No final do ano passado, o anúncio da reestruturação das escolas pelo governador Geraldo Alckmin resultou na ocupação das escolas. De lá para cá, a juventude tem demonstrado que não está disposta a acatar decisões e a aceitar os problemas relativos à educação, sem dialogar com as autoridades.

Mas será que estamos ouvindo nossos jovens? A aparente inabilidade de diálogo e debate resultou na recente ocupação das Etecs e da Assembleia Legislativa de São Paulo, reivindicando a abertura da CPI das merendas, uma vez que a alimentação em muitas escolas foi substituída por bolacha, leite e suco.

Conversamos sobre este cenário com Maria Stela Santos Graciani, professora da PUC-SP e doutora em Ciências Sociais e Pedagogia. Confira os melhores trechos da entrevista:

Blog Era Uma Vez: O que a senhora pensa sobre a ocupação das escolas, Etecs e da Assembleia Legislativa de São Paulo?

Maria Stela Santos Graciani: Acredito que seja a última hipótese de poder dialogar, porque os alunos levantaram a problemática, chamaram as autoridades para o diálogo e conversaram com os diretores, mas não receberam uma resposta para evitar a ocupação.

Eles querem uma solução para os problemas. Estão falando de questões básicas, como a merenda, mas as atitudes das autoridades não estão solucionando o conflito.

Blog Era Uma Vez: Qual é a melhor forma de responder a essa juventude?

Maria Stela Santos Graciani: O estabelecimento da resolução de conflito que está instaurado é o diálogo e a conversa. É preciso sair da letargia. A ocupação é uma forma contemporânea e nunca aconteceu antes, como ocorreu nas escolas, nas ETECs e na Assembleia Legislativa de São Paulo. As autoridades estão sem retaguarda nenhuma. O diálogo poderia ter solucionado esta questão, antes de chegar no nível que chegou.

Blog Era Uma Vez: A crise política impulsionou o engajamento dos jovens?

Maria Stela Santos Graciani: Creio que o momento de perplexidade da sociedade brasileira está levando a juventude a fazer uma reflexão sobre política pública. Estamos em um momento de grande caos nacional e está difícil de retomar a direção.

Blog Era Uma Vez: O que tudo isso representa para o futuro do país?

Maria Stela Santos Graciani: Nós podemos pensar no processo dos jovens em três etapas. Primeiro, existe uma modificação de hábitos e costumes da juventude. Em segundo lugar, os estudantes perceberam que as mudanças que seriam mais politicamente corretas estão embaralhando o sistema nacional de representação. Por fim, não podemos deixar a reivindicação de uma juventude no hiato. Não estamos ouvindo os jovens que serão os futuros senadores, deputados e cidadãos deste país. São os protagonistas de um modelo novo de nação.

É importante lembrar que o movimento político deles não tem ligação nenhuma com professores, diretores e partidos políticos. Trata-se do empoderamento da juventude. Precisamos abrir nossos olhos e acolher esses jovens, para que eles consigam ser quem eles querem ser e não estão conseguindo realizar sua utopia.