Nos próximos dez anos, excluiremos da pauta das escolas municipais de São Paulo o debate sobre as questões de gênero e identidade sexual dos estudantes. Não falaremos sobre a violência sexual sofrida pelas meninas, não falaremos sobre homofobia, preconceito e nem sobre a condição de alunos travestis e transgêneros.

Será assim, porque a Câmara Municipal de São Paulo aprovou no último dia 25 o projeto de lei que trata do Plano Municipal de Educação, eliminando do texto referências à palavra gênero e trechos da Lei Orgânica do Município e do Plano Nacional de Direitos Humanos que garantiriam igualdade de gênero no ensino fundamental. O projeto segue agora para sanção do prefeito Fernando Haddad (PT).

Pressionados por grupos LGBT, religiosos se manifestaram contra a discussão sobre discriminação por gêneros no ambiente escolar e também a inclusão de aulas de educação e diversidade sexual na grade de disciplinas.

Em entrevista ao blog, Kelly Melatti, diretora do CRESS-SP, falou sobre a importância da reflexão do tema na educação. “Seria um debate sobre opressões históricas, que acometem as classes trabalhadoras, principalmente as mulheres, além de práticas homofóbicas, machistas e racistas”, comenta. “Por que não podemos discutir com as crianças sobre as opressões históricas que acontecem em nossa sociedade? É uma pergunta que fica e diz respeito a um pensamento conservador.”

Confira trechos da entrevista com Kelly:

Era uma vez: Qual é a importância do texto excluído do Plano Municipal de Educação, que fazia referência à palavra “gênero”?

Kelly Melatti: Por meio da possibilidade de reflexão no âmbito da educação, podemos mudar práticas que historicamente significam opressões na vida das pessoas. Seria um debate sobre as opressões históricas, que acometem as classes trabalhadoras, principalmente as mulheres. Você percebe o caráter conservador da sociedade, por não querer debater a questão, como se ela fosse irrelevante.

Você começa a ver práticas homofóbicas, machistas e racistas e não há reflexão no âmbito da educação. Por que a gente não pode discutir com as crianças sobre as opressões históricas que acontecem em nossa sociedade? É uma pergunta que fica e diz respeito a um pensamento conservador.

Era uma vez: Quais são as consequências disso?

Kelly: Todas as vezes que marginalizamos os assuntos, damos abertura a uma série de violências. Quando você dá visibilidade a um assunto, a tendência é que a violência diminua. Discutir é fundamental para você ter uma geração em que a violência de gênero seja refletida, inclusive trabalhando na prevenção. Infelizmente perdemos essa oportunidade.

Era uma vez: Como a senhora enxerga a pressão dos religiosos contra a aprovação do texto?

Kelly: Você tem um reforço que a educação não é laica. Muito embora nossa constituição diga que é laica, esse tipo de atitude mostra que na realidade social a educação não está respeitando a laicidade. Isso tem muito a ver com prática religiosa.

Se não podemos ter essa temática no currículo das escolas, onde teremos? No programa do Datena, da Xuxa? Onde teremos, além do espaço onde crianças e adolescentes convivem, onde eles têm de se sentir bem e acolhidos? Como devemos atender um adolescente trans, por exemplo? Incluir isso no PME é a possibilidade de debater com a sociedade, mas vemos que o assunto ainda continua escondido.