Caro Leitor, venha aqui;

Sente comigo nesse degrau. Preciso lhe contar uma história.

 

Você ainda não pode ver a casa que se esconde atras desta pequena subida, mas lhe prometo que a espera valerá a pena!

A nossa jornada começa no final do Século XIX, quando o imigrante italiano Vicente (Provavelmente Vincenzo na época, equivalente deste nome em Italiano) Filizola desembarcou no Rio de Janeiro, em 1882, com apenas 15 anos e carregando em suas malas de papelão muita esperança.

Por lá achou emprego em uma serraria, onde aprenderia antes a fabricar trincos e fechaduras e em seguida a arte de consertar balanças!
Sim uma arte minha gente, pois naquela época conseguir o peso exato das mercadorias fazia toda a diferença. Algo simples e corriqueiro para nos, mas altamente tecnológico naquele Brasil que vinha sendo construindo.

E foi assim que Vicente, mudou-se para a pujante São Paulo, pôs seu sobrenome na firma, e se tornou o primeiro produtor de balanças NACIONAIS! (Extremamente precisas e infinitamente mais baratas que as importadas)

Algumas memórias desse período me foram trazidas pelas palavras do Bisneto Fernando Filizola com o qual tive o prazer de conversar :

“Em São Paulo Vincenzo instalou-se na casa de seu tio Pedro Gaetano, que já exercia a profissão de ferreiro. Abriu o negocio denominado inicialmente “V.Filizola&Gaetano”, mas logo depois modificado para “Filizola & Co. Ltda”.

Corria o ano de 1886 e Nascia ali o mito das balanças Filizola.  A fábrica era situada na própria casa do tio Gaetano, num sobrado logo no início da Rua da Consolação. (Lembrem desse detalhe, vamos voltar nele)

A empresa prosperou e entrou no novo século a todo vapor, tanto que no Estadão de 02 de Outubro de 1902, na folha de “Exposição Municipal” encontramos esse anúncio :

Acervo/Estadão

Mas como em todo mercado aquecido a concorrência não tardou a chegar, como podemos ver nesse outro trecho publicado em 1903 :

Acervo/Estadão

Mesmo assim a firma completou alegremente seus Aniversários de 50&60 anos, em 1936/1946 :

Comemoração 50 anos / Acervo Estadão

O almoço de comemoração aconteceu à Pça Antônio Prado na “Brasserie Paulista” de propriedade de um certo Vittorio Fasano, que também escreveria parte da história da cidade com seus empreendimentos.

Comemoração 60 anos / Acervo Estadão

Em 1942, com a morte do chefe de família e pai figurativo da fábrica Filizola, seu filho Nicola – ou Nicolau como seria abrasileirado – assume o pequeno império.

Acervo Estadão

E aqui meu amigo leitor. Desvendo onde sentamos lá atras.

Lembra daquele degrau? Este è o primeiro Arqui-achado dessa linda historia.

Estamos no numero 1071 da Rua Frei Caneca, onde è hoje o Instituto Cultural Italo Brasileiro, e casa da Familia Filizola até a morte de seu patriarca.

Um lindíssimo exemplar de Arquitetura em Estilo Florentino(de provável autoria do Arquiteto Felisberto Ranzini, associado de Ramos de Azevedo e maior exponente do Estilo na cidade), muito bem conservado pelo ICIB, que adquiriu o imóvel da própria Familia Filizola no final da década de 1940.

Nicolau “não iria muito longe”.

Compraria um terreno na altura do número 300 da Rua Frei Caneca e construiria uma casa(seguem imagens) mais moderna que a do pai, em estilo Monções, projetada pelo “Engenheiro Architecto” Ernesto Becker. (Demolida no inicio de 2017 para incorporação de um Edifício)

Fernando Filizola, Bisneto de Vincenzo, lembra detalhes dessa residência :

“A casa do Nicolau realmente era uma obra de arte. Em todo hall de entrada havia piso machetado (tacos em madeira escura e clara com angulo de 90 graus)  com a mobilia seguindo o mesmo padrão. Havia um afresco em uma parede logo na entrada no lado direito da casa. Todo este trabalho foi elaborado por artesões italianos ou descendentes.
Os quartos do piso superior possuiam feitos em gesso com o brasao da família.”

Revista Acropole JUL 1938 – ANO 1 – N° 3 / link para mais fotos : http://www.acropole.fau.usp.br/edicao/3/34

 

google streetview/reprodução / 2016

 

Imagem do Terreno após a demolição

O mesmo Nicolau em 1948 mandaria construir, ali onde foi a primeira fábrica da firma, um edifício qual nome seria uma Homenagem ao pai.

Fernando Filizola, Bisneto de Vincenzo, conta :

“A construção do Edifício já havia sido idealizada por Nicolau ainda quando Vincenzo era vivo. Na propriedade do “tio Gaetano” em conjunto com o terreno vizinho, que o próprio Vincenzo havia adquirido,  foi levantado o Edifício Vicente Filizola.”

Os encarregados da obra não seriam escolhidos casualmente, e sim a dedo. Sendo o escritório de Jaques Pilon o Elegido e o Arquiteto associado Franz Heep mandatário do projeto/construção.

Destas pranchetas sairia um edifício moderno, construído em concreto armado e com brises (hoje removidos) em sua fachada.
Ao todo seriam 10 pavimentos e o térreo seria ocupado por uma loja da própria Filizola.


Em 1970 falece também Nicolau, que regeu a empresa junto com o pai.

Ambos estão sepultados num belo túmulo de Família, no Cemitério do Araça. (Quadra 40 / Tumba 23)

A história dessa família de grandes empresários perdurou por quatro gerações e mais precisamente até 2014, quando foi decretada a falência após 128 anos de serviço.

Certos que as milhões de balanças produzidas irão continuar povoando as estantes das farmácias mais antigas e dos antiquários, esta è uma história que continuará viva ainda por muitos anos.

Conhece um Arqui-Achado que eu possa pesquisar e divulgar? Me escreva (matteo@refugiosurbanos.com.br)

Links Relacionados :

https://arcoweb.com.br/projetodesign/artigos/artigo-a-habitacao-coletiva-na-obra-de-franz-heep-01-09-2002

http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/2649/5/Tiago%20Seneme%20Franco5.pdf

Filizola já pesava no Século XVIII

http://www.acropole.fau.usp.br/edicao/3/34