arroz

“Um estudo concluiu que a dieta sem glúten pode causar problemas de saúde”. É assim que têm sido divulgados os resultados de uma pesquisa feita pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. As redes sociais, que gostam de notícias chocantes, têm compartilhado esta conclusão superficial com bastante alarde. Quando a informação fortalece o senso comum de que “o glúten não pode sair das nossas mesas”, fica ainda mais cômodo e reconfortante repassá-la aos quatro ventos, em alto e bom som. Não quero ser mais uma replicadora de dados simplistas e, portanto, mergulhei de cabeça neste estudo e trago aqui alguns novos pontos de vista sobre ele.

A pesquisa feita em Chicago com mais de 7 mil pessoas encontrou quase 2 vezes mais arsênio na urina de quem não consumia glúten, do que na dos que o consumiam. Os níveis de mercúrio no sangue daqueles que substituem a principal proteína do trigo também estão um pouco mais elevados. Os pesquisadores especulam que isso pode acontecer porque um dos principais substitutos do glúten é o arroz  e o grão, que é cultivado na água, tende a absorver estes metais tóxicos presentes na água e nos agrotóxicos utilizados nas plantações. Porém, não houve um inquérito alimentar para saber se, de fato, as pessoas que não comiam glúten o substituiam pelo arroz ou pelos seus derivados, como a farinha de arroz.  

O verdadeiro resultado da pesquisa é que entre as pessoas que declararam uma dieta livre de glúten foi encontrado um nível de excreção de arsênio na urina maior que no  das pessoas que tinham uma dieta com glúten, além de um leve aumento de mercúrio no sangue. Esta deveria ser a verdadeira manchete. Quando temos acesso a uma pesquisa como esta, é interessante analisarmos um pouco do contexto no qual ela está inserida. Atualmente, 25% dos norte-americanos já declaram ter cortado o glúten da dieta, este percentual aumentou 70% em dois anos, o que preocupa a indústria alimentícia mundial, que são os principais anunciantes da televisão, do rádio e da internet da maioria dos países. Ou seja, é cada vez mais importante para estes patrocinadores que os benefícios já comprovados de uma dieta sem glúten sejam banalizados e que se diminua a adesão de novas pessoas a este hábito alimentar mais seguro e saudável.

É importante ressaltar que a pesquisa não associou a presença destes metais tóxicos no organismo ao surgimento de casos de câncer. Esta relação é especulativa, segundo as conclusões dos próprios autores e ainda deve ser estudada, diferentemente do que venho lendo nos últimos dias. Precisamos também trazer os dados encontrados para a nossa realidade. A Universidade especula que os norte-americanos que excluíram o glúten da dieta tendem a substituí-lo por arroz. Já no Brasil, este grão é consumido por toda a população, mesmo entre aqueles que comem glúten. Também temos uma variedade muito maior de substitutos para ele. Normalmente os brasileiros que cortam o glúten, costumam aumentar, principalmente, o consumo de raízes como batata, batata doce, cará, inhame e mandioca, que é a matéria prima da tapioca, do biscoito de polvilho e até do pão de queijo, produtos muito populares por aqui.

Depois de trazer os dados para um nível local, vou ampliar o olhar para o mundo. Os norte-americanos consomem 10x menos arroz do que nós brasileiros. Já entre os asiáticos, por exemplo, o consumo de arroz é 2 vezes maior do que entre nós, portanto, 20 vezes maior do que entre os nossos vizinhos de cima. Se o consumo de arroz estivesse de fato relacionado ao desenvolvimento de câncer ou de doenças crônicas, estes casos deveriam aparecer em maior quantidade onde ele é mais consumido. Mas não é o que acontece. Essas doenças são mais presentes nos EUA, que têm o menor consumo.

Pra finalizar, vamos para a biologia. De acordo com a nutricionista Denise Madi, que é autora do livro ‘Glúten: Toxicidade, Reações e Sintomas’, “o nosso organismo foi feito para tolerar agressores como os metais tóxicos, mas isso só acontece quando a nossa microbiota intestinal está funcionando bem, neste caso, eles podem ser barrados por ela e excretados pelas fezes, por exemplo, em caso de bom funcionamento, ou podem ser absorvidos por um intestino com paredes frágeis e entrar na nossa corrente sanguínea. Um dos principais vilões da alteração da permeabilidade intestinal é o glúten. Ainda quando esses e outros agressores são absorvidos, nosso organismo, quando equilibrado nutricionalmente, é capaz de eliminá-los por meio do processo de destoxificação, e uma das vias de eliminação é a urina. Não é por acaso que a pesquisa encontrou quase 2 vezes mais arsênio na urina de quem não consumia glúten, do que na dos que o consomem. Isso só comprova que o organismo daqueles que não consomem glúten está mais preparado para eliminar agressores como o arsênio do que o dos demais”.

Como sou jornalista, sempre baseio os meus textos em entrevistas feitas com profissionais da área. A entrevista que deu origem a este post foi gravada e deixo aqui o link para quem quiser ter ainda mais argumentos para participar das discussões acaloradas que estão acontecendo por aí.