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Atualmente existem 20 vezes mais glúten no trigo do que há 40 anos.

Maio é o mês que abriga o Dia Internacional do Celíaco, uma doença autoimune, causada pela presença do glúten. Por conta da data é também neste mês que acontece a Quinzena da Alimentação Sem Glúten, quando são oferecidas palestras e cursos sobre o tema e estabelecimentos comerciais oferecem descontos em dezenas de produtos. Os celíacos representam cerca de 1% dos brasileiros, os outros 99% são como eu, têm algum grau de intolerância à esta proteína encontrada, entre outros grãos, no trigo, na cevada (presente na cerveja), no centeio e aveia, que é contaminada por ele, portanto deve ser banida pelos celícacos.

No ano passado escrevi um post dizendo que não consumo glúten no meu dia a dia e que ele também não está presente na dieta do meu filho. A repercussão foi maior do que eu imaginava e gerou muita polêmica, foi quase como discutir política atualmente com alguém com um posicionamento diferente do seu. Se quiser mais informações sobre a nossa dificuldade de digerir o glúten e seus efeitos nocivos no nosso organismo, sugiro que volte ao post “Sem Glúten, Sem Radicalismo e Com Bom Senso, Por Favor”. Hoje vou explicar um pouco sobre o que aconteceu com os alimentos que consumimos nas últimas décadas e sobre o aumento na oferta de alimentos sem a substância.

Entre as décadas de 60 e 70 as plantações de trigo nos Estados Unidos e no México tiveram uma grande perda. Foi feita então uma mutação genética para aumentar o rendimento da plantação por hectare e para que ela ficasse mais resistente às pragas. Criou-se uma espécie chamada de “trigo anão”, que passou a ter 14 tipos de glúten, que não existiam no original, e serviu de base para a expansão da indústria de produtos alimentícios. Na época não foram desenvolvidas pesquisas para saber se esta novidade seria bem recebida pelo organismo  humano. De acordo com a Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, atualmente existem 20 vezes mais glúten no trigo do que há 40 anos. O consumo dele entre os brasileiros também aumentou muito nas últimas quatro décadas e passou de 30 para mais de 60 quilos por ano. Este excesso justifica a nossa dificuldade de digeri-lo, que hoje é muito maior do que no passado.  Além disso, a maioria do trigo que se consome por aqui é refinado, este refinamento retira boa parte de suas fibras e vitaminas e faz com que ele tenha 65% de amido, que tem um índice glicêmico maior do que o açúcar. O excesso de amido na alimentação pode gerar problemas relacionados à insulina, como a diabetes e a obesidade.  

O consumo excessivo do glúten e de aditivos químicos aliado ao baixo consumo de frutas, verduras e legumes pode nos causar problemas de saúde com efeitos físicos, mentais ou emocionais. Estes alimentos poucos ingeridos é que protegem o nosso organismo e o fortalecem para que ele se defenda corretamente das “agressões” causadas pelos agentes alergênicos. Porém, 80% dos brasileiros não consome as porções diárias recomendadas pela OMS, a Organização Mundial da Saúde, de frutas, verduras e legumes. 35% da população já possui algum tipo de sensibilidade comprovada ao glúten e outros muitos parecem estar notando que diminuir o seu consumo traz benefícios à saúde.

Eu tirei o glúten da minha rotina há uns 15 anos. Naquela época quase não havia opções nos supermercados, nas pizzarias, cantinas e lanchonetes. Hoje já há muitas alternativas saborosas e com o custo cada vez mais acessível. Há também uma grande variedade de ingredientes para fazermos nossas próprias preparações. No Empório Santa Luzia, que fica em São Paulo, existe um andar inteiro destinado aos produtos adaptados. O setor foi inaugurado em 2004 com 20 itens, hoje já conta com 450 tipos diferentes de produtos sem glúten, desde farinhas e pães, até biscoitos doces e salgados e torradas, e eles também estão presentes na lanchonete da casa em forma de bolos, salgados e sanduíches. De acordo com a nutricionista Ana Maria Fanelli, que é a responsável técnica do estabelecimento, “entre 2015 e 2016 tivemos um crescimento de cerca de 50% no número de itens, tanto por aumento do número de fornecedores, quanto pela variedade de produtos”. Ana Maria afirma ainda que, entre o público consumidor, a maioria tem alergia tardia ao glúten, os intolerantes procuram mais e muitas vezes vêm à loja para conhecer produtos e novidades. E os celíacos, em menor quantidade, já chegam à loja com prescrição e procurando produtos específicos”. Há ainda pelo menos três padarias especializadas em produtos sem glúten e sem leite, como a Sabor e Saúde, a Lilori e a Diaita. 

O maior acesso à informação e aos produtos tem garantido uma qualidade de vida melhor àqueles que têm coragem para encarar uma mudança necessária nos hábitos alimentares.