Finalmente a primavera chega em Paris. O casaco fica dentro do armário e enfim os parisienses podem sair por aí à vontade, passar as tardes nos parques, tomar sorvete no Jardin du Luxembourg ou um bom café nos terraços. Como brasileira-parisiense, não perdi a oportunidade de aproveitar bem essa onda de calor. Eu e alguns amigos resolvemos ir ao meu café favorito, que ironicamente se chama La Favorite.

Escolhemos a melhor mesa disponível na calçada, ela ficava em frente à porta de entrada.

– Bonjour, o que desejam? – disse o jovem garçom em tom simpático.

Loick  pediu uma taça de Chardonnay, Nikola, como sempre, um bom copo de cerveja e David preferiu experimentar uma dose de pastis. Até este momento, eu não havia tomado uma decisão. Então, decidi que arriscaria tomar um vinho tinto.

Notando a simpatia e disposição do garçom, não hesitei em lhe perguntar:

– Qual seria o vinho tinto mais doce e barato disponível?

– Estes dois adjetivos não combinam. Mas indico este aqui, disse ele rindo e apontando o nome do vinho com preço intermediário no cardápio.

– Então vai ser este, respondi sorrindo.

Logo, ele trouxe nossas bebidas e um boa porção de amendoins. Sempre muito atencioso e amigável, o garçom passava na nossa mesa perguntando se tudo estava bem e se desejávamos alguma outra coisa. Acostumada com certa secura dos garçons parisienses, fiquei surpresa com a atenção deste que estava a nos servir. Este sim, merece uma caixinha! Bom, isso até a página dois.

Conversa vai e vem até que chegamos à segunda rodada.

– Mais uma cerveja, por favor.

– Outra taça de Chardonnay, pediu Loick.

David  e eu resolvemos parar por ali. Sem mais vinhos ou pastis. O garçom continuou seu serviço e junto com as nossas bebidas, ele trouxe um anúncio:

– Bom amigos, eu termino o meu serviço por aqui, vocês poderiam pagar a conta agora, por favor?

Satisfeitos com o serviço do garçom, cada um de nós pagou sua parte da conta. Nikola pagou suas cervejas, Loick pagou as taças de vinho e David cobriu o resto.  Agradecemos e continuamos a conversar na nossa mesa. Sobre o nosso novo garçom, não tenho nada a comentar. Depois de uma hora, ele apenas trouxe mais uma cerveja para o Nikola e então, fechou a conta.

Tranquilos, fomos surpreendidos por nosso ex-garçom que veio dos fundos do restaurante, acusando-nos de maneira delicada e formal que tínhamos um débito de 4,50€ por um Chardonnay. Como? Não havíamos pedido mais nada! A conta estava fechada, o serviço estava terminado.

Demos inícios às investigações. Checamos os horários dos tickets e comprovantes, fizemos uma retrospectiva de quantos copos havíamos tomado. O garçom havia se enganado.

– Não, senhor. Não devemos nada. Cheque o horário dos recibos. Como poderíamos ter pedido um vinho à seu serviço há 5 minutos atrás, se o senho  já havia terminado o dia há pouco mais de uma hora?

Uma gota de suor caía na lateral direita da testa do garçom. Ele estava nervoso, era o fim do mundo! Onde estavam aqueles 4,50€?

Nós, estudantes pão-duros e certos que não devíamos mais nada a ninguém, afirmamos que não pagaríamos nada além do que necessário. Mas Loick, querendo evitar qualquer stress, pagou o que, supostamente, estava devendo. Chateado com a situação, David resolveu levar os recibos até o balcão para tentar entender a situação. Ele conversou com a gerente que não se deu o trabalho de abrir a boca, por outro lado, o garçom, percebendo que era o assunto da discussão, que até então parecia um monólogo, saiu correndo dos fundos do café para enfrentar David.

– O computador diz que vocês não pagaram 4,50€! Vocês tem a obrigação de pagar!

– Por quê? Nós não concordamos com isso. Cheque os horários, eles não batem. Não é certo pagar por algo que não consumimos.

A discussão tomou seu ritmo. Os rostos ficavam avermelhados, os dedos das mãos apontavam para lá, para cá, para todos os lados.

– Vocês devem pagar!

– Não!

– Vocês devem pagar!

– Não é certo! Não pedimos essa taça de vinho.

O garçom, vermelho, bufou em direção à nossa mesa e em passos pesados e apressados, ele jogou os 4,50€ sobre nós, gritando:

– Peguem os seus míseros 4,50€! Miseráveis!