Meu gosto musical é bem eclético, eu ouço Lady Gaga, mas não posso dizer que sou sua fã. Acho seu estilo e seu discurso interessantes, mas somos bem diferentes. Agora encontrei algo que temos em comum: uma doença autoimune. Como todos já sabem, ela tem fibromialgia, que atinge os sistemas fibroso e muscular, causando bastante dor. Eu descobri no início de 2009 que tenho uma doença muito menos conhecida, o ‘Mal de Addison’ que afeta a glândula suprarrenal, responsável pela formação de alguns hormônios, como o cortisol, cuja deficiência pode causar sintomas como fraqueza e cansaço excessivos e depressão. Como a maioria das outras autoimunes, são doenças de difícil diagnóstico porque os sintomas podem ser confusos e costumam se misturar aos de outros males.

 

Durante quase 1 ano e meio eu só conseguia fazer as tarefas básicas, não tinha força nem disposição para mais nada. Tinha medo de andar da minha casa até o metrô e não conseguir terminar o trajeto, que era de um quarteirão. Passei por diversos especialistas e fiz dezenas de exames, que não chegaram a nenhuma conclusão. Quando o quadro se agravou, já não suportava mais o peso da minha cabeça e tinha que ficar com ela encostada. Cheguei no hospital prestes a ter uma parada cardíaca. Fui internada e saí com a seguinte frase: “ela está assim porque não está querendo comer”. Quem realmente descobriu o que eu tinha foi a minha mãe, que é nutricionista, não tem especialização nesta área, mas, como toda boa mãe, nunca acreditou que fosse “frescura” e pesquisou até encontrar a real causa dos meus problemas. Fui internada novamente na madrugada de um sábado de carnaval e já chegamos com o diagnóstico e até parte do tratamento para a doutora de plantão, que fez os exames necessários e confirmou nossas suspeitas.  Nasci de novo.

 

Só fiz este relato pessoal para mostrar que as doenças autoimunes não são fruto da nossa imaginação, como muitas pessoas pensam, seus sintomas também não são uma desculpa de quem quer descansar de uma agenda atarefada. Quero ainda facilitar o diagnóstico de alguém que esteja lendo e se identifique com estes sintomas ou conheça alguém que se enquadre neste perfil. E mais, mostrar que, para este tipo de doença, há prevenção e tratamento. Embora tenham uma origem genética, 80% das chances de se desenvolverem vem do fenótipo que, como falei no post anterior,  é a influência do meio onde vivemos e dos hábitos que praticamos na nossa saúde. Recentemente, muitos cientistas têm intensificado as pesquisas sobre os fatores desencadeantes das doenças autoimunes. A novidade é que elas não são causadas por um sistema imunológico super ativado, como se pensava, mas pela desregulação dele. Este mau funcionamento pode ter origem em um intestino prejudicado por maus hábitos alimentares, como um consumo excessivo de aditivos químicos, presentes nos alimentos ultraprocessados, que interferem no equilíbrio da microbiota intestinal, e por consequência prejudicam a ação das células que toleram os agressores externos e evitam o aumento de auto-anticorpos; alteram a parede intestinal, permitindo a entrada de agressores no organismo; e inibem a absorção de micronutrientes que o protegem. Soma-se a isso, a baixa ingestão de comida de verdade, principalmente de frutas, verduras, legumes e fibras, que também protegem o organismo de agressores e executam funções,  como a de defesa.

 

Estudos recentes de universidades como a de Harvard, têm associado o alto consumo de glúten, a principal proteína do trigo, com as doenças autoimunes. Estes males são desencadeados por processos inflamatórios e o glúten tem um alto potencial inflamatório e ainda é, comprovadamente, responsável por ‘abrir buracos’ entre as células do intestino. A somatória de fatores como o desequilíbrio alimentar, o excesso de glúten, a predisposição genética, a deficiência de vitamina D e o estresse físico, mental e emocional, pode gerar inflamações ‘órgão de choque’ do organismo (aquele grupo de órgãos que é mais sensível a um desequilíbrio). No caso de quem doenças autoimunes, estes órgãos podem ser o intestino, a pele, os músculos, as glândulas, entre tantos outros. A doença celíaca, diretamente relacionada ao consumo de glúten, está entre as doenças autoimunes e o consumo do trigo moderno também é relacionado com o desencadeamento de várias outras delas. É muito importante pesquisar as possíveis causas de uma doença autoimunes, pois algumas poderão ser revertidas, outras poderão deixar de evoluir e, dessa forma, é possível preservar uma boa qualidade de vida. Combatendo as causas também é possível prevenir o aparecimento de uma nova doença autoimune, há mais de cem tipos de delas catalogadas. Isso é muito comum em quem sofre com elas, pois como as causas são semelhantes, se não forem combatidas, seguirão gerando seus efeitos nocivos sobre o organismo.  

 

Desde 2009, faço um acompanhamento médico com reposição hormonal, sem previsão de término. Sei que mesmo com ele devo sempre ficar atenta ao que como. Retirei o glúten da minha rotina, mantive os aditivos químicos dos ultraprocessados afastados e  sigo investindo no consumo de comida de verdade, com muitas hortaliças e fibras, que são minhas aliadas. Estou fazendo a minha lição de casa. Não tive informações sobre como prevenir a minha doença a tempo de evitá-la, mas com as que tenho hoje pretendo impedir o surgimento de uma nova e conseguir manter uma boa qualidade de vida por muito tempo, algo que também não é comum entre aqueles que sofrem com alguma doença autoimune.