Plural perguntou a quatro editores de design e decoração, enviados para a cobertura da Semana de Design, em Milão, quais foram as impressões deles acerca da cidade e do evento, que acabou na última quarta-feira. A seguir, confira as respostas de Marcelo Lima, do Casa&, além das de Artur de Andrade, de Casa e Jardim; Fabrizio Rollo, de Casa Vogue; e Regina Galvão, de Casa Claudia. As reportagens estarão nas edições de maio das revistas especializadas. No próximo domingo, dia 3, o suplemento Casa & publicará edição especial, com tudo o que rolou de novo no Salão Internacional do Móvel e nos eventos paralelos. Não perca!

MARCELO LIMA
Colunista do suplemento Casa&;

“No Salão Internacional do Móvel, percebi a inauguração de uma fase de questionamento, reflexo da crise econômica. O investimento nas decorações dos estandes, por exemplo, normalmente bem impactantes, dessa vez se mostrou menor. Mas a criatividade dos designers manteve-se. Acho que existe também um refluxo das tendências. Nota-se uma vertente importante: a expressão pessoal como manifestação artística. A peça de que mais gostei foi a poltrona Orbit, dos irmãos Bouroullec para a inglesa Established & Sons, marca do momento. No roteiro fora do Salão, chamaram atenção os ambientes com espelhos e plantas produzidos por Patricia Urquiola no lançamento de seus metais de banheiro para a alemã Axxor. A designer espanhola, aliás, foi um dos nomes de maior brilho nesta temporada. Já a instalação mais interessante, na Zona Tortona, é a de Paola Navona para a manufatura de cerâmicas Richard Ginori.”


Poltrona e pufe da Established & Sons

ARTUR DE ANDRADE
Redator-chefe da revista Casa e Jardim

“A crise econômica atingiu a Itália, mas não de forma catastrófica. Comércio requintado, grifes a preços elevadíssimos e restaurantes com arquitetura moderna, além de chefs famosos, não resistiriam se não existissem consumidores. A indústria de móveis é o maior chamariz: está deitando e rolando quanto ao faturamento, assunto que dominou os jornais locais. Como detém 52% do mercado de exportação de mobiliário no mundo, o país se preocupa com a crise, sim, mas reage a ela com otimismo. Vide as cores, os brilhos, os tecidos calorosos e a confiança notados em peças espalhadas pelo Salão do Móvel. Edra, Moroso, Kartell e Meritalia legitimam essa onda. Por outro lado, existe em grande parte das marcas de design um desejo de ser sóbrio, de passar despercebido e oferecer móveis simples – mas feitos com materiais tecnológicos –, que vão permanecer em alta por muito tempo. Caso da Zanotta e da B&B Italia, por exemplo. É como se uma pessoa vestisse uma roupa de grife e quisesse esconder o logo. Nesse segmento, a poltrona Archibald, da Poltrona Frau, foi a peça de que mais gostei.”

Pele de vitelo reveste a poltrona Archibald

FABRIZIO ROLLO
Editor de estilo da revista Casa Vogue

“No Salão do Móvel, o visual dos estandes foi mais básico, porque o medo da crise é presente. O fato é que não há tendência no Salão de 2009. A Vitra, por exemplo, revestiu de branco sua coleção de best-sellers, em busca do neutro. Essa ausência até pode ser positiva, porque o ritmo até então estava acelerado demais, com muita coisa descartável e sem propósito. Mas se o investimento está comprometido, a criatividade não. A melhor ambientação no roteiro fora do Salão foi a da britânica Established & Sons, que usou casulos com lascas de madeira para exibir seus produtos. Uma das peças de que mais gostei foi o lustre Hope, criado por Francisco Gomez Paz e Paolo Rizzatto para a Luceplan. Ela é feita de policarbonato transparente e lâminas holográficas. Não dá para deixar de lado Tom Dixon, hoje um dos designers contemporâneos mais importantes porque consegue trabalhar de maneira fresh, inteligente e funcional. Ele não se rende ao kitsch explorado nos últimos tempos por Philippe Starck e ainda, recentemente, por Marcel Wanders, que tem coisas impublicáveis…”


A Hope tem efeito holográfico

REGINA GALVÃO
Editora da revista Casa Claudia

“Todo mundo fala da crise. Pelo que percebi, algumas marcas tentaram ficar mais comerciais, com o uso de muitos tons neutros. Por outro lado, nota-se também, como antídoto contra a depressão atual, o uso de bastante cor. Um exemplo é a coleção da Edra. O destaque foi o sofá Cipria, criado por Fernando e Humberto Campana. A Moroso também investe, de maneira evidente, em pesquisa e tecnologia. O que acho incrível, em Milão, é a oportunidade de conferir as grandes marcas, mas também novos criadores que circulam por toda a parte. Quando fui à loja Rossana Orlandi, por exemplo, vi um rapaz que pegou uma cômoda de família, colocou nela uns rodízios e ficava circulando por ali… Uma instalação de que gostei bastante foi a de Fabio Novembre, na Triennale, com elementos vermelhos e projeções de filmes de Fellini. No mesmo local, outra mostrava a tecnologia japonesa. É aí que se percebe o encontro do design com a arte. Chato continua sendo encontrar, na cidade, um táxi com facilidade.”

Explosão de cores no sofá Cipria