Foto Tiago Queiroz / Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil / Creative Commons

Na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, costumamos dizer que uma violação nunca vem sozinha. Geralmente, a criança que não têm acesso à educação de qualidade é a mesma que trabalha. É também a mesma que vive em situação de vulnerabilidade social e que não terá acesso ao trabalho digno no futuro.

A reprodução do ciclo da pobreza ganha rosto quando você entra em contato com as vítimas do trabalho infantil. No Feriado de Finados, na quinta passada (2), fui ao Cemitério do Araçá, na Zona Oeste de São Paulo, acompanhar as crianças e adolescentes que limpavam os túmulos. A reportagem pode ser lida neste link.

Ao conversar com eles, vi todas as pesquisas e estatísticas se concretizarem em minha frente: aos 15 anos, aqueles meninos e meninas também pedem no metrô durante a semana. Antes dos 18, eles já têm filhos para criar.

Muitos deles deixaram a escola antes do Ensino Médio e buscam no subemprego uma forma de sobrevivência. Uma das meninas que conversei sonha em ser médica, mas esqueceu de se inscrever no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Em troca, busca oportunidades como diarista ou atendente de loja.

No Brasil, sonhar infelizmente não é para todos. Não é difícil compreender a teoria do problema, mas como buscar alternativas reais para solucioná-lo? O racismo, que abordarei no post da próxima semana, é uma questão prioritária. Foram quase 400 anos de escravidão, acabados apenas no papel.

Enquanto isso, 2,7 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, trabalham no Brasil, segundo a PNAD 2015 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). A evasão escolar entre os que trabalham é três vezes maior.

De acordo com o estudo Trabalho Infantil e Adolescente: impacto econômico e os desafios para a inserção de jovens no mercado de trabalho no Cone Sul, a evasão escolar chega a 40% entre crianças e adolescentes que cumprem jornadas de 36 horas semanais.

Para a mesma carga horária, a queda no rendimento varia de 10% a 15%, dependendo da série. Para esses jovens, é muito maior a dificuldade em ingressar no mercado de trabalho digno e a renda obtida na vida adulta é menor, reproduzindo o ciclo da pobreza.

A Lei de Aprendizagem é uma alternativa para a inserção dos nossos jovens no mercado de trabalho decente, mas a cota não é cumprida por todas as empresas. Não tenho a pretensão de responder qual é a estratégia para melhorarmos a vida da nossa juventude. Mas não tenho dúvidas que é impossível falar em desenvolvimento sustentável sem falar em proteção integral à infância e juventude.

Nós, como sociedade – seja por compaixão, seja por questões de mercado – devemos priorizar as crianças e adolescentes. A pobreza também custa caro ao estado. Decretamos guerra às drogas e temos a quarta maior população carcerária do mundo. Não gastamos pouco com isso. Também não gastamos pouco com a população em situação de rua, mas nada tem sido suficiente para rompermos o ciclo da pobreza.

Um bom começo pode ser investimento em escolas de qualidade em tempo integral e políticas públicas para as famílias se estruturarem e criarem condições para a vivência plena da infância e adolescência de seus filhos. Se a pobreza dos outros não dói no coração, pode ter certeza que vai doer no bolso.