Diabetes

Acredite, dieta sem glúten não causa diabetes

Por Juliana Carreiro

20/03/2017, 21h35

   

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Poucas semanas atrás escrevi um post que questionava os resultados de um estudo associando as dietas sem glúten com um possível aumento de câncer. Hoje o foco do meu questionamento é uma notícia sobre a relação das dietas sem glúten com o aumento dos casos de diabetes tipo 2. Este estudo é resultado de uma metanálise, ou seja, de uma série de análises feitas sobre uma ou mais pesquisas. Nesse caso a pesquisa analisada foi feita durante 30 anos com outros objetivos e envolveu duzentas mil pessoas. A metanálise sugeriu que os adeptos de uma rotina alimentar isenta de glúten teriam mais chances de desenvolver o diabetes tipo 2. A notícia tem sido amplamente divulgada pelos veículos de comunicação do País e raramente encontrei uma posição que contestasse a versão oficial. Porém, um artigo publicado pelo site francês Dur a Avaler contextualiza esta polêmica e apresenta alguns argumentos contrários a essa versão, que são muito válidos. Vamos a eles.

 

O estudo não foi publicado

Pra começar, a análise foi feita por um grupo da Universidade de Oregon, não pela Universidade de Harvard, e não pôde ser publicada oficialmente porque não foi validada por uma revista internacional, que atestasse os critérios científicos aplicados a ela. Na ciência clássica funciona assim, os investigadores comunicam os resultados preliminares em conferências internacionais para mostrar a sua descoberta, despertar a atenção, ganhar contratos ou bolsas de estudo e valorizar o trabalho do seu laboratório. E segundo a plataforma de pesquisa médica, PubMed, “sem uma publicação oficial, é impossível conhecer os detalhes metodológicos do estudo, seus possíveis vieses e a real conclusão dos autores, isso só acontece após um processo de revisão feito por seus pares.

 

Glúten, fibras e saúde

Não é a primeira vez que eu falo sobre o consumo excessivo do glúten neste blog. Seus malefícios para a saúde de todos nós, não só para a daqueles que têm doença celíaca, foram temas de vários posts. De acordo com a nutricionista Denise Madi, autora do livro Glúten, Toxicidade, Reações e Sintomas, “um dos seus efeitos nocivos no nosso organismo, comprovado cientificamente, é predispor os seus consumidores à resistência à insulina, principal causa da diabetes tipo 2, e ao desenvolvimento da diabetes tipo 1. Além disso, a grande maioria do trigo consumido no mundo é refinado, processo que retira do alimento quase toda a fibra presente nele. Portanto, o consumo de glúten definitivamente não está relacionado com o consumo de fibras, pelo contrário, normalmente quem o retira da dieta, o substitui por opções com percentuais muito maiores de fibras, como as frutas, que contêm fibras solúveis, ou as raízes, como a batata doce.

 

Resultado inconclusivo

A justificativa que relaciona um possível aumento da diabetes com o baixo consumo de fibras, que viria de uma dieta sem glúten, não passa de uma especulação. Esta relação não foi comprovada, o próprio estudo afirma que não há uma relação de causa e efeito entre os fatores analisados, sugere-se apenas uma suposta associação. Durante as pesquisas analisadas, os participantes tiveram que declarar os seus hábitos alimentares por meio de questionários a serem devolvidos a cada 2 a 4 anos. Ou seja, a cada 2 anos os participantes deveriam se lembrar de tudo que comeram ou deixaram de comer neste período. O que torna os resultados pouco exatos. E ainda de acordo com a Dra Denise, “normalmente, as pessoas que optam por tirar o glúten da dieta mesmo sem ter a doença celíaca, são pessoas que já sentem um certo desconforto ao consumílo, portanto já podem ter uma predisposição a desenvolverem resistência à insulina, que pode levar diabetes, por isso os resultados entre eles podem ter sido um pouco maiores do que entre os demais, se os dados forem realmente válidos.

 

Crescimento do mercado sem glúten

De acordo com a empresa de pesquisa de mercado, Mintel, nos EUA, a venda de produtos sem glúten dobrou nos últimos 5 anos e deverá duplicar novamente nos próximos 3 anos, chegando a US$ 5,5 bilhões até 2015. Já uma pesquisa global da Nielsen sobre tendências de alimentação saudável divulgada no ano passado mostrou que 21% dos consumidores em todo mundo optaram pelas dietas sem glúten. 32% deles estão na América Latina, 28% no Oriente Médio e África e 21% na Ásia e no Pacífico. O estudo mostrou que alguns consumidores não estão apenas se afastando do glúten, mas também estão preparados para pagar uma média de 23% a mais pelos seus substitutos. O crescimento deste mercado representa a diminuição do tradicional e a queda na venda e no faturamento das empresas que cultivam e que manufaturam o trigo no mundo todo. Uma queda que será combatida a qualquer preço pelos interessados.

 

Interesse na divulgação do estudo

A divulgação deste pré estudo foi feita pela AHA, a American Heart Association, uma associação patrocinada pela Monsanto, empresa que tem boa parte das suas fontes de renda vindas da produção e do comércio do trigo, nos EUA. Ainda de acordo com o site francês, estes resultados servem para dar argumentos para alguns profissionais de saúde e principalmente para as indústrias agrícola e alimentícia que são contrárias à popularização das dietas sem glúten. Infelizmente, os resultados deste estudo estão sendo repetidos a exaustão de forma precipitada, no mundo todo, sem que se divulgue a origem desta informação, seus conflitos de interesses e, especialmente, a relevância médica e clínica da associação que o divulgou.
Infelizmente a lógica de mercado vale também para a área da saúde e da pesquisa científica, que colocam o dinheiro acima do bem estar da população.  

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