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Senta que lá vem textão. Vou começar o post de hoje falando da língua portuguesa. Todos os anos, o departamento da universidade de Oxford, responsável pela elaboração de dicionários, elege uma palavra de destaque para a língua inglesa. A escolhida em 2016 é “pós-verdade” (“post-truth”). Segundo a instituição, o termo “denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Já posso voltar para o Brasil e já posso voltar a falar sobre alimentação consciente. Infelizmente, este termo resume o trabalho feito pela  indústria alimentícia e pela publicidade de alimentos nas últimas décadas, por aqui. Pelo menos o daquelas que se dedicam a promover o consumo de produtos de baixa qualidade nutricional e altos teores de sal, açúcar, gordura e aditivos químicos, como os ultraprocessados ou qualquer produto vendido pelas redes de fast food, por exemplo. A capacidade de persuasão do consumo destes produtos, por meio de apelos emocionais e lúdicos, é inversamente proporcional aos fatos que demonstram os seus efeitos nocivos para o nosso organismo, caso este consumo seja contínuo. Este trabalho tem sido muito bem feito e o consumo frequente destes produtos cresce a passos largos e a cada ano. Com ele crescem também os índices de obesidade infantil, de diabetes, de doenças do coração, de hipertensão, de hiperatividade e déficit de atenção, entre tantos outros. Pode ter certeza que estes aumentos estão bastante relacionados. Este é um fato objetivo.

O excesso de aditivos químicos, sal, açúcar e gorduras processadas já é um ‘ótimo’ elemento de conquista e fidelização dos consumidores pois é usado exatamente para provocar experiências sensoriais muito agradáveis, que dificilmente você encontraria em alimentos naturais. Com o passar do tempo o paladar de quem os consome se acostuma com estes sabores fortes e fica menos sensível aos mais suaves, como os da comida de verdade. Para complementar este apelo físico, aparece a emoção, muito bem utilizada pelas propagandas, como eu já exemplifiquei em outro post aqui do blog. Esta é a pós verdade da alimentação, que faz com que palavras como ‘praticidade’, ‘felicidade’, ‘carinho’, ‘saudade’, ‘sucesso’, ‘aventura’, ‘beleza’, se sobreponham à preocupação com a saúde. E pior, fazem com que os produtos jamais sejam associados aos danos reais que eles podem causar, quando consumidos em excesso e quando oferecidos para as crianças, dois fatores que acontecem muito por aqui. Estes mesmos ‘argumentos’ costumam ser utilizados para vender perfumes, automóveis, calçados, roupas ou qualquer produto cuja a decisão de compra necessite de um apelo que gere uma resposta emocional de recompensa.

Diferentemente dos demais produtos, os alimentos que ingerimos serão determinantes para a nossa saúde física, mental e emocional, a curto, médio e longo, prazo. Mas anunciantes e consumidores parecem preferir ignorar este fato. Os argumentos determinantes para a escolha do que irá compor a rotina alimentar das pessoas são muito mais emocionais do que racionais. E conforme o tempo passa, esta relação tão próxima entre a emoção e o consumo de determinados alimentos faz com que eles entrem para as crenças pessoais dos consumidores, que passam a ignorar os fatos negativos sobre eles, como uma mãe que prefere fechar os olhos para os malfeitos de um filho. Se você está indignado com o que está lendo fique atento, posso estar mexendo com as suas crenças pessoais, muito bem construídas pela ‘pós-verdade’.

Para encerrar, vou fazer uma analogia que pode parecer extrema, mas se pensarmos nos efeitos de uma alimentação de péssima qualidade a longo prazo para o nosso organismo e até para a nossa qualidade de vida atual, não será tão absurda assim. Vinte anos atrás, o cigarro protagonizava lindas cenas no cinema e na televisão, tinha embalagens atraentes e podia até ser objeto de propaganda. Hoje, depois que a ciência já comprovou os seus efeitos nocivos não encontramos mais este tipo de tratamento. Além de o seu uso não poder ser incentivado e dos seus impostos serem altíssimos, suas embalagens trazem também sérios alertas sobre suas consequências. Não dá nem para imaginar que algum pai possa oferecer um cigarro a uma criança, certo? Mas com os alimentos prejudiciais à saúde isto acontece o tempo todo. Muitas vezes eles são a base ou a única fonte alimentar dos pequenos. Será que daqui a dez ou vinte anos o mesmo que aconteceu com o cigarro não acontecerá com os alimentos ultraprocessados? Com o fast food? Espero que sim. A nossa real felicidade depende disso.