Nas últimas semanas têm circulado nas redes diversas fórmulas caseiras para retirar os agrotóxicos dos alimentos. Seria muito bom mesmo conseguir reduzir a quantidade de veneno que ingerimos de uma maneira simples e rápida, mas sou um pouco cética em relação a eficácia dessas práticas. Além disso, a desvantagem dos produtos produzidos em larga escala em relação aos orgânicos não se resume só a presença de agrotóxicos, os primeiros também têm muito menos nutrientes e compostos bioativos do que os gerados de forma natural. Há ainda toda uma cultura envolvida no cultivo e na venda dos orgânicos, que deveria ser valorizada, pois vai desde a preocupação com a qualidade do solo, até os cuidados com a preservação do ambiente, com a saúde e com a renda dos pequenos produtores.

 

O estudo que tem sido mais divulgado testou a capacidade do bicarbonato de sódio de retirar os agrotóxicos da maçã. Quando não lemos a sua conclusão, parece que é uma ótima alternativa, porém, a pesquisa divulgada pela revista científica Journal of Agricultural and Food Chemistry concluiu que por mais que o produto se mostre eficaz na retirada das substâncias tóxicas da parte superficial do alimento, o mesmo não ocorre com o seu interior. Foi testada a interação do bicarbonato com dois agentes, o tiabendazol e o phosmet, mas sabemos que a agricultura tradicional praticada no Brasil utiliza muito mais do que isso. Somos o primeiro País do mundo em consumo de agrotóxicos, alguns deles já foram banidos dos Estados Unidos, da União Europeia, do Canadá e da ásia.   

 

Uma pesquisa feita recentemente pela ONG Greenpeace Brasil testou mais de 100 quilos de alimentos que costumam fazer parte da nossa rotina alimentar, como: arroz, feijão carioca e preto, pimentão verde, banana prata e nanica, mamão formosa, e couve e encontrou resíduos de agrotóxicos em 60% das amostras. Em 36% delas as quantidades estavam acima do permitido por lei ou foram utilizados produtos químicos proibidos no País. Em 34% dos casos havia traços de mais de um tipo de substância diferente, como no pimentão, onde foram encontradas 7, na laranja, 5 e no mamão, 4. Essa mistura gera um efeito chamado de ‘coquetel’ que preocupa os especialistas da área porque a interação entre elas ainda não foi pesquisada e pode oferecer riscos à saúde. Este excesso de toxinas variadas é mais um fator que me faz duvidar da capacidade de um único agente, como o bicarbonato de sódio, de fazer uma ‘limpeza’ no que foi produzido com elas.

 

No início de 2016, escrevi um post para este blog com 10 motivos para se consumir os orgânicos. Vou resumir alguns deles: são mais saborosos, têm mais nutrientes, têm mais fitoquímicos, não têm agrotóxicos, preservam o meio ambiente, não prejudicam a saúde dos agricultores e valorizam a economia local. O preço aparece como uma desculpa de quem não quer olhar para essa tendência. Mas até o custo tem ficado cada vez mais parecido com o dos produzidos em larga escala, assim como a facilidade de acesso. Se, mesmo assim, você não quer investir um pouco mais nesses alimentos, pode optar por substituir pelo menos os 5 que mais levam agrotóxicos na sua composição, são eles: pimentão, com 91,8% de pesticida, morango, com 63,4%, pepino, com 57,4%, alface, com 54,2%, e cenoura, com 49,6%. Com o final do ano se aproximando, pode ser uma boa resolução para 2018.