Termina amanhã a 25ª edição da Semana Mundial de Aleitamento Materno, que esse ano levantou a importância do trabalho coletivo em prol deste ato fundamental. Um provérbio africano diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. O mesmo acontece quando o assunto é conseguir amamentar pelo tempo necessário. Por diversas razões, as brasileiras não estão conseguindo cumprir a principal recomendação das sociedades de pediatria, que os bebês devem ser alimentados exclusivamente com o leite materno até completarem o sexto mês de vida. Por aqui, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 60% deles não recebem esse importante benefício.

 

Muitos agentes poderiam colaborar com a queda deste expressivo percentual. O governo, que poderia estender a licença-maternidade obrigatória, de 4 para 6 meses – mas não tenho muita esperança de que isso irá ocorrer em um momento de retrocesso dos direitos trabalhistas. As empresas, que poderiam acolher as mães e seus bebês para que elas pudessem trabalhar com os pequenos por perto e, assim, conseguissem amamentá-los – mas também não acredito nessa mudança, enquanto a lógica dominante do mercado for o lucro acima de qualquer coisa. Os maridos, ou os pais das crianças, e os familiares também poderiam colaborar com o aumento no tempo de amamentação exclusiva com informação e apoio. Mas, muitas vezes, as pessoas que estão mais próximas das mães são as que mais as incentivam a parar. Ou por acharem que há outros alimentos mais ‘fortes’ ou por verem o cansaço e as dores que a amamentação pode causá-las.  Esse grupo de pessoas só precisa de um pouco mais de sensibilidade, boa vontade e conhecimento para pararem de sugerir que as mulheres parem de amamentar e começarem a ajudá-las de fato.  Aqueles que estão dentro das casas de uma mãe cansada de dar o peito podem colaborar, por exemplo, com suas tarefas domésticas, diminuindo o número de funções que ela realiza todos os dias. Se o companheiro nota que a mulher está com muito sono, ele pode se levantar de madrugada para atender os chamados do pequeno membro da família, nem que seja para trazê-lo até o peito materno. E mesmo um ouvido atento para um desabafo de dor já pode ser um grande alento para quem sofre.

 

Não estou aqui para julgar as mães que tentam e  não conseguem amamentar ou que precisam voltar ao trabalho e não conseguem tirar o leite para deixar para os seus filhos. Quero falar com as mães que param de oferecer seu leite porque os pequenos deixam de aceitá-lo, porque acreditam que ele não é mais necessário ou porque se sentem cansadas de amamentar. Ao fazerem isso, além de privarem seus rebentos de todos os comprovados benefícios do leite materno, as mães também introduzem outros alimentos cujo organismo dos bebês ainda não está preparado para receber. Apenas a partir dos 6 meses o sistema imunológico do filho se torna independente do da sua mãe, neste período de transição ele precisa dos fatores imunológicos e dos fatores de crescimento que serão transmitidos pelo leite da mãe. Alguns órgãos não nascem prontos para cumprirem suas funções, como o rim por exemplo, e quem irá colaborar com o término desta tarefa são substâncias presentes exclusivamente no leite materno. Os rins, o estômago e o intestino dos bebês, só estão preparados para lidar com as características deste alimento e qualquer outro que for oferecido irá prejudicar suas funções, ainda que os substitutos pareçam inofensivos, como água, chás, sucos ou outros leites.

 

Se já é difícil amamentar até o sexto mês de vida, depois da introdução alimentar os percentuais caem ainda mais. De acordo com a OMS, apenas 26% dos brasileirinhos recebem este alimento até completarem 2 anos. Boa parte das pessoas acredita que depois que os pequenos passam a consumir alimentos sólidos, o leite da mãe passa a ser dispensável e haja conselhos para todos os lados. “Ele já está comendo? Então pode parar de dar o peito”. “Está acordando muitas vezes durante a noite? Então pare de amamentar para dormir melhor, seu filho não precisa mais do seu leite”. Mas não é bem assim. A Organização Mundial da Saúde recomenda que as crianças mamem até os 2 anos de idade, com uma frequência naturalmente cada vez menor com o passar do tempo. Eu amamentei até o meu filho completar 1 ano e 10 meses, sei que dói muito no começo e que é bastante cansativo, e muita gente tentou me convencer a parar antes desse período, mas não me arrependo de nenhum dia sequer que ofereci para o meu filho o melhor alimento que existe.

 

Muitas mães deixam de amamentar porque seus bebês param de aceitar o leite oferecido por elas. Mas não é a toa que isso acontece e com as informações adequadas é possível prevenir essa rejeição. Apesar de ser, sem dúvida nenhuma a melhor opção, o leite da mãe pode não estar suprindo as necessidades do neném. Enquanto está amamentando a mulher precisa de uma quantidade muito maior de micronutrientes do que costuma precisar ao longo de toda vida, mais até do que quando está grávida, mas o mais comum é que as mamães de bebês pequenos foquem os seus esforços nos cuidados com o filho e esqueçam das suas necessidades. Como comer bem, por exemplo, e principalmente tomar muito líquido, que é determinante para uma produção adequada de leite. A falta de sono, comum nesta época e a ansiedade gerada pela nova responsabilidade podem causar uma situação de estresse, que aumenta a demanda desses nutrientes do organismo. Ou seja, além de um baixo consumo, existe uma alta demanda, e o que está sendo ingerido não é suficiente para suprir estas necessidades. Por isso, em grande parte dos casos, estas quantidades não são alcançadas apenas com a alimentação e precisam ser suplementadas por profissionais especializados, médicos ou nutricionistas. O estresse é um inimigo para a amamentação. Os hormônios do estresse (catecolaminas) inibem o hormônio que libera o leite e, portanto, mesmo produzindo o leite, as mães também podem não conseguir amamentar.

 

Se, mesmo com todas estas informações, as mães decidirem parar de amamentar, ou se não tiverem outra opção, é importante saberem que quando os pequenos já estiverem se alimentando bem, comendo frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais e fontes de proteínas, animais ou vegetais, como ovo, algum tipo de carne ou quinoa e amaranto, por exemplo, não precisarão tomar nenhum tipo de leite para substituir o leite materno. Uma alimentação completa e balanceada já supre as suas necessidades. Além disso, o leite de vaca, por exemplo, não tem a mesma composição do materno, nem parecida, portanto não serve como substituto para ele. Muitas mães preferem oferecê-lo pela praticidade. É muito mais fácil fazer com que as crianças tomem uma mamadeira antes de dormir, por exemplo, ou quando  acordam de madrugada e, principalmente, quando vão se alimentar fora de casa, do que oferecer alimentos sólidos nestes momentos.  Mas cuidado, ao introduzir o leite de vaca ou mesmo o leite de soja na rotina alimentar dos pequenos, você também está introduzindo uma fonte de proteínas de difícil digestão que poderá ser a causa de muitos dos problemas de saúde que seu filho passará a apresentar daí em diante.

 

Fuja também das farinhas feitas pela indústria para os mingaus. Praticamente todas elas têm altos teores de trigo e açúcar na composição, outras substâncias que também devem ser evitadas por serem nocivas à saúde dos pequenos e de todos nós. Um mingau pode mesmo cair muito bem, para isso, pode usar flocos de aveia e leites vegetais, como o de arroz, o de inhame e os de cereais. Já dei aqui no blog uma lista de substitutos do leite de vaca. E se quiser explicações mais detalhadas sobre os efeitos nocivos do leite de vaca, do glúten e do açúcar na nossa saúde, também há muitos posts sobre estes assuntos no histórico deste blog.