“Lugar de criança é no supermercado – o poder de compra do público infanto-juvenil”, este foi o tema de um painel apresentado na semana passada em um evento voltado para o setor supermercadista, de bares e restaurantes, hotelaria e panificação, do Rio de Janeiro, que contou com a participação do influenciador digital Felipe Neto, que fala com milhões de crianças brasileiras pela internet. A repercussão foi bastante negativa entre os pais e educadores e entre os órgãos e associações que protegem esses pequenos potenciais consumidores e trouxe à tona a importante e necessária discussão sobre um controle mais rigoroso dos meios utilizados pelas propagandas para atrair o público infantil, principalmente quando se trata da venda de produtos alimentícios ultraprocessados. Eu já publiquei dois textos sobre estes assuntos aqui no blog, que você encontra nos links abaixo.

 

http://emais.estadao.com.br/blogs/comida-de-verdade/chega-de-biscoitos-voadores-e-bolinhos-sorridentes/

 

http://emais.estadao.com.br/blogs/comida-de-verdade/excesso-de-acucar-sal-e-gordura-tem-deixado-nossas-criancas-doentes/

 

A influência negativa de uma publicidade tendenciosa pode afetar as crianças muito antes que elas consigam assistir a uma propaganda, pode começar confundindo as suas mães. A mais nova pesquisa do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) que teve como alvo as embalagens de compostos lácteos, identificou infrações em 266 produtos, em 15 municípios de nove estados brasileiros, de junho a outubro de 2017. O principal problema apontado foi a ausência da frase de advertência, exigida pelo Ministério da Saúde, para alertar que o composto lácteo não substitui o aleitamento materno e que não é indicado para determinada faixa etária. “Com rótulos e publicidades confusos, o consumidor é levado a erro e acaba comprando um produto ultraprocessado, repleto de ingredientes não adequados para crianças, achando que é leite”, destaca Laís Amaral, nutricionista do Idec. O monitoramento do cumprimento da legislação que visa proteger o direito à amamentação no Brasil é realizado anualmente pela Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar (Ibfan, na sigla em inglês) no Brasil, em parceria com o Idec.

 

Com embalagem muito semelhante à do leite em pó, o composto lácteo é uma mistura de leite de vaca e ingredientes, como óleos vegetais, açúcar e substâncias químicas para dar sabor, aroma, aumentar a durabilidade, etc, chamadas de aditivos alimentares – substâncias não recomendadas para crianças com menos de 2 anos pelas Sociedades de Pediatria ou, no caso dos aditivos, que deveriam ser banidas de vez da sua rotina alimentar. Outro grave risco de confusão gerado pela falta de informação sobre o composto lácteo é com as fórmulas infantis e fórmulas de seguimento – alimentos artificiais substitutos do leite materno, indicados para recém-nascidos de até 6 meses e para bebês entre 6 meses e 1 ano de idade, respectivamente, que não estão sendo amamentados. “Diferentemente dos compostos lácteos, as fórmulas infantis e de seguimento são desenvolvidas para suprir as necessidades nutricionais do bebê quando a amamentação não é possível”, explica Rosana de Divitiis, conselheira da Ibfan.

 

A falta de informação das mães e a angústia de não conseguir amamentar fazem com que boa parte delas recorra às fórmulas infantis, na grande maioria das vezes até por orientação dos pediatras e dos profissionais que as acompanham nos hospitais, mesmo sem necessidade, pois ao primeiro sinal de dificuldade, a alternativa da amamentação já é descartada. Mas já se sabe que nada substitui o leite materno e que esta deveria ser sempre a principal opção das famílias, ainda que tenham que lutar para que essa alternativa prevaleça. De acordo com a agência de notícias da ONU, se todos os bebês fossem amamentados nos primeiros dois anos de vida seria possível salvar a vida de mais de 820 mil crianças com menos de cinco anos no mundo, todos os anos. Pensando nisso, a OMS, Organização Mundial da Saúde e a Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, lançaram na semana passada um novo guia com 10 passos para aumentar o apoio ao aleitamento materno nos hospitais. Segundo a diretora executiva do Unicef, Henrietta H. Fore, “a amamentação salva vidas e requer apoio, encorajamento e orientação e o guia pode melhorar de forma significativa as taxas de amamentação em todo o mundo e dar às crianças o melhor começo possível na vida”.

 

Há inúmeras formas de insistir para que a amamentação aconteça, mas as mães precisam de informações de qualidade. É isso que propõe o Guia, que faz parte do Programa Hospital Amigo do Bebê, criado em 1991 pelas organizações parceiras. O novo material reafirma a importância da amamentação de primeira hora, que protege os recém-nascidos de infecções e reduz o risco de morte devido à diarreia e outras infecções; defende o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida do bebê e adverte sobre o excesso de substitutos para o leite materno. De acordo com a publicação, todos os hospitais devem ter uma política escrita para esta área e definir as funções do pessoal do setor, incluindo quem presta apoio às mães e às famílias que recebem alta.