A nutricionista Gabriela Kapim chega a nona temporada de seu programa no canal pago GNT, que agora passou a se chamar ‘Socorro! Meus Pais Comem Mal’, e busca melhorar a alimentação de uma família por meio de mudanças feitas na rotina do pai ou da mãe. Nas edições anteriores, o foco eram as crianças que tinham alguma dificuldade para comer, até que a apresentadora percebeu que as melhorias conseguidas só seriam permanentes caso a família toda fosse envolvida na mudança. Toda essa experiência originou o segundo livro de Kapim, ‘Socorro! Meu Filho Come Mal – Receitas Para Pais e Filhos’. Em entrevista ao Comida de Verdade, a autora fala, entre outros assuntos, sobre a influência dos pais nos hábitos alimentares dos pequenos.

 

– Depois de tantos anos analisando as rotinas alimentares de muitas famílias tão de perto, o que você acha que tem em comum na alimentação das crianças que não querem comer?

G.K

-Uma desvalorização da alimentação saudável pelos pais, que não dão a importância devida e acabam por escapulir essa responsabilidade na hora de alimentar seus filhos. Todas as possibilidades, as daqueles que não querem experimentar, ou dos que têm pouca variedade de alimentos no dia-a-dia, representam a desvalorização da alimentação saudável pelos pais, que são os responsáveis por ofertar a comida.

 

– O excesso de produtos ultraprocessados é um dos vilões da alimentação atual? Você acha que deveria haver um controle maior sobre eles, principalmente quando se trata da publicidade voltada para as crianças?

G.K

-Sim, são vilões, mas também tem a ver com a responsabilidade dos pais. Acho que deveria, sim, haver um controle maior, pela fiscalização da indústria, reduzir a presença de aditivos químicos. A publicidade voltada pra criança já é proibida, mas mesmo assim ainda existem artifícios para que as crianças se envolvam e prestem atenção nesses alimentos ruins. O controle deveria ser bem maior, tanto na produção quanto na comercialização e no anúncio desses alimentos.

 

– Como você percebeu que mexer apenas nos hábitos das crianças não seria suficiente para melhorar a alimentação da casa e que teria que trabalhar com os pais?

G.K

-Ao longo de todos esses anos de trabalho entendi que só atender as crianças não trazia uma consistência na transformação dos hábitos, era preciso envolver a família. Agora, percebo o quanto a transformação a partir dos pais é muito mais consistente. Quando eu trabalhava só com crianças, elas se abriam pro novo, sentiam vontade de melhorar, mas se o ambiente não se abria pro novo, se o  entorno não favorecesse, elas voltavam para o padrão ruim. A meta agora é mudar o padrão, o ambiente, para que elas possam manter essa disposição para melhorar.

 

– Os adultos são mais resistentes às mudanças do que as crianças? Como convencê-los a fazer os ajustes necessários?

G.K

-Sim. Mas pude ver com o  novo programa que pelos filhos eles mudam. Como o pedido de socorro vinha das crianças, e não de um médico, de um adulto, de uma nutricionista, eram os filhos pedindo a mudança, a mobilização foi enorme e tivemos um resultado melhor. Vou abrir um consultório pras crianças levarem os pais para serem atendidos.

 

– O seu livro traz inúmeras receitas para serem feitas em família, você acha que estimular que as pessoas voltem a cozinhar pode ser um caminho para melhorar a saúde delas?

G.K

-Acredito com todas as minhas forças que envolver as crianças, juntar a família na cozinha, nas compras, é o melhor caminho para ter essa transformação consistente, voltar a falar de um alimento não apenas em uma refeição. A ideia é que o alimento seja motivo de reunir a família na mesa, motivo para festejar, para se olharem novamente, brincarem na cozinha e envolver a família inteira em um processo realmente saudável.

 

– No caso dos pais e mães que trabalham fora e acumulam funções, é possível mudar um pouco a rotina para trazer de volta o preparo de refeições caseiras? Você tem alguma dica para quem quer cozinhar e não tem tempo?

G.K

-Quando você fala desse acúmulo de funções, me vejo. Eu sou uma dessas pessoas, mas, ainda assim, eventualmente, vou pra cozinha com meus filhos. Se a gente achar que a gente só vai mudar isso indo todo dia pra cozinha, fazendo uma comida saudável todo dia, não engrena. Se você for com seu filho uma vez por semana, de quinze em quinze dias, e isso se tornar um hábito prazeroso, você vai acabar incluindo mais vezes na sua rotina. Tem que ser prazeroso para que possa ser realmente transformador.