Certamente você conhece pelo menos uma criança que apresente algumas dessas características: inquietação, irritabilidade, impulsividade, agressividade, excitabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração ou de aprendizagem. Se aparecerem em conjunto, estes sintomas podem caracterizar o TDAH, um distúrbio de comportamento cada vez mais diagnosticado nos consultórios pediátricos do País. Mas vou falar aqui de todas as outras crianças que não receberam este diagnóstico, mas que são prejudicadas por um ou mais ítens que foram elencados acima.

 

Vou começar com o exemplo do meu filho. Ele é uma criança muito saudável e, como tantas outras, é bastante inquieto. Quase nunca consome açúcar (apesar de ter sempre um docinho afetuoso feito por mim com alguns de seus substitutos). Há poucos meses, teve uma festinha no colégio e eu o liberei para comer o que fosse servido. Ele comeu o bolo com recheio e cobertura e tomou suco, aparentemente, não seria nada demais. Mas chegou em casa, poucas horas depois desse lanche, como se fosse outra criança, estava super irritado, agressivo e agitado. Certamente não foi coincidência. É só mais uma prova de como a alimentação interfere no nosso organismo como um todo e, no caso dele que não está habituado a ingerir determinadas substâncias, seus efeitos aparecem de forma gritante logo depois do contato com elas. Os vilões deste relato foram o açúcar e os aditivos químicos presentes no suco, mas eles não são os únicos a gerar efeitos nocivos nos âmbitos emocionais e mentais dos pequenos, o glúten e o leite de vaca também estão no topo desta lista.

 

Tenho outro caso para contar. Há pouco mais de 20 anos, quando eu e meu irmão éramos pequenos, ele tinha todas as características para hoje ser considerado um menino com TDAH. Ele tinha 9 anos quando minha mãe, que é nutricionista, resolveu seguir um tratamento sugerido por um nutrólogo para curar suas constantes crises de rinite: tirar o leite de vaca da sua rotina alimentar. Ela achou uma sugestão esquisita e só fez o teste depois de estudar bastante, com a ajuda de muitos livros e referências científicas de fora do País. Resultado: depois de um mês sem o leite não foi só a rinite que melhorou, as principais mudanças foram nestas suas características mentais e emocionais.  

 

Trouxe estes exemplos porque sei que este assunto é polêmico e gera bastante resistência. Resolvi escrever sobre ele porque sempre leio reportagens sobre sintomas como os que eu já citei, que têm sido cada vez mais frequentes entre os pequenos e que costumam ser tratados, ou amenizados, com remédios, nunca vi ninguém relacioná-los com a alimentação e nem com qualquer outra causa. O que pouca gente sabe é que a causa pode estar em alguns hábitos errados, como o excesso do consumo de ultraprocessados na rotina diária (bolachas recheadas, refrigerantes, balas, salgadinhos, macarrão instantâneo) e a ausência ou o baixo consumo diário de comida de verdade (frutas, legumes, verduras, cereais integrais e leguminosas). O aparecimento dos sintomas mentais e emocionais crescem junto com o desequilíbrio da alimentação e não é por acaso que isso acontece.

 

O pico do nosso desenvolvimento cerebral começa no terceiro trimestre da gestação e vai até os 18 meses de vida do bebê, e essa formação continua até os 5 anos de idade. Neste longo período, os fetos, bebês e crianças têm uma alta necessidade de ingerir vitaminas, minerais, ômegas, como o ômega 3 que é imprescindível neste processo, e compostos bioativos, presentes nos alimentos que compõem a nossa comida de verdade. Enquanto os filhos ainda não se alimentam sozinhos, esses micronutrientes são passados pela mãe, por meio da placenta ou da amamentação, portanto, as mães também devem ter uma alimentação muito rica neste período. Estas substâncias são essenciais para a nossa formação cerebral e para o bom funcionamento do nosso cérebro e do nosso intestino, que estão comprovadamente ligados. Também são determinantes para nos defender de possíveis agressores. Por exemplo, o açúcar e mais centenas de tipos de aditivos químicos utilizados pela indústria alimentícia brasileira são considerados substâncias agressoras e excitatórias de células nervosas e são comprovadamente ligados aos distúrbios de comportamento. Os corantes são alguns deles e são muito usados para colorir todas as guloseimas voltadas para os pequenos, desde os sucos de caixinha e a gelatina até as balas, os pirulitos e os doces de todos os tipos, entre tantos outros produtos. Por conta disso, muitos destes aditivos já foram banidos de diversos países europeus, mas infelizmente são legalizados por aqui.

 

Já o leite de vaca e o glúten podem aumentar a produção de substâncias inflamatórias pelo organismo, que por sua vez, excitam as células nervosas. Os sintomas causados pela má absorção dessas proteínas são os mais variados e vão se apresentar de acordo com a predisposição genética de cada um, podem ser desde os sintomas clássicos do TDAH, por exemplo, até o acúmulo de gordura ou os problemas respiratórios ou de pele, entre muitos outros. Além disso, o excesso de leite, glúten, açúcar e carboidratos refinados em geral, também pode causar hipoglicemia nas crianças e seus sintomas são os mesmo de quem tem TDAH. Por isso, se depois de ler esse texto, você está desconfiado que a alimentação do seu filho pode estar causando inquietação, irritabilidade, impulsividade, agressividade, excitabilidade, ansiedade ou dificuldade de concentração ou de aprendizagem, o melhor a fazer é procurar um nutricionista funcional. Mas se quiser fazer o teste em casa, reduzir a oferta de ultraprocessados e aumentar a de alimentos naturais só trará benefícios para a sua família e os resultados poderão te surpreender.