Se no último post falei sobre o gosto de boa parte dos brasileiros pelo fast food, hoje quero mostrar que há também uma parcela crescente deles que têm voltado mais as atenções para a alimentação consciente. Vou começar com alguns simples exemplos da minha conta pessoal do Facebook. Lá existe uma página chamada “Lactose Não” que conta com mais de 73.000 mil curtidas e a “Viva sem Glúten”, que reúne 44 mil membros. Há também um grupo fechado de culinária com mais de 94 mil participantes. E nem me importa se são receitas normais ou adaptadas, o que vale é o interesse pela cozinha. Parece que, aos poucos, a comida de verdade está retomando a sua devida importância.

Algumas décadas atrás os conceitos básicos da boa alimentação eram parte importante das tradições familiares. Estes conhecimentos empíricos que os nossos avôs possuíam e transmitiam para as gerações seguintes na cozinha e na mesa de refeições foram sendo diluídos e até mesmo esquecidos. As mudanças no mercado de trabalho, a necessária emancipação feminina e, principalmente, a oferta massiva de alimentos ultraprocessados foram convencendo boa parte da nossa sociedade a fazer uma grave substituição. A comida de verdade, aquela natural, bem feita, com os nutrientes necessários para construir e manter um bom estado de saúde físico, mental e emocional, mas que exige o mínimo de tempo e dedicação, deu lugar à praticidade, ao sabor, à felicidade, ao sucesso, à aventura e ao requinte associados aos ultraprocessados, com todo tipo de recurso lúdico que as propagandas puderam lançar mão para justificar que você estava fazendo a escolha certa.

Os resultados estão aí. As nações que não foram devidamente alertadas sobre os perigos desta transição acabaram por adoecer e passaram a achar natural a presença constante de doenças até então pontuais no seu cotidiano. Transição que levou, por exemplo, ao grande aumento da maioria das doenças crônicas não transmissíveis que passaram a fazer parte do nosso cotidiano, como uma epidemia de obesidade, diabetes tipo 2 e TDAH. E o que é pior, em todas as faixas etárias.

A luz no fim túnel parte da popularização da internet, com o fácil acesso a uma pluralidade cada vez maior de informações, pontos de vistas e, acima de tudo, de relatos pessoais que geram empatia e identificação e aproximam aqueles que têm preocupações semelhantes. O número de blogs, sites e páginas em redes sociais que têm como tema a alimentação consciente cresce a cada dia, sejam eles escritos por leigos ou profissionais, com informações de qualidade ou não. Aqui, o mais relevante é o aumento do interesse pelo assunto.

Vou voltar a falar nas crianças porque a minha maior preocupação é com elas. Hoje, as pessoas também podem encontrar diversos estudos científicos, até então praticamente secretos, que demonstram que crianças com uma alimentação mais nutritiva têm uma vida mais saudável, com um maior aproveitamento escolar e social e se transformam em adultos com melhor desempenho profissional.

O melhor exemplo que posso citar de tudo que escrevi neste post é o surpreendente interesse pelo evento Semana de Atenção à Saúde e Alimentação Infantil, que com uma semana e meia de divulgação, feita apenas pelas redes sociais, já obteve mais de 4 mil inscrições. Há uma previsão de 10 mil no total até o primeiro dia do evento. O congresso online gratuito acontecerá no final de março. O evento foi idealizado por uma mãe, que ao ter que se preocupar em mudar a própria alimentação em prol da saúde, passou a olhar também para o que oferecia para o filho. Ela reuniu dezenas de profissionais de nutrição e medicina que irão tratar dos malefícios do excesso do consumo de ultraprocessados pelas crianças.

Essa é mais uma entre tantas iniciativas que refletem o desejo de se criar canais de discussão independentes, onde assuntos importantes, mas poucos discutidos pelos meios de comunicação tradicionais, possam ser apresentados sem nenhum tipo de restrição ou interesse que não o de restabelecer, ou preservar, a saúde daqueles que se interessem por eles.