A divulgação do Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, na última segunda (9), revelou um dado triste. Elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), o estudo mostrou que os homicídios de mulheres aumentou no Brasil. Olhando mais de perto: os homicídios de mulheres negras aumentaram 54% em dez anos no país. No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%.

Nas últimas semanas, felizmente acompanhamos a participação de mulheres em espaços geralmente ocupados por homens na mídia, por meio da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas. Jornalistas e intelectuais deram espaço a elas, que quebraram o silêncio ao falarem sobre assédio sexual, violência, machismo, feminismo e os assuntos que circundam este tema. Foi lindo. Mas me chamou a atenção a ausência – ou quase – da expressão da mulher negra. Praticamente todas as convidadas que li eram brancas e já tinham certa voz na mídia tradicional.

Onde estão as vozes de nossas tantas mulheres negras? O que é ser uma criança (e menina!) negra no Brasil, país que ainda não superou a desvantagem histórica do negro em relação ao branco? Como empoderar-se? O que é o chamado feminismo negro?

Foi então que decidi convidar Bianca Santana para escrever aqui no blog. Quis dar espaço a um debate que eu, como branca, não faria com a mesma propriedade. Bianca é professora da Faculdade Cásper Líbero, jornalista e mestra em educação pela Universidade de São Paulo. Ela lança nesta semana a coletânea “Quando me descobri negra” (Sesi-SP). Você pode comprar o livro, acompanhar histórias de mulheres negras e até compartilhar a sua, neste site aqui. Confira um pouquinho disso tudo:

Quando me descobri negra

Bianca Santana

 

“Uma constante negação de mim mesma marcou minha infância e parte da adolescência. Tinha uma vontade urgente de não ser o que meu espelho mostrava. Tinha desejos de transformar a toalha em cabelos, de que a espuma do sabonete se infiltrasse em mim, me dando uma nova cor. Fitava, indignada, as palmas da minha mão, perguntando-me, por quê tão pouco de mim era daquele jeito.”

A dor relatada por Giulia Ebohon é a de muitas meninas e meninos negros. Tantas vezes silenciada, solitária, castradora. Reproduzindo a opressão multiplicada pelo mito da democracia racial. “O Brasil não é um país racista”, alguém pode insistir. Mas casos como o da Taís Araújo, que postou uma foto de perfil no Facebook e recebeu comentários racistas, evidencia como o racismo está presente no cotidiano de negras e negros no Brasil, mesmo entre globais. O desejo de manifestar que #SomosTodosTaísAraújo, depois do #SomosTodosMaju, escancara que sim, infelizmente, somos um país racista.

Agora, por um minuto, imagine como é para os não globais. Para quem sofre violências simbólicas, e outras tantas bem concretas, todos os dias, e não é acolhido por ninguém. Muitas vezes, pelo contrário, recebe olhar de espanto e condeção: “mas você só se vitimiza”, “nem tudo tem a ver com sua cor”, “mas a minha empregada é negra e é praticamente da família”. Além de doloroso, é exaustivo. Ter de cuidar das próprias feridas, encontrar forças e traçar estratégias para fugir das estatísticas que mostram pessoas negras em condições vulneráveis já consome muito tempo e energia. Ter de se justificar o tempo todo, explicando o racismo, é muito penoso.

Ainda assim, desconstruir o racismo é uma urgência. Mas não só para as pessoas negras. Todas e todos somos responsáveis. Em vez de desaprovar alguém, quando a pessoa denuncia o racismo, procure compreender primeiro do que ela fala. Vale acessar tantas informações disponíveis na rede sobre a luta do movimento negro, das mulheres negras, do feminismo negro. Além disso, para ajudar a compreender o racismo, que pode parecer tão abstrato e distante, há muitos relatos de dores cotidianas sendo publicados. Estes relatos nos ajudam, como sociedade, a compreender as manifestações do racismo que tentamos mascarar, e também são uma possibilidade de cura para quem os escreve.

Novamente as palavras da Giulia: “Quebrei o silêncio. Contei-me essa história sobre a minha vida, sob uma nova perspectiva, para me tornar dona dela. Dona do meu passado e do meu agora. Para me tornar dona de mim.”

Deixo aqui o convite para a leitura da história da Giulia e de outras de nós. E, principalmente, para que as pessoas negras se contem, elas mesmas, para que todos possamos aprender: quandomedescobrinegra.net. É o endereço do site de um livro que lanço esta semana, com relatos escritos por mim a partir do que vivi, do que ouvi e do que imaginei. Na página, além de parte do livro, é possível acessar histórias enviadas pelas pessoas. E enviar histórias. Faço o convite reafirmando que o racismo no Brasil é problema de todas e todos. Combatê-lo, também.