne, legumes, frango, peixe e etc, são colocados em qualquer prato, para realçar o sabor.
O que todas essas práticas opções têm em comum? Elas veem acompanhadas de muitos aditivos químicos, como glutamato monossódico, corantes, sulfitos, entre muito outros, que podem causar reações alérgicas, alterações na liberação de energia e até transtornos neurocomportamentais. Estudos publicados no Novo Guia Alimentar do Ministério da Saúde, em 2014, relacionam o aumento do consumo destas substâncias ao aumento de casos de doenças autoimunes, isso porque, elas seriam nocivas às celulas imunológicas presentes no nosso intestino. Os efeitos deste consumo podem não ser aparentes ou não serem percebidos hoje, mas certamente, um dia vão aparecer para cobrar a conta.
Não quero aqui apenas fazer um alerta. Quero também sugerir algumas pequenas mudanças cotidianas – e uma grande mudança comportamental – para contribuir com a sua saúde e com a daqueles que estão ao seu redor. Vou dar alguns exemplos. O tempo de cozimento de um frango comprado já temperado e de outro, sem tempero nenhum, é o mesmo. Então, a diferença está no tempero, certo? Se é pra ter rapidez, porque não comprar o alho e a cebola já picados? Nesse caso, você pode fazer uma marinada, pode até fazer pela manhã e deixar o dia todo na geladeira, para cozinhar no jantar – aprendi com o meu pai. É só colocar em uma vasilha o frango, o alho, a cebola, umas ervas da sua preferência, vinagre, azeite, sal e pimenta à gosto e pronto. Aposto que vai te tomar cinco minutos.
O hambúrguer congelado das crianças também precisa de um tempo na frigideira para ficar pronto. Que tal trocar esse tempo, por alguns minutos a mais no forno? Ele também pode ser feito em casa e o preparo não vai levar mais de dez minutos, acredite. Tempere a carne moída com a cebola e o alho, que você comprou picados, junte um ovo, sal e pimenta a gosto, depois é só fazer os bolinhos.  Os “cubinhos de sabor” e os temperos do macarrão instantâneo deveriam ser banidos das prateleiras, já que são feitos praticamente só com substâncias químicas nocivas ao nosso organismo.
Nada como um molho de tomate caseiro, e rápido, ou como a dupla de ouro da cozinha, a cebola e o alho, para realçar o sabor de qualquer preparação. Eu poderia escrever mais inúmeros exemplos de como substituir esses produtos chamados de ‘ultra-processados’ por opções caseiras, baratas e gostosas, que vão melhorar imensamente a qualidade nutricional do que será consumido, mas a internet está cheia de receitas. O que deve mudar mesmo é a maneira de encarar os alimentos. Eles são a base para o funcionamento do nosso organismo. É deles que tiramos todos os nutrientes que precisamos. Mas também podem ser a fonte de muitos males à nossa saúde. Será que vale a pena abrir a porta para eles em troca de poucos minutos?