Em um teste de imagem, promovido pelo Governo do Estado do Paraná, profissionais de Recursos Humanos analisam fotos semelhantes. Uma mulher branca segurando uma peça de roupa? Deve ser estilista. A negra? Costureira. O homem branco correndo possivelmente está atrasado. Já o negro, fugindo… ou então é ladrão.

A experiência revelou o que se chama de Racismo Institucional. O termo, utilizado nos anos 1960 por ativistas do movimento Black Power, significa a falha coletiva de uma organização em prover um serviço profissional e apropriado para as pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica.

O racismo identificado por grande parte da população é apenas aquele mais explícito, marcado por agressões físicas e verbais. No entanto, o racismo institucional levanta barreiras da desigualdade e da pobreza difíceis de transpor.

Crédito: Pixabay

“Taxi não para, mas viatura para.” A frase é uma crítica do rapper Emicida ao racismo e evidencia cenas do cotidiano: um branco muda de calçada, ao se deparar com um jovem negro. O paciente entra no consultório e pergunta ao médico negro: “onde está o médico?”.

Exemplos como esses apareceram na fala da atriz Taís Araújo, no TEDXSão Paulo deste ano. Quando o vídeo foi publicado na internet, o resultado desastroso foi uma enxurrada de memes ironizando a fala da atriz, como se fosse um exagero, como se fosse “mimimi”.

Acontece que a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no país. De acordo com o Atlas da Violência 2017, o assassinato de mulheres negras aumentou em 22% em relação às mulheres brancas.

O mesmo documento revela que a população negra corresponde à maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

De acordo com Elisiane Santos, procuradora do Trabalho do Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP), 70% das crianças que trabalham nas ruas são negras. O trabalho infantil nas ruas expõe as crianças à violência, a acidentes de trabalho e contato com as drogas.

A evasão escolar também é uma das consequências do trabalho infantil, o que dificulta a profissionalização desses jovens negros. Na vida adulta, eles não conseguem acessar o trabalho digno, reproduzindo o ciclo da pobreza.

Na reportagem “Quais são as consequências do racismo no Brasil?”, que escrevi para a Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, citei também a importância do olhar histórico. A matéria revela que o racismo operou como elemento de manutenção de privilégios da elite branca, uma vez que o trabalho não-qualificado era praticado pelos escravos e negros livres após a escravidão.

“A história do negro brasileiro após a abolição é uma trilha do caminho vicioso da favela e da rua. Existe uma discriminação ocupacional e salarial, que se utiliza da ideia de que o trabalho do negro não vale tanto quanto os demais”, reforçou o historiador Cleber Santos Vieira, em entrevista ao projeto.

Dentro desse estado caótico em que vivemos – condenando crianças e jovens negros à reprodução do ciclo da pobreza, quando não à morte – precisamos reconhecer que a abolição da escravidão ainda é um processo inacabado. Não acredito que seja possível combater a desigualdade sem falar em racismo.